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‘Há muitos artistas negros produzindo no Brasil e no exterior’, diz criadora do Descolonizarte

Projeto criado pela jornalista Bárbara Alves busca divulgar artistas das periferias brasileiras que ainda não tiveram reconhecimento
Barbara criou site no ano passado

Em 2019, a jornalista Bárbara Alves de Sousa, 21, visitou a exposição Histórias Afro-Atlânticas, no Masp (Museu de Arte de São Paulo) e no Tomie Ohtake. A visita despertou uma reflexão: a falta de espaços que mostrem a produção de artistas negros e indígenas. 

“Nunca havia entrado em contato com um número tão elevado de obras feitas por artistas negros”, afirma. 

Foi quando ela decidiu criar o ‘Descolonizarte’, focado na divulgação de escritores, cineastas e artistas visuais negros e indígenas. 

Moradora de Cajamar, na Grande São Paulo, ela pesquisa diariamente sobre novos trabalhos. O nome do site se baseou na ideia de arte e cultura descolonial, sem influência europeia. 

No portal, traz capítulos da história da arte e também dá atenção à produção cultural das periferias brasileiras, por meio de reportagens e entrevistas com artistas dessas regiões. 

Todos os dias, inclusive aos fins de semana, Bárbara indica nomes de artistas visuais, como Brednatella, nome artístico do brasileiro Brendon Reis de Jesus e da jamaicana Tamara Natalie Madden.

Para Bárbara, Nene é uma das principais artistas da cena atual | Caroline Lima/Divulgação

Bárbara pontua que precisa ter um volume considerável de artistas salvos. “O objetivo principal é mostrar que há muitos artistas negros produzindo, tanto aqui no Brasil como no exterior”, relata. 

Para ela, questionar a razão pela qual as referências de artistas visuais dadas pela sociedade são majoritariamente brancas, enquanto há diversos artistas negros com uma forte produção que não recebem a visibilidade é outro debate necessário no país. 

CULTURA OFUSCADA NO BRASIL

O Instagram e o Twitter são algumas das ferramentas em que Bárbara encontra os artistas contemporâneos para indicar aos seguidores. Nas pesquisas voltadas para os movimentos e para a história da arte, lê diversos textos, além de visitar sites de galerias pelo mundo. 

Uma das coisas que ela percebeu é que a maior parte dos conteúdos que consome são em inglês. “Infelizmente, não há tantos materiais sobre o tema em português, o que dificulta o acesso do grande público a essa discussão”. 

Outra desafio é encontrar referências sobre a produção de artistas negros brasileiros que não estão mais vivos. Ela diz que, às vezes, até achar os trabalhos deles em boa resolução é difícil, mas a situação piora quando se fala em informações sobre a biografia. 

De Diadema, na Grande SP, Robinho Santana foi um dos entrevistados por Bárbara | Arquivo Pessoal

DIFICULDADES DOS ARTISTAS

Na experiência, Bárbara diz que uma das dificuldades primárias enfrentadas pelos artistas nas periferias é a falta de incentivos desde o ambiente escolar. 

“O trabalho destinado para os habitantes das periferias é em grande parte, braçal e não intelectual. Com a ampliação do acesso ao ensino superior, um pouco dessa lógica foi quebrada, mas ainda há muito trabalho para ser realizado”. 

Diz que é fundamental que a educação ofereça a possibilidade de que os moradores das periferias sejam produtores de arte. Bárbara observa que muitos artistas encontram dificuldade para precificar as obras, pois sabem que muitos nas periferias não tem dinheiro para comprar arte.

Por outro lado, a arte se desenvolve de forma autônoma e com muita solidariedade entre os artistas. “Muito se deve às redes sociais, que unem artistas de diferentes periferias e que permite a troca de informações e vivências”.

Portal foi criado em 2019 | Reprodução

Ela cita iniciativas que tentam mudar esse cenário como a ATQN [coletivo de artistas e ativistas], de Diadema, e a Ocupação Mateus Santos, de Ermelino Matarazzo, na zona leste de São Paulo.

A jornalista acrescenta que os dois projetos são autônomos e geridos por pessoas que vivem nessas regiões e entendem a importância de estimular a produção artística nas periferias. 

“O distanciamento perpetua a ideia de que frequentar esses espaços é algo restrito para os grupos mais favorecidos da sociedade e que moram nas regiões mais privilegiadas”, comenta. “É preciso que esses ambientes se descentralizem territorialmente e alcancem também as periferias”. 

INDICAÇÕES

A Agência Mural pediu para Bárbara indicar alguns artistas aos leitores. 

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Imagem da galeria
Lya Nazura, da zona leste de SP, desenvolve um trabalho voltado para o afrofuturismo. Arquivo Pessoal
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Imagem da galeria
Cauã Bertoldo, da zona sul de SP, é outra indicação com trabalho voltado para a desconstrução tóxica de masculinidade
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Andy Reis
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Arista Griô também teve trabalhos divulgados
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Imagem da galeria
Artista Lelo. Projeto tem divulgado iniciativas nas periferias

A primeira artista é Lya Nazura, da zona leste, que desenvolve um trabalho voltado para o afrofuturismo. “Ela também pesquisa sobre arte decolonial, quadrinhos e é cineasta”,  comenta Bárbara. 

Cauã Bertoldo, da zona sul da capital, é outra indicação. Segundo Bárbara, o trabalho dele é voltado para a desconstrução tóxica de masculinidade. “Eu admiro muito a forma com que ele desenvolve a identidade dos personagens dele, sempre abordando um aspecto diferente voltado para esse tema”. 

Na sequência, a artista visual Nene Surreal, de Diadema, na Grande São Paulo, aparece entre os nomes. “Possui um trabalho extenso com graffiti e já participou de vários eventos, como a Bienal Internacional do Graffitie”, conta Bárbara. “É um dos nomes mais importantes e necessários da cena”. 

Outros nomes como Andy Reis, Ana Resendo, Lelo, Lucas Almeida, Kaique Vieira, Pixote, Griô, Victrre, Bruno Alves, João Moxca, Robinho Santana são outras indicações de artistas nas periferias que já foram abordados no site

Lucas Veloso

Jornalista, cofundador e correspondente de Guaianases desde 2014.

Guaianases, São Paulo

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