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Águas do Aricanduva: antes do shopping, bairros cresceram na região ao redor de lagoa

História do distrito da zona leste de São Paulo é marcada por bicas e lagoas, que eram a fonte de água potável na década de 1970

Considerado o maior shopping da América Latina, o Aricanduva foi o segundo centro comercial da zona leste de São Paulo. O nome é consequência da localização da avenida Aricanduva, denominado assim por conta do rio que é um dos principais afluentes do Rio Tietê. 

Mas não é de hoje que o espaço se dá como um ponto de encontro para moradores da região. A área onde se encontra o shopping marcou a rotina da formação dos bairros ao redor devido à grande quantidade de lagoas, minas d’água e bicas. Na década de 1970, quando começou a ser povoada, a região utilizou desse recurso geográfico para suprir necessidades básicas. 

É o que relembram moradores, como a operadora de telemarketing Marlene Calisto Martins dos Santos, 55, que chegou ao Jardim Marília, um dos bairros do distrito, aos sete anos em 1970.

“Quando chegamos aqui, não tinha nada, tinha umas três ou quatro casas na rua. Não tinha luz, não tinha asfalto, só mato, córrego e plantação de eucalipto. Tinha bastante nascente de água, íamos buscar água para lavar roupa. E eu ia para brincar. Adorava ficar dentro da água”, conta ela.   

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Imagem atual da região exposta no Shopping Aricanduva Reprodução
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Avenida Aricanduva com as obras já finalizadas Arquivo Público Municipal
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Rio Aricanduva em 1986. As imagens do Arquivo Público Municipal foram pesquisadas pelo historiador Márcio Reis Arquivo Público Municipal
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Marlene Martins chegou ao Jardim Marília na década de 1970 Arquivo Pessoal
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Crianças brincando no Rio Aricanduva em 1986 Arquivo Público Municipal

“Anunciaram o loteamento no rádio e minha mãe foi tentar comprar. Na época, a água que usávamos era de duas bicas que ficavam onde hoje é o shopping”, ressalta  a entrevistadora social Josilda Almeida Campelo, 53, também moradora do Marilia. 

Ao lembrar dos momentos na antiga lagoa, ela conta que brincava escondido com os irmãos, já que haviam muitos acidentes que preocupavam os pais. 

Posteriormente, alguns moradores abriram os próprios poços em casa. Porém, nem todos davam água. Para parte dos moradores, a fonte eram as minas e bicas que continham água limpa. “Era sofrido, mas divertido. Fazíamos tudo na mina. As mulheres se conheciam, faziam amizade, combinavam festinha de aniversário. Era um ponto de encontro”, lembra Josilda. 

Josilda lembra as dificuldades para conseguir abastecimentoGabriela Silva de Carvalho/Agência Mural

CONQUISTA DOS MORADORES

Nessa época, o transporte na região era precário. Segundo a entrevistadora social, para chegar ao bairro era necessário descer em um ponto de ônibus na Avenida Itaquera ou na Avenida Rio das Pedras e percorrer o resto do caminho a pé. No caso da opção do Rio das Pedras, era necessário até mesmo atravessar o Rio Aricanduva. 

Marlene diz que o único banco da região ficava próximo à Inconfidência Mineira, do outro lado do rio. “Quando minha mãe comprou a casa, precisávamos pagar a prestação e todo mês tínhamos que atravessar para o outro lado, a ponte de passagem era bem mais estreitinha. Eu morria de medo, as pernas ficavam moles só de olhar para a água embaixo”, lembra. 

Marlene vive na região desde os anos 1970Gabriela Silva de Carvalho/Agência Mural

Mas, aos poucos, alguns avanços chegaram. Josilda relata que os moradores se reuniam para cobrar os órgãos públicos. A primeira sociedade do bairro se articulou para trazer luz para a região. “Tentamos trazer a luz puxando fios da Avenida Itaquera. Além disso, os moradores que construíram a primeira Igreja, de São José, foi uma votação do pessoal”, completa Josilda. 

Após a construção da Avenida Aricanduva, em 1979, o problema do transporte também começou a receber atenção. 

MUDANÇAS NO CENTRO COMERCIAL

Em meados da década de 1980, a região começou a receber mais estrutura. Pouco a pouco, escolas, mercadinhos, asfalto e luz foram implantadas. E, em setembro de 1991, o shopping Aricanduva foi inaugurado. 

“Achei uma modernidade. Você morar na periferia e ter um shopping perto de casa até hoje é muito bom. Poder ir a pé de forma fácil [a um shopping] é algo que pouca gente consegue”, comenta Marlene. Ela trabalhou durante cinco anos no local. 

Maria comenta que a região teve mudanças depois da chegada do shoppingGabriela Silva de Carvalho/Agência Mural

Antes do centro comercial, uma das únicas possibilidades para fazer compras era ir até a Avenida Celso Garcia, onde há estabelecimentos comerciais ou até a Avenida Conselheiro Carrão. 

Para a moradora Maria José Magalhães, aposentada de 68 anos, a chegada no shopping também diminuiu a violência na região: “na época da lagoa, era muito mais perigoso. Tinha muito mato e o bairro era isolado”. 

UMA ESTRUTURA A SER MELHORADA 

Mesmo com boa estrutura, o shopping trouxe outro elemento para o bairro. Aumentou os congestionamentos. 

Segundo Marlene, a entrada do espaço precisava ser ampliada para facilitar a passagem. “O acesso não foi bem planejado e não dá vazão para todo mundo”, opina ela.

Além disso, o planejamento também se relaciona com as particularidades do espaço geográfico. “Hoje, estão fazendo galerias para diminuir os problemas, mas a chuva atinge o espaço do shopping e causa alagamento às vezes, principalmente no estacionamento onde existia a lagoa”, diz Josilda. 

Gabriela Carvalho

Jornalista e correspondente do Jardim Marília desde 2019.

Jardim Marília, São Paulo

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