Festival no Jaçanã abre espaço para artistas LGBTs das periferias

No último sábado (30) a Fábrica de Cultura do Jaçanã, na zona norte de São Paulo, sediou o primeiro Festival Sons da Diversidade, idealizado pelo coletivo Bando Jaçanã, formado por ex-aprendizes do projeto.

O objetivo foi abrir espaço para artistas independentes LGBT e incentivar a discussão da diversidade para a região.

“Senti que faltava espaço para esse tema aqui na periferia. Senti a necessidade de estabelecer esse diálogo com a comunidade”, afirma o estudante de jornalismo Luiz Henrique Honorato,19, um dos integrantes do Bando, morador do bairro de Jova Rural. 

“Nem todo mundo que mora aqui entende as questões dessa diversidade e por meio da arte, fazer as pessoas entrarem em contato com esse universo e as histórias dos artistas. Fazer elas refletirem sobre o assunto”, explica.

A dupla Marco Antonio Ribeiro e Letícia Ragassio formam a banda Íris há um ano e meio (Matheus de Souza/Agência Mural)

Uma das atrações foi a estudante Agatha Costa, 15, moradora do Jardim Felicidade, também na região. Ela toca violão desde os 10 anos e considerou importante a integração com outros músicos. “Foi uma experiência bem louca não só por cantar, mas pela troca com outros artistas. Tinha drag, rap, um som mais alternativo, bem diferente do que eu conheço”, diz.

“Tenho letras românticas, mas também de protesto sobre a realidade LGBT. Fiquei realizado ao ver tantos artistas engajados e talentosos”, diz Marco Antonio Ribeiro, 25, instrutor de treinamento morador de Artur Alvim.

Ribeiro compõe, canta e toca instrumento de corda desde os 12 anos e já se apresentou em coletivos da zona leste tocando ukulele, um instrumento musical havaiano. Foi a primeira vez na zona norte. Ele se apresentou com Letícia Ragassio, moradora do Jardim Marília, na zona leste, com quem forma a banda Íris há um ano e meio.

O cantor Ciano, nome artístico de Lucas Luciano, 20, também se apresentou. Ele veio do Jardim Fernandes, uma região entre Cidade Líder e Vila Formosa, na zona leste, e também sente a falta de discussão sobre o tema.

“Sou negro, gay e periférico, sei como é na prática essa falta de representatividade, esse não saber quem sou”, diz. Ele afirma que busca abordar temas relacionados ao dia-a-dia. “Minhas músicas não são sobre coisas distantes, são sobre as bichas pão com ovo, farofeiras, pobres, simples. Sobre gente como eu e a galera da minha quebrada”, completa.

Shows foram realizados na Fábrica de Cultura do Jaçanã (Matheus de Souza/Agência Mural)

“Às vezes parece só um show de música, uma festa para dançar, mas junto disso tem muita história, tem muita resistência, representatividade e empoderamento”, explica Ciano.

O publicitário Tchelo Gomes, 26, cantor e compositor mora em Barueri e apresentou seu trabalho solo. Ele faz parte do grupo Quebrada Queer

“Esse evento significa muita coisa, como ocupar mais um espaço. É  importante levar esse assunto para a quebrada, para o público periférico”, diz. 

Durante o dia, houve também a realização da Expo Mural.

Aline Kátia é correspondente da Jova Rural
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