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Game para celular exalta a representatividade da criança nas periferias

Criado a partir de um projeto de conclusão de curso, “Kintal” tem aventuras e busca criar identificação com meninos e meninas negras
Desenvolvedores também são personagens do game KintalDivulgação

Você já parou para pensar que o lugar onde mora na verdade pode ser bem mais mágico do que parece?  É essa pergunta que convida crianças, sobretudo negras e moradoras das periferias de São Paulo, a entrarem no game Kintal.

O jogo foi criado pelos estudantes Lua Paiva Castro Terra, Matheus Pigozzi, César Neves Mosca, Matias Faria Codas e Magno Borges como trabalho de conclusão de curso de design de games. A ideia partiu de uma pesquisa sobre a importância da representação da criança das periferias em jogos digitais.

A história do game gira em torno de uma criança que perde o cachorro e acaba indo parar em um mundo fantástico, onde é guiada pelo cachorrinho Kin e pode brincar com outras crianças. 

O jogo é composto por uma série de minigames, como futebol, vôlei e motoca, que podem ser jogados no modo multiplayer, com outros jogadores ao mesmo tempo. Os objetos que compõem as fases fazem alusão a jogos de rua, como pipa e carrinho de rolimã. 

Cenário principal do game KintalDivulgação

A construção do cenário também foi pensada e estruturada para representar as periferias como divertidas e coloridas.

“Quisemos deixar bem claro que o ambiente onde o jogador está transitando é periférico”, diz o ilustrador Matheus Pigozzi, 22. “Por mais que fosse um mundo lúdico, a cada passo que demos, nos certificamos que nada se passaria por uma tentativa de higienização ou camuflagem do que visualmente é uma periferia”.

Casas não terminadas, roupas no varal, grafites, pichações e mercadinhos dividem a atenção do jogador com monstrinhos amigáveis e arco-íris, sempre com muitas cores e outros personagens ao lado. 

A trilha sonora do game é composta por funk, ritmo que nasceu nas periferias. “Colocar esses elementos em um jogo pode significar muito para uma criança que more em uma dessas comunidades, pode significar autoaceitação”, conta Magno Borges, 35, que também é design e ilustrador da Agência Mural

“Queríamos tirar esse conceito de lugar ruim que os bairros no extremo costumam ter no imaginário de quem não mora nessas regiões, reforçando a ideia de que crescer nas periferias pode ser lúdico e saudável”. 

Ilustrador da Agência Mural, Magno Borges é um dos desenvolvedores do game KintalLéu Britto/Agência Mural

A CRIANÇA COMO PROTAGONISTA 

Nem todos os componentes do grupo criador de Kintal moram em regiões periféricas, mas alguns sim. Borges, por exemplo, vive na mesma casa desde que nasceu, no bairro do Jaraguá, na zona oeste de São Paulo.

Para ele, existem muitos jogos sendo feitos no Brasil hoje, mas poucos exaltam e representam a cultura periférica. “Muito do que é feito por aqui ainda fala de lendas nórdicas, se passa em terras mágicas da Europa, ou têm uma ligação forte com anime e mangás”, diz. “A gente sempre quis fugir disso. As narrativas brasileiras são ricas, não fazia sentido fazer jogos sobre dragões e vikings”. 

O artista diz que trazer a representatividade de moradores das periferias para o jogo pode ser algo empoderador, sobretudo para crianças que consomem esse tipo de conteúdo mas não costumam se ver ali. 

“As periferias são lugares cheios de vida com várias possibilidades de representação narrativa e estética. Queremos que as crianças que vivem nesses locais não se vejam como coitadas, mas como potências”. 

Todas as crianças representadas no jogo são negras. Por ser um game customizável, os acessórios, penteados e roupas remetem ao que é popular entre jovens nas periferias. A ideia era também criar identificação com as crianças negras e cada um pudesse montar como prefere ser.

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Personagens do jogo podem ser customizados Divulgação
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Cena do jogo Kintal. Game se inspirou em imagens das periferias Divulgação
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Kin é o cachorro que desaparece no game Divulgação
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Game foi criado em trabalho de conclusão de curso Divulgação

“Na mídia, muitas vezes o padrão de beleza é branco com o cabelo liso. Por isso, focamos também em apostar no cabelo crespo e com penteados. Demos mais possibilidades para criança usar coisas que ela usaria na rua”, completa. 

Para toda essa construção estética, o grupo fez diversas pesquisas e apostou em referências, como o coletivo de fotojornalismo que retrata as periferias, DiCampana. As crianças também foram escutadas, mas a pandemia dificultou o contato neste ano.  

“As poucas conversas que tivemos com as crianças renderam várias ideias. Elas pediram as motos, os tênis, roupas. Tem muito do pensamento delas no que fazemos”, ressalta Borges. 

O grupo ainda pensa em como continuar o projeto no futuro, bem como, fazer novos lançamentos. A ideia é que o jogo esteja disponível em breve para download e é possível conferir mais artes do game no Instagram do estúdio MadMaxixe.

Ana Beatriz Felicio

Jornalista e correspondente de Carapicuíba desde 2018. Curiosa, vive com a cabeça no mundo da lua. Gosta de conhecer pessoas e descobrir o que as motiva a acordar todos os dias. Apaixonada por novas aventuras, histórias, gostos e lugares. É daquelas que está sempre viajando, quando não fisicamente, com a ajuda de algum livro de fantasia ou de um bom filme.

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