Idosos nas periferias mantêm trabalho após aposentadoria para garantir renda extra

No dia do idoso, a Agência Mural ouviu moradores da zona leste sobre a necessidade de continuar trabalhando após chegar à terceira idade

Maria de Lurdes, 60, está aposentada desde dezembro de 2018. Mas não deixou de trabalhar. Moradora de Cidade Tiradentes, na zona leste, ela abre a loja de produtos de limpeza de segunda a sábado na companhia da cachorra Luci, que adotou após cuidar dos ferimentos de um acidente que o animal sofreu. 

Natural da cidade de Mantenópolis, do Espírito Santo, Maria já passou pelas indústrias têxtil e metalúrgica, foi demonstradora de produtos em supermercado, vendedora de consórcios e até cursou técnico em enfermagem.

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Hoje comanda a “Branca Produtos de Limpeza”, estabelecimento que leva o apelido que ganhou dos irmãos quando ainda era criança. Além disso, ela é autônoma, pastora e revendedora de cosméticos.

“Meu pai morreu com 65 anos porque parou de trabalhar”, conta sobre o pai que, vindo do interior, não se adaptou ao trabalho na cidade. Para ela, “o ser humano não pode parar de trabalhar, senão ele morre”.

Crédito: Larissa Teixeira/Agência MuralMaria de Lurdes, a Branca, abre a loja de segunda a sábado na companhia da cachorra Luci

Neste 1º de outubro é celebrado o “Dia do Idoso” e a Agência Mural ouviu moradores das periferias que chegaram à terceira idade e, mesmo aposentados, têm mantido um trabalho para garantir renda extra.

Atualmente existem 1,7 milhão de idosos no município, equivalente a 15% dos cidadãos paulistanos. Até 2050, a população idosa corresponderá a 30% do total de habitantes da cidade de São Paulo, afirma a Fundação Seade. 

Segundo a Pnad Contínua do 2º trimestre de 2019, 21% da população do Sudeste tem mais de 60 anos e, desses, 8,8% está ocupada.

Segundo a pesquisa Perfil do MEI realizada pelo Sebrae em 2019, 26% dos Microempreendedores Individuais têm mais de 50 anos. Do total de pessoas com cadastro ativo, 40% trabalham em casa, 28% em estabelecimento comercial e 11% na rua. 

No caso de Branca, ela vende também um sabão que faz misturando óleo de cozinha e soda cáustica. No estabelecimento, os clientes levam óleo usado e também roupas, as quais doa para igrejas que distribuem para quem precisa. 

“Às vezes eu desço pra cá e não ganho um centavo”, explica Maria. Mesmo assim, diz que vale a pena por ver a atividade como uma forma de lazer. Ela lembra de pessoas que vêm até a loja apenas para conversar, por exemplo.

O trabalho neste momento é também instrumento de liberdade. Conta que não pode trabalhar durante o primeiro casamento, pois era impedida pelo ex-marido.

“Nasci pra correr atrás das coisas, não ficar em casa quieta”, analisa ao destacar como a independência financeira é boa: “Não depender de homem pra nada é muito gostoso”, complementa.

Em 2004, Maria trocou a casa financiada na Vila Antonieta, que pertence ao distrito do Aricanduva, por um apartamento com garagem, onde funciona a loja de produtos de limpeza em Cidade Tiradentes, outro bairro da zona leste. 

Apesar do trabalho, a aposentada diz que não exagera. “Não sou escrava do trabalho e nem do lar”, resume Maria.

Crédito: Gabriela Alves/Agência Mural“’Me aposentei na enfermagem e arrumei um passatempo reformando roupas”, relata Jacira Santos

AJUDA AOS FAMILIARES

Com 19 anos de profissão, a enfermeira Jacira Santos, 57, teve a aposentadoria antecipada há oitos anos. Ela  sofreu um acidente de trabalho enquanto ajudava a segurar um paciente. 

Trabalhava na ala de oncologia, setor responsável por tratar pessoas com algum tipo de câncer, e torceu o braço esquerdo ao evitar a queda de um garoto da cama. A lesão a impossibilitou de seguir com a rotina dos plantões médicos. 

Moradora de Itaquera, zona leste, é responsável pelo sustento de parte dos familiares, composta por irmãos e sobrinhos. 

Como fonte de renda extra, passou a trabalhar com pequenos consertos de roupas em uma oficina a poucos metros de casa. “Não posso fazer muito esforço por causa da coluna, vou nas minhas condições. Não dá para ficar o dia inteiro em casa, mesmo com o desgaste”, sintetiza Santos.

Ela avalia, porém, que em um futuro próximo terá de parar de trabalhar. “A minha saúde não está boa, esses dias mesmo não estava bem. Preciso considerar o melhor para mim agora”, explica. 

Para ela, a renda média brasileira tem caído muito e, com isso, as pessoas idosas sem condições de trabalhar fazem esforços para não morrer de fome.

Essa realidade é ainda mais presente em áreas periféricas, mostra o levantamento divulgado este ano pela SMDU (Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano).

A desigualdade socioterritorial é mostrada quando comparamos a renda dos idosos moradores próximos ao centro de São Paulo e aqueles que residem nas periferias. 

A pessoa idosa que vive no Morumbi tem um rendimento mensal de R$ 13,8 mil, 15 vezes mais dos que vivem nos distritos do Lajeado, Marsilac e São Rafael, por exemplo.

O recenseamento de 2010 feito pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) constatou que a maioria desses idosos não tinha carteira assinada, em atividades autônomas como costureiras, vendedores ambulantes e em trabalhos manuais.

Crédito: Larissa Teixeira/Agência MuralAna Rita atua em associação que ajudou a criar há 30 anos

MAIS LIBERDADE

Ana Rita Eduardo, 62, é pedagoga de formação, autônoma e aposentada. Ela começou a trabalhar aos nove anos como garimpeira (catadora que pega materiais mais caros como cobre) para ajudar a mãe na renda de casa.

Depois trabalhou como empregada doméstica até ter a carteira assinada pela primeira vez aos 14 anos de idade na indústria têxtil. 

Ana já foi manicure, cabeleireira, atendente de enfermagem, técnica de saúde bucal e gerente de UBS (Unidade Básica de Saúde). Ela completou o tempo de serviço com 52 anos, então precisou trabalhar mais três anos para atingir a idade mínima e aposentar. 

Depois disso, assumiu um cargo público na subprefeitura. “Só que não sou uma mulher de gabinete, gosto de estar no meio do povo, no meio do movimento, né?”, ela comenta. 

Ana trabalhou ainda como atendente, supervisora e coordenadora em uma unidade do CRAS (Centro de Referência de Assistência Social). 

Hoje, presta serviços de consultoria para cooperativas de reciclagem e de mobilização social para a FIA  (Fundação Instituto de Administração), que oferece cursos em regiões como a de Cidade Tiradentes, na zona leste. 

Também atua na  MOCUT (Movimento Cultural de Cidade Tiradentes), grupo que ajudou a criar em 1989. 

“Eu nunca pensei em ficar parada, se a gente parar, a gente enferruja”, afirma Ana, que também faz oficinas e vende bonecas de pano pretas.  “Acho que a gente, após os 60 anos, conquista mais liberdade”, conclui.

Crédito: Gabriela Alves/Agência MuralElson Lima de Jesus é vendedor ambulante há 15 anos

CAMELÔ, ELSON QUER VOLTAR A ESTUDAR

Com sacolas de salgadinhos, batatas fritas e amendoim nas mãos, o ambulante Elson Lima de Jesus, 60, circula com as mercadorias pela estação Guaianases da CPTM. É morador do Lajeado, um dos bairros do distrito de Guaianases, desde de 1969. 

Começou a trabalhar aos 15 anos como auxiliar de serviços gerais. Um pouco mais tarde, com 20 anos, iniciou a carreira como metalúrgico operando máquinas de grande porte, área que permaneceu por dez anos. Após ser demitido, passou a fazer o curso de eletricista predial, último registro na carteira em 2015.

Hoje, a esperança dele é se aposentar por idade e voltar às salas de aulas. Lima fazia o tecnológico de eletricista no Sesi, instituição para quem prestava serviços. Quando foi demitido, perdeu a bolsa de 50% e trancou o curso porque não podia mais arcar com o valor das mensalidades. 

Mas o maior sonho de Lima atualmente é se tornar professor na área após a aposentadoria. “O erro do brasileiro é não contribuir para INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Não deveria ter parado de contribuir, já estaria aposentado”, expõe Lima com a ar de arrependimento. 

As possíveis mudanças na legislação brasileira também preocupam Lima. “A gente ouve falar sobre a Reforma da Previdência , mas tenho muitas dúvidas”, conta. O projeto em tramitação no Senado muda a idade mínima da aposentadoria. 

Enquanto não se aposenta, a perspectiva é seguir como vendedor ambulante. Para ele, o emprego informal é uma alternativa para a subsistência. “O camelô é um sinônimo da pobreza, de um problema maior. Eu venho para as ruas vender quando fico desempregado”, critica.

Gabriela Alves

Jornalista, 23 anos, correspondente de Guaianases desde 2019. Entusiasta apaixonada por música.

Guaianases, São Paulo

Larissa Teixeira

Estudante de jornalismo e de computação gráfica, correspondente da Cidade Tiradentes desde 2019. É técnica em administração, finalizou uma pesquisa de Iniciação Científica e tem outra em andamento. Já colaborou para o Jornal Contraponto e tem um texto publicado numa coletânea de poesias. Gosta de observar, ler, escrever e aprender.

Cidade Tiradentes, São Paulo

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