Hospital do Mandaqui tem superlotação e espera de 4 anos para cirurgia

“Aprendi a conviver com a dor”. A confissão é do técnico de informática Ricardo Santos, 40, que rompeu o ligamento do joelho esquerdo e aguarda por uma cirurgia há quatro anos, no Hospital do Mandaqui, o maior da zona norte de São Paulo.

A unidade é alvo de queixas de demora no atendimento, de pacientes em macas pelos corredores, falta de médicos e de equipamentos. As denúncias cresceram nos últimos meses e fazem parte de uma moção de repúdio divulgada por usuários do Conselho Gestor contra a falta de atenção do governo estadual no local.

Ricardo espera pela cirurgia do joelho desde 2014, quando fez exame de ressonância magnética e teve o diagnóstico de rompimento do ligamento.

“O médico disse que não havia tratamento para o meu caso”, explica.  Desde então, apesar de ir sempre ao hospital, ele diz que o procedimento jamais foi agendado.

“Além do esquerdo, o outro joelho começou a doer, pois fica sobrecarregado. Tenho dificuldade pra andar, só posso ir bem devagar, se acelero ou tento correr, perco o equilíbrio. Dói demais, incha e parece que tem um osso batendo no outro. Aí tenho que tomar um analgésico forte”, detalha.

Questionada, a secretaria estadual de saúde alega que o paciente “foi acompanhado por equipes especializadas em cirurgia de joelho entre 2013 e 2016, e não consta indicação cirúrgica em prontuário, apenas tratamento ambulatorial. A última consulta foi em julho de 2016, quando foi orientado a voltar três meses depois, mas não retornou”.

O técnico em informática Ricardo Santos teve ruptura no ligamento do joelho e aguarda cirurgia há quatro anos. (Sidney Pereira/Agência Mural)

Há dois anos, ele foi à AMA Municipal Parque Peruche, onde foi confirmada a necessidade de cirurgia. “Há cinco meses confirmaram meus dados, fiquei animado, mas nunca mais ligaram”, lamenta. Responsável pela AMA, a secretaria municipal da Saúde não justificou a demora no atendimento, mas agendou uma “consulta na especialidade de cirurgia ortopédica para o dia 6 de julho, no Hospital Santa Cruz”.

INFECÇÃO

Fabrício de Paula, 34, operou de apendicite em 2016 no Mandaqui, mas as consequências o afetam até hoje. “No primeiro atendimento, tudo correu bem. Os problemas começaram quando ele recebeu alta, sentiu dores em casa e voltou ao hospital. Estava com infecção abdominal”, diz o gerente Flávio de Paula, 29, irmão de Fabrício.

“O médico fez uma punção, não em uma sala esterilizada, mas sim em um consultório”. O paciente  recebeu 37 pontos e ficou internado dez dias no corredor do pronto-socorro, ao lado de mais 40 pessoas .

“Até pra conseguir uma maca foi difícil. Alguém da família ficava dia e noite com ele. Sem cadeira, a gente “dormia” em pé mesmo. Chegamos a ouvir que não dava para trocar o curativo porque faltava gaze ou esparadrapo. Então, a gente ia na farmácia e comprava”, relembra.

Fabrício passou a usar uma bolsa de colostomia até hoje. Há pouco tempo, começou a fazer exames para passar por nova cirurgia, na esperança de voltar à vida normal.

O Hospital do Mandaqui é o maior da zona norte de SP (Sidney Pereira/Agência Mural)

REPÚDIO

Representantes dos usuários no Conselho Gestor organizaram um “abraço fraternal” na quarta-feira (27), quando divulgaram uma Moção de Repúdio ao “descaso com a saúde pública e o caos estabelecido no hospital pelo Governo do Estado”.

“O Mandaqui não é um péssimo hospital, os médicos são heróis, os funcionários amam o local. O abraço foi uma forma de resgatar esse amor, a solidariedade”, diz o conselheiro Antonio Cabral, 58, presidente da comissão executiva.

Ele ressalta que há casos de pacientes aguardando cirurgia por até 90 dias na enfermaria. Cabral chama de “maquiagem” o número oficial de funcionários. “Existem profissionais de férias, de licença prêmio, doentes, com acúmulo de função, todos sem reposição”, afirma.

SECRETARIA

Questionada pela Agência Mural, a secretaria estadual da Saúde respondeu que o hospital do Mandaqui faz, mensalmente, 13 mil atendimentos no pronto-socorro e mil internações “priorizando casos graves e gravíssimos. Os pacientes com casos mais simples podem ter de esperar mais pelo atendimento. Quando os leitos são liberados, os pacientes em observação são encaminhados para internação”.

Sobre a falta de profissionais, o órgão declara que o hospital tem “2 mil funcionários, sendo 500 médicos”.

Sidney Pereira é correspondente da Vila Maria
[email protected]