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Agência de Jornalismo das periferias

Nathália Ract da Silva / Agência Mural

Por: Nathália Ract da Silva

Notícia

Publicado em 13.12.2023 | 14:29 | Alterado em 13.12.2023 | 14:29

Tempo de leitura: 4 min(s)

Nomes de jovens estudantes e trabalhadores desaparecidos durante a ditadura militar brasileira (1964-1985) estão registrados em ruas na Jova Rural, bairro da zona norte de São Paulo.

Nesta quarta-feira (13), se completam 54 anos do AI 5 (Ato Institucional 5), que marca o período mais violento do regime e com repercussão em diversas periferias da capital.

Nos últimos 30 anos, a lembrança de pessoas que foram perseguidas ficou registrada, após a busca de movimentos sociais pelo reconhecimento dessa memória. A Jova Rural, conjunto habitacional que nasceu nos anos 1970, foi um dos locais em que esse registro foi feito em várias partes.

A Agência Mural identificou ao menos 43 ruas de memória no bairro com o apoio da jornalista Raíssa Araújo Pacheco.

Exposição Ruas de Memória na Fábrica de Cultura do Jaçanã @Nathália Ract da Silva / Agência Mural

De acordo com o site Dicionário de Ruas, a denominação destes locais foi realizada entre 1989 a 1993, durante a gestão da ex-prefeita Luiza Erundina, integrante no período do Partido dos Trabalhadores (PT). O Dicionário de Ruas é uma iniciativa do Arquivo Histórico Municipal de São Paulo, que permite a consulta de qualquer morador à história do bairro em que vive.

Jova Rural

Maria Elisa Luiz Santana, tem 65 anos, dos quais 30 anos foram dedicados à Associação de Mulheres e Amigas do Jova Rural, espaço conveniado com o governo municipal estadual, que atende por volta de três mil famílias, de todas as faixas etárias.

Mapa de Jova Rural com nomes que fazem alusão a desaparecidos e mortos durante a ditadura

Elisa chegou no bairro do Jova Rural em 1991 e acompanhou a construção das casas que foram entregues durante o governo de Oreste Quércia (MDB). Ela recorda que nessa época as ruas ainda não tinham nomes, mas eram divididas por quadras.

Alguns nomes de ruas na Jova Rural que representam vítimas da ditadura militar

Ari Rocha da Miranda, Alfeu de Alcântara Monteiro, Antônio Sérgio de Mattos, Aurora Maria Nascimento Furtado, Bernardino Saraiva, Ismael de Jesus Silva, Ivan Rocha Aguiar, Jeová Assis Gomes, João Carlos Cavalcanti Reis, João Lucas Alves, José Guimarães, José Roberto Arantes de Almeida, Lourdes Maria Wanderley, Manoel Lisboa, Marilena Villas Boas, Mário de Souza, Milton Soares de Castro, Miriam Lopes, Olavo Hansen, Orlando da Silva Rosa, Osvaldo Orlando da Costa, Paulo Mendes Rodrigues, Paulo Roberto Pereira Marques, Raimundo Eduardo da Silva, Ranusia Alves, Reinaldo Silveira, Rodolfo de Carvalho Troiano, Ruy Frazão Soares, Telma Regina, Terezinha Viana, Uirassu de Assis e Wilson Silva. 

“A minha casa estava localizada na quadra 24, você encontrava as pessoas e as famílias pelo número da quadra.”

Já os nomes das ruas foram deliberados no governo da Luiza Erundina (PT). “Naquele momento, muitos moradores eram simpatizantes ao Partido dos Trabalhadores, acredito que eles decidiram e agiram em conjunto com a CDHU, do Jova Rural” , diz Elisa.

Atrelado à construção das casas, começaram a surgir vários equipamentos dentro do bairro voltados para a educação e a saúde. “Nos anos 1980, as escolas estaduais como o Felício Tonetti e o Gustavo Barroso eram de madeirite, depois passaram a ser de alvenaria.”

Conheça alguns nomes de ruas na Jova Rural em homenagem a desaparecidos e mortos pela ditadura

Conheça alguns nomes de ruas na Jova Rural em homenagem a desaparecidos e mortos pela ditadura

Conheça alguns nomes de ruas na Jova Rural em homenagem a desaparecidos e mortos pela ditadura

Conheça alguns nomes de ruas na Jova Rural em homenagem a desaparecidos e mortos pela ditadura

Conheça alguns nomes de ruas na Jova Rural em homenagem a desaparecidos e mortos pela ditadura

Conheça alguns nomes de ruas na Jova Rural em homenagem a desaparecidos e mortos pela ditadura

A escola Felício Tonetti fica na rua Raimundo Eduardo da Silva, uma homenagem ao operário metalúrgico, morto depois de ter sido preso e torturado pelas forças policiais da ditadura militar, em 05 de janeiro de 1971, aos 23 anos. É nesse espaço que fica a Fábrica de Cultura do Jaçanã, que promove diversas atividades artísticas e educativas gratuitamente.

Perto dela está a rua Aurora Maria Nascimento, uma homenagem à estudante de psicologia da USP (Universidade de São Paulo) morta depois de ter sido presa e torturada pelas forças policiais, em 10 de novembro de 1972, aos 26 anos. Nesse espaço funciona a horta Pro-Nobis, que promove a agricultura periurbana de base familiar com foco em sustentabilidade e geração de trabalho e renda.

Resgate histórico

Apesar da conjuntura na Jova Rural, esse não é um cenário que se multiplicou sem resistências pela cidade. “Infelizmente é difícil mudar o nome de um logradouro”, diz o pesquisador Adriano Sousa, 36.

Morador da zona leste de São Paulo, Adriano é doutorando em história da cidade na FAU-USP, e pesquisa a forma como os coletivos periféricos e os moradores das periferias têm feito trabalhos sobre a história do próprio território.

A rua Raimundo Eduardo da Silva é uma homenagem ao operário metalúrgico morto durante a ditadura @Nathália Ract da Silva / Agência Mural

Adriano é membro do CPDOC Guaianás, que trata do patrimônio histórico, da museologia social e do registro de memórias e documentos da zona leste de São Paulo, ele participou da comissão do Programa Memorabilia, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura, com o objetivo de avaliar as memórias e expandir a participação de moradores no Dicionário de Ruas.

“Geralmente o nome pode ser alterado quando atenta contra os direitos humanos e quando é uma revisão de memória, que retira o nome de algum criminoso, principalmente crimes contra a dignidade humana”, explica o pesquisador.

AI-5

Decretado em dezembro de 1968, o AI-5 (Ato Institucional 5) implementou o endurecimento da ditadura militar e o fim da liberdade de expressão, através de comissões de inteligência e repressão do governo brasileiro que perseguiram os movimentos sociais e sujeitos políticos. 

O ano de 1968 ficou marcado por uma grande mobilização popular, contra o regime autoritário, as perseguições políticas e ideológicas e o modelo econômico. Naquele período, as classes populares se organizaram de várias formas, desde o espaço de estudo, de trabalho, ou de moradia. 

A norma foi revogada em 1978 pelo presidente Ernesto Geisel.

Ele traz como exemplo o Elevado Presidente João Goulart, nomeado anteriormente como Elevado Presidente Costa e Silva, o nome de um general da ditadura civil-militar, responsável por emitir o Ato Institucional nº 5 (AI-5).

Comissão da Verdade e Ruas da Memória

Em dezembro de 2014, o relatório final da CNV (Comissão Nacional da Verdade) afirmou que, durante a ditadura, 434 pessoas morreram ou desapareceram. Para além do levantamento oficial, indígenas e jovens das periferias sofreram graves violações e foram igualmente assassinados pelo regime autoritário.

Muitos tiveram os seus corpos ocultados e permanecem desaparecidos até os dias de hoje, sem nenhum tipo de reparo ou indenização para os familiares. Neste ano, a ditadura militar completou 59 anos e o Brasil está em permanentemente atraso com as medidas de reparação das vítimas políticas.

A 30º Comissão da Verdade da Prefeitura de São Paulo recomenda “a instalação de marcas de memória, a alteração de nomes de ruas e equipamentos urbanos que homenageiam violadores de direitos humanos (…)”.

Há seis anos, surge o programa Ruas de Memória, criado pela Coordenação de Memória e Verdade da Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo (Decreto 57.146/2016).

O objetivo principal do projeto é alterar progressivamente e de maneira participativa o nome de ruas que homenageiam torturadores, e assim dar espaço para as ruas receberem o nome de pessoas que lutaram contra a ditadura militar.

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Nathália Ract da Silva

Historiadora e Fotojornalista. Realizadora do documentário curta-metragem "Chile de olhos bem abertos". É contadora de histórias na biblioteca da Fábrica de Cultura do Jaçanã. Correspondente do Jaçanã desde 2023.

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