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Gabriela Chaves fala de finanças pessoais com a ajuda de canções dos Racionais

Formada em economia, Gabriela trata de finanças pessoais e vê aumento de iniciativas que buscam abordar a educação financeira na periferia

Aos 10 anos de idade, Gabriela Mendes Chaves conseguiu uma bolsa de estudos em um colégio particular no qual a mãe trabalhava. A oportunidade foi crucial para que ela começasse a se interessar pela matemática e se tornasse economista.

“O dia mais marcante para mim foi a primeira aula que tive nessa escola, que foi uma aula de matemática e a professora estava ensinando operação com fração”, relembra. “Eu nunca tinha visto uma fração na minha vida.”

Ela conta que, neste dia, voltou chorando para casa, no bairro Jardim Trianon, em Taboão da Serra, na Grande São Paulo.

O contraste entre o que ela vinha aprendendo em escola pública e a nova escola era enorme para a pequena Gabriela. Mas ela sempre contou com o incentivo da mãe. 

Criada em Taboão da Serra, Gabriela Chaves é fundadora da NoFront Empoderamento

“Minha mãe falou: ‘Você não tem escolha, você vai ter que estudar e você vai se virar’. Lembro até hoje da sensação de ver a professora desenhando frações na lousa e eu não entender o que significava aquilo.”

Gabriela se formou em economia pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) São Paulo, pelo Prouni (Programa Universidade Para Todos), é mestre em Economia Política Mundial pela UFABC (Universidade Federal do ABC) e colunista do Uol Economia. 

Também é fundadora da “NoFront Empoderamento”, escola de educação financeira que ensina economia a partir de letras do grupo de rap Racionais MC’s.

“Os Racionais tem uma potência muito grande para falar dessas questões econômicas, ainda que não estivessem elaboradas num discurso acadêmico. Falam da economia concreta”,  afirma Gabriela, citando trecho da música Vida Loka Parte 2: “Não é questão de luxo, não é questão de cor, a questão é que fartura alegra o sofredor.”

A intenção dela era a de popularizar o conhecimento e trazer ferramentas para que trabalhadores e pessoas das periferias pudessem tomar melhores decisões financeiramente. 

“Se de um lado existe todo um universo onde as pessoas lucram muito com investimentos financeiros, do outro vejo muita gente endividada quando eu volto pra casa”. Com essa metodologia, Gabriela já formou cerca de 3.000 alunos.

Mas o caminho até ‘chegar lá’ não foi fácil. “Fiz muita coisa nessa vida”, conta. “Vendi tupperware, lingerie, cosmético, doce, comida. Formalmente, comecei a trabalhar como jovem aprendiz aos 14 anos, mas foi quando eu estava na faculdade que percebi o quanto a vida pode ser diferente, que existem outras perspectivas.”

Entre os 18 e 19 anos, Gabriela descobriu o universo do capital ao ingressar no mercado financeiro. Foi a partir daí que a percepção sobre o que é economia começou a se transformar. 

“[Comecei a] entender que existe toda uma forma de acumulação [monetária] que não chega ao conhecimento das pessoas que vinham de onde vim. Comecei a pensar como que poderia traduzir isso para as pessoas”, diz. 

“O emprego é uma questão que vai muito além da vontade individual das pessoas de acordar mais cedo, entregar currículo”, diz se referindo à análise econômica nacional como um todo.

Gabriela vê a chance de a periferia se desenvolver economicamente de forma coletiva

A primeira viagem internacional dela foi aos 21 anos, com destino à África do Sul. Ela havia acabado de se formar na faculdade e tinha economizado dinheiro por dois anos para realizar esse sonho. 

“Tem uma juventude aí que está muito sedenta por conhecimento. E como diz a canção do Ilê-Aiyê, se o poder é bom, eu quero poder também.”

Hoje, Gabriela enxerga um crescimento de iniciativas semelhantes a sua, que buscam educar pessoas de baixa renda para que possam investir no mercado financeiro de forma responsável. “Tem muita gente na periferia que tem condições concretas de fazer um investimento de longo prazo e só precisam de formação.”

Além disso, há uma grande aposta na juventude, que agora se desenvolve com um grande aliado, o acesso à informação. “Uma coisa maravilhosa dessa geração é que agora a gente tem ferramentas de comunicação que não se tinha 20 anos atrás”, afirma, mencionando os tutoriais disponíveis no YouTube. 

Também faz uma conexão com funk ostentação. “São os moleques falando que a gente não quer mais falar de pobreza”, diz. “A gente não está [aqui] para cultuar a pobreza, para cultuar a miséria. Só gosta de cultuar a miséria quem nunca passou fome. A periferia está interessada sim em pensar em projeto de futuro e pensar em como isso é possível.”

*Esta reportagem faz parte da série Crias da Quebrada, com a história de dez jovens das periferias de São Paulo

Patrícia Vilas Boas

Estudante de jornalismo, correspondente da Vila Curuçá desde 2019.

Vila Curuçá, São Paulo

Cléberson Santos

Jornalista, correspondente do Capão Redondo desde 2019. Trabalha com jornalismo esportivo para portais de notícias desde 2014, mas não sabe chutar uma bola.

Capão Redondo, São Paulo

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