Guaianases: dramaturgo escreve peça sobre genocídio da população negra

“Meu corpo está lá fora no chão perfurado com todos os buracos do mundo. Infelizmente não deu para trazer o pão. Essa nossa cor preta provoca os 50 tons de bege fortemente armados com seus dentes de sabre afiados, prontos para atacar. Mãe, prepare o velório como pode”.

Magro, com fala pausada, o cabelo cortado nas laterais com cachos na parte de cima. O nome dele é Jhonny Salaberg, 23, dramaturgo de “Buraquinhos ou O vento é inimigo do picumã”.

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Salaberg vem da periferia, em Guaianases, zona leste de São Paulo, onde morou em várias casas alugadas com a família. Há três anos em Santo André, na Grande São Paulo, para conseguir estudar na Escola Livre de Teatro.

Foi ali que nasceu a peça sobre a história de um número que apareceu no Atlas da Violência de 2015: a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil.

A obra conta a história de um menino nascido e criado em Guaianases, que vai à padaria a pedido da mãe, e leva um “enquadro” de um policial. Depois disso, a narrativa mostra uma corrida pela sobrevivência. O personagem passa por países da América Latina e da África, onde vive experiências que mostram como o racismo age em outros cantos do mundo.

“Primeiro, isso era um exercício primeiramente de três páginas, com começo, meio e fim. No decorrer do curso, pude voltar a ele para desenvolver mais a narrativa”, relembra. “E o processo foi se construindo muito organicamente, tanto que muita gente falou que escrevi bem rápido”, completa Jhonny.

Na correria, o menino é atingido por 111 tiros vindos de um policial. O número de balas faz referência a dois crimes: a Chacina de Costa Barros, no Rio de Janeiro, onde cinco jovens foram assassinados por policiais militares no bairro, quando voltavam para casa de carro. E 111 foi a quantidade de mortos no massacre do Carandiru em 1992.

O texto, narrado em primeira pessoa, também foi inspirado na infância do dramaturgo, que viu amigos morrerem de forma corriqueira. Sobre enquadros, lembra que não sofreu tantos quanto o irmão. Para ele, o fato de ser um jovem gay o livraram das abordagens policiais.

Imagem de Jhonhy na divulgação da peça (Divulgação)

Enquanto escrevia o roteiro, uma das preocupações era tratar de temas ‘pesados’, como racismo, de forma mais leve. Ele diz acreditar que assim o diálogo se torna possível com quem ainda não compreende a questão. “Precisava de uma maneira para chegar no outro”, diz.

A resposta veio do conceito de leveza proposto pelo italiano Ítalo Calvino, um dos mais importantes escritores do século 20, que foi estudado para o desenvolvimento da criação. “O objetivo final era que uma vírgula causasse mais dor que um soco”, parafraseou Salaberg.

“Buraquinhos ou o vento é inimigo do picumã” vem na força da metáfora, sim. O vento significa o policial, e o picumã é uma palavra indígena, que significa poeira ou foligem, mas no texto representa o menino”, define o dramaturgo.

Com a peça escrita, conseguiu incentivo público para produzir o espetáculo. A obra com os amigos Ailton Barros, Clayton Nascimento, sob a direção de Naruna Costa, ficou em cartaz entre junho e julho deste ano, na quarta mostra de dramaturgia do Centro Cultural de São Paulo.

Em dezembro, na escolha dos Melhores de 2018, a peça foi finalista nas categorias de Dramaturgia e Direção pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes). No início deste mês, os críticos divulgaram a lista e Naruna Costa levou o prêmio de melhor diretora do ano por causa do espetáculo.

Após as exibições, recebeu propostas para seguir em cartaz, mas por falta de dinheiro não conseguiu seguir com as apresentações. Hoje, busca apoio em editais e propostas para voltar com Buraquinhos.

A obra também deu a possibilidade de Jhonny fazer atividades na escola pública em que estudou. Na sala, fez rodas de conversas com os alunos e leu trechos do livro. Além de oficinas de escrita, os alunos fizeram a releitura do texto a partir de suas vivências.

“Eles contaram casos de preconceito com o cabelo e com a cor deles, da relação com a família, amigos. Acho que a troca foi bem importante. No fim, quando falava que estudei naquela mesma escola, eles ficavam desacreditados”, observa.

Como artista negro, Jhonny deseja que a história contada no livro não seja verdadeira daqui alguns anos. Apesar do cenário, que, segundo ele, não apresenta melhoras significativas à população negra.

Sobre as oportunidades, ele não enxerga pessoas da sua cor dentro da literatura e dramaturgia, mas faz uma promessa. “”Quero dizer que, se não abrirem as portas para a gente, iremos derrubar na porrada. Vai ser na bicuda, sem dó.”

O livro com a peça pode ser comprado online, no Facebook ou no site da editora Cobogó.  

Lucas Veloso é correspondente de Guaianases

0 thoughts on “Como o AI5 afetou periferias de São Paulo”

  1. Que lindo Ana Beatriz!
    Nos olhos e na voz dessas crianças é que realmente está a nossa esperança de um país melhor.
    Pessoas inocentes que conseguem enxergar o que muitos ignoram.
    É a vida de verdade,o sorriso estampado,o brilho nos olhos que mal sabem o que ainda vai ter que enfrentar.
    Um super abraço de toda família Centro Comunitário do Embura.
    Felicidades linda.

  2. Um raio x dessas pequenas Almas, que acreditam e sonham em um país onde tudo parece estar pedido, surge através da pureza e simplicidade o nascer da esperança dentro desses pequenos gigantes.
    Ainda vale a pena sonhar!

  3. Uma linda crônica, repleta de alma e total conhecimento do cenário atual de nosso país.
    São palavras assim que nos inispiram à lutar por mais um dia.
    Parabéns!!!

  4. Parabéns. Sou testemunha do seu ganho de saúde física, emocional e psicológica. Pois a bicicleta proporcionou a conscientização dos alimentos que lhe trazem energia e vitalidade e daqueles que intoxicam tirando o vigor pro esporte. Sua conquista de um corpo mais sadio e moldado também é digna de congratulações.

    1. Pessoa incrível, estudamos juntos e realmente sua história de vida é algo que muitas pessoas que tiveram a oportunidade de conviver um pouco com ele aprendeu muito.

  5. Fantástico ! Com todos percalços que a periferia oferece na prática esportiva, eis uma superação e motivação para deixarmos de ser sedentários ! Parabéns Mauro pela iniciativa !

  6. Olá,
    Gostaria de saber se a possibilidade de receber bolsa de estudos para esse curso em específico. Que Muito fazer, mas não possuo recursos no momento para investir.

    Desde já agradeço.

    1. Olá, Sheila! Muito obrigada pelo contato e interesse pelo curso. A atividade é oferecida pela faculdade, logo, vale tentar direto com a Fespsp a possibilidade de conseguir alguma bolsa.

  7. Paulinho, esta sim é a mais linda forma de Dizer Eu Te Amo Para um Pai!
    Você fez uma linda homenagem, para o Tio Paulo, que é Paizão de toda Família.
    Deus abençoe a todos os Filhos.

  8. Zorade, ai sim meu grande sobrinho, que homenagem de arrepiar.! Digo nunca vista, (é claro)pois cada um é um…Quanta sabedoria vestida de aparente ignorancia! O jeito de ser do meu irmao meio estranho, superou os grandes modos finos de criar seus filhos…Quanta riqueza de carater , de valentia também,ele apresentou a voce e a essa exelente Mae que te trouxe ao mundo…Familia pequena nas de grande peso..kkkk em todos os sentidos…No seu relato voce se esqueceu de falar sibre a bondade do coraçao dele…Tem umas histórias de caridade dele que admiro!…Parabéns pela homenagem ! Que Deus lhe proteja , que cada vez mais sua intelugencia seja ativada….abraços

  9. Olá boa tarde,
    Gostaria de parabenizar pela iniciativa e tbm Têmos que girar essa informação e cobrar de forma correta e pacífica dos responsável para tal , tendo em vista que somos moradores da região Têmos essas e outras dificuldades sendo que todos nós vamos receber visitas Nos próximos dias de político ou de seus prestadores de serviços prometendo o que não se cumpre ,uma vez que se não formos no dia votar somos obrigados a pagar multa e tenho certeza que todos nos não deixamos de pagar e quando se trata de olhar um pouco pra lado mínimo que é ,transporte, segurança, iluminação, etc.. Nos não temos respaldo ,então diariamente ouvimos relatos e acontecimentos que cada dia dificulta mais a vivência no bairro, só lembrando que mesmo sendo uma APA todos aqui são eleitores que seguem a risca com suas obrigações e o que queremos é o mínimo se iníciando pelo Respeito aos moradored e direito de ir e vir que já não temos mais.
    Att:
    Gilmar Rodrigues

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