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Há mais de 40 anos, clubes de mães da zona sul protestavam contra política econômica da ditadura

Reunidas nos clubes de mães, elas foram as responsáveis por levar, em 1978, um abaixo-assinado com 1,3 milhão de assinaturas até o presidente Ernesto Geisel

Eram cerca de 20 mil pessoas em um protesto contra a política econômica da Ditadura Militar na Praça da Sé, no centro de São Paulo, naquela tarde de 27 de agosto de 1978. Os manifestantes, sob o nome de MCV (Movimento Custo de Vida), cantavam um hino que começava com uma indagação: ‘como pode um povo vivo, viver nessa carestia?’

A particularidade daquele ato se concentrava no lugar onde ele tinha sido criado, longe dos sindicatos e dos movimentos estudantis: na verdade, ele começou nos clubes de mães da zona sul, formados por mulheres da periferia de São Paulo.

Ligados à Igreja Católica, os clubes de mães nasceram no começo dos anos 1970 em bairros nas margens da Estrada M’Boi Mirim, e eram, de início, espaços onde as mulheres aprendiam atividades artesanais como bordado, crochê, tricô, entre outras.

Crédito: Acervo Digital FolhaProtesto noticiado pelo jornal Folha de S. Paulo

Quem ensinava estes ofícios eram as esposas de empresários do Lions Club, uma ONG filantrópica. “Elas traziam tudo: lanche, material [para as atividades] e até pessoas para cuidar dos nossos filhos”, lembra Odete Marques, 79, uma das principais articuladoras dos clubes de mães e participante do grupo da Vila Remo, bairro do distrito do Jardim Ângela.

Como as esposas dos empresários sempre levavam o artesanato produzido embora, sem haver qualquer retorno do que era feito com eles, a relação se desgastou até minar de vez com a intervenção direta do padre da comunidade, que encerrou a parceria. “Fomos percebendo que estávamos meio que sendo usadas”, relata Odete.

A partir daquele momento, as próprias mulheres dos clubes de mães passaram a gerir aqueles grupos, e as atividades se diversificaram. Com o tempo, os problemas de infraestrutura das comunidades passaram a ser discutidos em rodas de conversa.

CRESCIMENTO DOS CLUBES

Em 1972, representantes de clubes de mães da região do M’Boi Mirim criaram uma espécie de coordenação regional que, já no fim da primeira metade da década, contava com quase 30 clubes espalhados pela zona sul da capital. Lá, se discutiam ações que poderiam ser feitas conjuntamente entre os grupos.

“A gente não decidia nada sem que todos [os clubes de mães] tivessem discutido o assunto e dado a sua opinião”, lembra a missionária Cecília Hansen, 80.

Enviada para a Vila Remo em 1972 para desenvolver um trabalho de aproximação da Igreja com a comunidade, Cecília se tornou uma ligação importante entre a Igreja e aqueles grupos de mulheres. “Isso foi de encontro a mim pois eu sempre quis trabalhar com o povo excluído”, diz.

Movimentos por saneamento básico, creches e escolas para as crianças começaram a surgir de dentro dos diversos clubes de mães, e eram abraçados pela rede. O que era uma demanda das mães de uma comunidade, logo se tornava de toda a região.

A ideia de mostrar a insatisfação daquelas mulheres contra a política econômica nasceu de discussões no Clube de Mães do Jardim Nakamura, bairro do distrito do Jardim Ângela.

Crédito: Diário do Congresso NacionalGrupo fez levantamento de preços na época

Entre outubro de 1972 e o mesmo mês de 1973, as mulheres dos clubes de mães se articularam e fizeram um levantamento sobre o aumento do preço de alimentos de primeira necessidade no período. Os dados mostraram que o arrocho era sentido mais fortemente nas regiões periféricas da zona sul do que nos bairros centrais da capital.

Junto com a pesquisa foi feita uma carta que foi entregue ao então deputado federal José Freitas Nobre (MDB/SP), que a levou até o Congresso. Foi a partir desse levantamento e dessa carta que o Movimento Custo de Vida deu os primeiros passos.

Em 1975 foi realizado um novo levantamento, mais panorâmico e feito em 2.000 domicílios da zona sul. Ele foi apresentado em 1976 na primeira grande assembléia sobre o custo de vida dirigida pelos clubes de mães, no Colégio Santa Maria, no Campo Grande, distrito da zona sul da capital, onde reuniram-se 5.000 pessoas.

O levantamento foi enviado a diversas autoridades junto com uma carta e um abaixo-assinado com quase 20 mil assinaturas. Pediam o congelamento do preço dos produtos de primeira ordem e o aumento dos salários dos trabalhadores. O Movimento Custo de Vida não obteve nenhum retorno.

UM MILHÃO DE ASSINATURAS

Foi neste período que os clubes de mães se espalharam para pontos da zona sul próximos à represa Billings e ao ABC Paulista, deixando de ser uma exclusividade dos bairros próximos à represa do Guarapiranga. Grupos também foram criados na zona norte e no extremo leste da capital.

O MCV teve mais uma assembleia pouco mais de cinco meses antes daquele ato de agosto de 1978, em 12 de março, no Colégio Arquidiocesano, na Vila Mariana, onde reuniram-se novamente 5.000 pessoas. O evento marcou o lançamento do segundo abaixo-assinado do MCV, que tinha uma meta ousada: 1 milhão de assinaturas.

Crédito: Jornal MovimentoComissão levou 1,3 milhão de assinaturas até o presidente Geisel em 1978.

Depois de alcançada a meta, o documento seria entregue ao então presidente do Brasil, Ernesto Geisel, e outras autoridades. Contando com um número 50 vezes maior de assinaturas que aquele abaixo-assinado de 1976, o MCV estava disposto a fazer barulho para não passar despercebido – e conseguiu.

Foram cerca de 1,3 milhão de assinaturas coletadas nas praças, escolas, Igrejas, entre outros espaços de grande circulação, na cidade de São Paulo e em outras municípios do interior do estado e do Brasil a fora.

Autoridades foram convidadas a comparecer na Catedral da Sé para receber todos aqueles papéis com assinaturas que, juntos, pesavam quase 7kg, mas ninguém deu as caras. Logo foi definida uma comissão para levá-los até Brasília para serem entregues pessoalmente ao presidente Geisel.

No dia 10 de setembro daquele ano, a comitiva encarregada levou as assinaturas para Brasília. Quinze dias depois, a única resposta do governo: o MCV era ‘desonesto’ e, segundo um exame grafotécnico feito pela Polícia Federal, havia duplicidade nas assinaturas.

A Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo fizeram editoriais criticando a resposta do governo. O MCV disse que a duplicidade nas assinaturas acontecia pois havia quem assinasse por si e por pessoas analfabetas, cabendo nesse espectro as mães que assinavam por seus filhos.

Desavenças internas sobre os rumos do movimento acabaram minando pouco tempo depois. A Igreja diminuiu o vínculo com o MCV que, já no ano seguinte, mudou seu nome para MCC (Movimento Contra a Carestia) e passou a ser controlado pelo PCdoB (Partido Comunista do Brasil).

Odete lembra que o MCV perdeu conexão com a sua principal base, que eram os clubes de mães da zona sul. “As reuniões [do MCV] eram aqui na região, então era fácil para todo mundo. Depois [com a mudança para MCC] elas mudaram para a região central [de São Paulo], e o pessoal não podia ir porque voltava tarde da noite”, diz lamentando.

Ela lamenta que hoje, com toda a tecnologia e liberdade existente, não haja movimentos dessa grandeza na periferia. “Naquela época, onde tudo era difícil e nem poderíamos nos encontrar, onde tudo era feito nas escondidas e não tínhamos condição financeira, fizemos tudo aquilo”, diz.

FUNDO CLUBE DE MÃES DE ZONA SUL

Cecília acumulou cerca de 6 mil documentos entre atas, panfletos e abaixo-assinados sobre os clubes de mães e o MCV. “Eu sempre fui de juntar as coisas e sempre gostei de história também” diz.

Hoje, eles estão sob tutela do CEDEM (Centro de Documentação e Memória), órgão ligado à UNESP (Universidade Estadual Paulista), onde podem ser consultados sem restrição de acesso.

Para a missionária, deixar todos esses documentos no CEDEM é uma forma de garantir que a história continue viva. “Eles sabem os meios para não estragar esses papéis”, argumenta. O arquivo pode ser consultado na sede do Cedem no prédio da Unesp no centro de São Paulo, localizado na Praça da Sé, n° 108.

Henrique Sales Barros

Jornalista em formação e correspondente do Jardim Ângela desde 2019. Também é colaborador do coletivo O Contra-Ataque.

Jardim Ângela, São Paulo

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