Rafaela Monteiro/Agência Mural
Por: Rafaela Monteiro
Notícia
Publicado em 08.05.2026 | 15:42 | Alterado em 11.05.2026 | 23:42
Em março de 2026, a dona de casa Gabriela*, 30, foi ao Hospital Geral de São Mateus, na zona leste de São Paulo, onde mora, com um quadro agudo de cólica renal. Esperou a internação até a madrugada, mas para sua surpresa, ela não foi encaminhada para um quarto de enfermaria, mas sim para uma maca, no corredor do hospital.
Sem um parecer médico e sem acomodações adequadas, ela publicou um vídeo nas redes sociais para denunciar a situação. No reels, ela afirmava que, por ser diabética, tinha medo de pegar uma infecção no local, devido às más condições de higiene.
Após repercussão e cobrança dos familiares dela, Gabriela recebeu alta. “Continuo doente, coloquei pedras para fora e continuo sentindo muita dor e urinando sangue. O hospital me receitou um medicamento que é contraindicado para mulheres, o Cloridrato de tansulosina [usado para aumento de próstata, condição unicamente masculina]. Só vi depois e agora estou internada em outro hospital.”

A entrada do Hospital Geral de São Mateus, que pacientes reclamam da superlotação @Matheus Oliveira /Agência Mural
O caso não é isolado. Pacientes do Hospital Geral São Mateus denunciam falta de leitos, internações improvisadas em corredores e negligência no atendimento médico.
Apesar de ser referência na área de queimados no Estado de São Paulo, a unidade vem colecionando reclamações de familiares e pacientes desde 2020, que alegam falta de estrutura para os atendimentos médicos.
O administrador Matheus*, 26, morador do bairro Jardim da Conquista, na zona leste, desistiu do tratamento no hospital. Ele sofreu um rompimento no ligamento da clavícula e buscou o hospital em 9 de dezembro de 2025. Após 10 horas de espera, conseguiu uma vaga para “internação”, também em uma maca no corredor.
O laudo médico apontou uma luxação acromioclavicular grau 3, caso de cirurgia. Foi solicitada, então, sua transferência para outro hospital especializado em operações ortopédicas.
“No meio dos internados vi pessoas defecando no corredor, vomitando, gente pelada… É um ambiente completamente insalubre. Eu perdi oito quilos nos seis dias que fiquei lá, não somos bem cuidados”, disse Matheus.
Depois de descobrir que a cirurgia poderia não ser liberada em 2025, ele desistiu e foi embora.
‘Não tinha garantia nenhuma que seria tratado e não aguentei ficar naquelas condições. Fiz reclamação na ouvidoria, tentei falar com o superintendente mas nada resolveu e sigo com problemas na clavícula’
Matheus*, morador de São Mateus
Hoje, ele está em tratamento em outra unidade de saúde.
João Paulo*, 45, morador em situação de rua da região de São Mateus, não teve tempo de desistir da internação.
Ele decidiu pedir ajuda para a irmã, a autônoma Yasmin*, 28, moradora do bairro Cidade São Mateus, ao sentir dores no estômago. João Paulo foi internado, também no corredor, em fevereiro de 2026, com um quadro grave de anemia e veio a óbito 12 dias depois.

A audiência pública contou com a participação de legisladores de São Paulo @Rafaela Monteiro/Agência Mural
“Só faziam hemograma nele, nada de endoscopia ou qualquer outro exame. Apenas inseriram bolsas e mais bolsas de sangue. Vi meu irmão ter uma hemorragia na minha frente e foi aí que ele morreu”, denuncia Yasmin.
No laudo médico fornecido pelo hospital, João Paulo teria falecido de pneumonia. Desconfiada, a irmã decidiu abrir um boletim de ocorrência e o delegado responsável solicitou novos exames para o IML (Instituto Médico Legal) de Artur Alvim. A necropsia constatou como causa mortis “hemorragia digestiva alta”.
Quem também perdeu um irmão no Hospital São Mateus foi a representante comercial Adli*, 61, também moradora do bairro. Fauzi*, 51, fraturou o fêmur, foi internado em julho de 2020 e faleceu vítima de um infarto, enquanto esperava transferência para o Hospital Tatuapé, três dias depois.
‘‘Meu irmão faleceu por volta das 2h30 da manhã, mas somente por volta das 7h30 uma pessoa que não acompanhava o caso dele verificou que estava morto”, relembrou Adli ao mencionar que uma cirurgia de fratura no fêmur não deve passar de 48 horas para ser realizada.
O laudo do hospital apontava que o falecimento ocorreu devido a presença de água no pulmão. Entretanto, após a autópsia de corte no IML do Artur Alvim, foi constatado que Fauzi sofreu um infarto.
Uma ex-enfermeira do Hospital São Mateus, que por medidas de segurança pediu para não ser identificada, afirmou que os problemas denunciados não são eventuais e muito menos recentes, ao contrário: há pelo menos nove anos, segundo ela, o hospital aceita pacientes além da capacidade.
“Desde 2015 eu observo esses problemas mas hoje é pior. Estou como acompanhante de um paciente terminal e ele ficou sem banho e sujo de urina uma madrugada inteira. O paciente deve ser tratado com dignidade até o último suspiro, quem bate o martelo é Deus, não o estado paliativo. Falta cuidado e atenção”, diz.
É do que reclama a balconista Fabiana*, 44, moradora do bairro Cidade São Mateus. Ela foi internada no corredor em março de 2026, após procurar o hospital com dores do lado esquerdo das costelas.
Um dia depois, ela passou por uma tomografia com contraste que apontou um quadro de diverticulite, uma doença grave no intestino. Mesmo com o diagnóstico, com dor e sem medicamentos, alimentação e até água, recebeu alta.

Manifestantes protestaram com cartazes por melhorias no Hospital Geral de São Mateus @Rafaela Monteiro/Agência Mural
“No dia que tive alta, coincidentemente, foram ao hospital membros da Secretaria de Saúde. Depois da visita, saíram tirando todos os pacientes do corredor, fizeram uma limpeza e não ficou ninguém. Ao sair, vi que tinha uma emissora de TV entrevistando um paciente do lado de fora”, denunciou.
Ao anoitecer, junto ao marido, Fabiana foi à farmácia comprar o remédio receitado, mas não conseguiu porque a receita estava sem a assinatura do médico.
‘Eu voltei para o hospital para o médico assinar e chegando lá os corredores estavam todos lotados novamente. Nem os exames que fiz me entregaram na alta’
Fabiana*, moradora de São Mateus
Ainda sem conseguir o devido tratamento pelo SUS, Fabiana está se organizando para se tratar pela rede privada de saúde. “Pelo SUS está muito difícil, só me passaram um antibiótico para sete dias”, comentou.
Apesar dos muitos casos, foi a denúncia da recepcionista e moradora do bairro Jardim Rodolfo Pirani, Priscilla Araújo, 42, que se tornou o estopim para a realização da audiência pública “Hospital São Mateus pede socorro!”, realizada em 27 de abril.
A filha de Priscilla, Melissa*, sofreu violência obstétrica por parte da equipe médica e o bebê veio a óbito três dias após ter nascido. Ela deu entrada no Hospital Geral de São Mateus em março de 2026, com 40 semanas de gestação.
“Não havia médico, o corpo de enfermagem induziu o parto normal mesmo com os batimentos fetais fracos. Minha filha implorou por uma cesária, mas não fizeram e a medicaram, dizendo que estava tendo alucinações”, relembrou Priscilla na audiência, emocionada. “Hoje eu tenho uma filha com depressão. Quando entro no quarto, ela pede silêncio para não acordar o bebê, mas o bebê não está lá. O que eu quero é justiça.”
Vestida com uma camiseta com uma imagem do neto e a frase “O amor será infinito. Tudo o que imaginei viver com você estará guardado em meu coração”, Priscila foi a primeira à trazer seu relato na audiência.
O discurso dela foi feito após a deputada estadual Professora Bebel (PT) exibir um vídeo que reunia reportagens dos últimos 10 anos com denúncias sobre o hospital.

Manifestantes levaram cartazes dizendo ‘Precarização Não’ @Rafaela Monteiro/Agência Mural
Ela e o vereador e líder da bancada petista na Câmara Municipal de São Paulo, Alessandro Guedes, realizaram uma visita ao Hospital Geral de São Mateus entre o Natal de 2025 e Ano Novo de 2026, após pedidos de moradores da região.
Os parlamentares pretendem convocar outra audiência pública na região de São Mateus, além de efetuarem um requerimento de auditoria para maior fiscalização.
“O pedido de requerimento é para cruzar as informações do registro de presença médica com os atendimentos realizados por esses médicos em um determinado período, para apurar as denúncias”, disse o vereador.
O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o Secretário Estadual de Saúde, Eleuses Paiva, foram convocados para a audiência, mas não compareceram. Esteve presente Magali Proença, membro da Coordenadoria de Serviços de Saúde da Secretaria Estadual de Saúde de SP, que só permaneceu 30 minutos na reunião, sem declarações.
A diretora do Hospital Geral de São Mateus, Camila Lauro Motta Branco, afirmou ter assumido a unidade em janeiro de 2026 e que nos últimos 10 anos houve um corte de 50% da equipe de funcionários.
“Por ser um hospital de porta aberta e livre demanda, atendemos todos os pacientes que entram por aquela porta”, disse, sobre a lotação do hospital. Ela afirmou que há 45 dias lançou o plano “Corredor Maca Zero” e apresentou um vídeo institucional que mostrava um hospital repaginado.
A deputada Bebel pretende articular com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, para que haja uma reunião com o Secretário Estadual de Saúde para cobrar mais investimentos na saúde estadual.
Questionada sobre os relatos de superlotação e negligência médica, a Secretaria de Estado de Saúde afirmou em nota que “o Hospital Geral de São Mateus (HGSM) opera dentro de sua capacidade assistencial, sem registro de superlotação”.
Segundo o órgão, a unidade conta com médicos no pronto-socorro e equipes completas nas áreas de emergência geral e nos setores de observação. Além disso, afirmou que foram abertos oito novos leitos na enfermaria de clínica médica e que são realizadas reuniões com a equipe multiprofissional para organização dos fluxos.
“Todos os pacientes que buscam a unidade são atendidos seguindo os critérios de classificação de risco”, diz a nota.
O Movimento de Saúde de São Mateus teme que a situação sirva de argumento para terceirizar o hospital. Sem concurso público e com carreiras de funcionários desvalorizadas, a qualidade do atendimento piora, o que poderia justificar a contratação de uma OSS (Organização Social de Saúde) para administrar o equipamento, segundo o movimento.
*Nomes alterados a pedido dos entrevistados por receio de represálias
Jornalista, cria do Conquix (São Mateus). Tagarela que está sempre em busca de tornar a comunicação acessível e gostosa de consumir. Correspondente desde 2025.
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