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Mães de Pernambués contam os desafios na educação dos filhos autistas

No Dia Mundial de Conscientização do Autismo, mulheres falam sobre as dificuldades para encontrar escolas inclusivas em Salvador
Elza Batista que matriculou o filho Jonathan Batista em uma escola pública com ensino inclusivo | Gabrielle Guido/Agência Mural

Quando a cozinheira Elza Batista, 53, matriculou o filho caçula, Jonathan Batista, 14, nas primeiras séries do ensino fundamental de uma escola particular, em Pernambués, bairro onde mora na capital baiana, ainda não sabia sobre o diagnóstico do TEA (Transtorno do Espectro Autista) dele. A escola de ensino regular já trabalhava com crianças especiais.

“Onde ele estudou, até 5º ano, não tinha a inclusão propriamente dita, mas as professoras o ajudavam de todas as formas. Antes de ter o diagnóstico, tinham mais dificuldade; mas, depois do relatório sobre o TEA, ele tinha sempre uma professora ajudando nas atividades”. 

Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), o “TEA se refere a uma série de condições caracterizadas por algum grau de comprometimento no comportamento social, na comunicação e na linguagem e por uma gama estreita de interesses e atividades que são únicas para os indivíduos e realizadas de forma repetitiva”. A OMS aponta que uma em cada 160 crianças tem TEA no mundo. 

Elza relata que, após o filho sair da 5º série, a situação ficou muito difícil, porque sua busca pela inclusão trouxe cansaço e frustração.

“Eu matriculei Jonathan, em uma escola particular, aqui no bairro, que prometeu o ensino inclusivo, mas não vi. Estava sempre repetindo [as avaliações], tirava nota muito baixa, mas era só fazer questões mais simples para que ele conseguisse responder, conta”. 

Em 2007, a ONU (Organização das Nações Unidas) escolheu o dia 2 de abril como Dia Mundial da Conscientização do Autismo, com o objetivo de difundir informações sobre o autismo e reduzir os preconceitos a respeito desse público. 

Para a professora e psicopedagoga Charlene Cerqueira, de um modo geral, as escolas não estão preparadas para receber crianças com autismo. 

“Várias são as dificuldades encontradas, como falta de recursos, de estrutura física, de verbas, de qualificação para os profissionais e envolvidos no atendimento, o não cumprimento, na prática, de algumas leis referentes à inclusão”.

Para Elza, o ensino inclusivo, em uma escola regular, permite ao estudante participar das aulas com toda a classe.  “A educação inclusiva seria direcionar as atividades para o aluno com condição especial, de acordo com que ele consiga fazer. É preciso que seja feita uma adaptação [nas atividades], fazendo com que ele possa, pelo menos, tentar. Quero que meu filho participe da aula, e não fique [parado] como quadro na parede”.

A psicopedagoga Charlene Cerqueira enumera algumas consequências decorrentes dessa falta de adaptação educacional. “Um estudante com TEA poderá desenvolver vários problemas quando o ambiente escolar não o inclui, como dificuldade de adaptação, de desenvolvimento cognitivo, de interação, de comunicação e consequentemente no desenvolvimento de suas habilidades básicas e necessárias para alcançar uma aprendizagem satisfatória e eficaz”.

Gleide Azevedo acompanha as atividades do filho Antônio Azevedo dos Santos | Gabrielle Guido/Agência Mural

Moradora de Pernambués, a professora Gleide Azevedo, 38, é mãe de Antônio Azevedo dos Santos, 7, diagnosticado com autismo. Ela teve a possibilidade de inserir o filho em uma escola inclusiva, no bairro onde reside. 

“Meu filho estuda o ensino regular, mas com educação inclusiva. Na verdade, é uma escola da minha família. Desde sempre, ela acolheu crianças especiais, sobretudo, crianças com Transtorno do Espectro Autista”.

Gleide conta que a professora do filho percebeu que podia trabalhar com um personagem de um filme de animação que o pequeno adorava.  “Ele sempre gostou do Relâmpago Mcqueen, o carrinho. Daí a professora trabalhava as cores, as quantidades, tudo referente ao Mcqueen, para chamar a atenção dele, incluí-lo nas atividades”.

Com o retorno das aulas remotas, a Gleide explica que o filho não dá conta de acompanhar as vídeo-aulas online. Mas, o cotidiano da vida escolar permanece com estudo e a realização das atividades em casa.  

“A professora envia vídeos e áudios, respeitando sua condição e desenvolvimento. Ela manda sugestões de jogos e brincadeiras adaptadas para que haja maior aprendizado dos conteúdos”, explica. 

Conforme explica a psicopedagoga Charlene Cerqueira, a observação das particularidades de cada estudante contribuirá bastante para o desenvolvimento das suas habilidades

A partir do momento em que as práticas pedagógicas são pautadas e desenvolvidas atentando para as especificidades de cada um, haja vista todo o trabalho de investigação e análise desenvolvidos durante todo o atendimento pedagógico, o desenvolvimento das habilidades e potencialidades de cada estudante é visível e contribui de forma essencial para o processo de ensino e aprendizagem”.

Na busca por um ensino adequado para o filho, Elza escolheu uma escola pública, no bairro da Pituba. “Eu parti para escola pública, porque oferece o ensino inclusivo. As escolas particulares também, mas são caríssimas”.  Em 2020, Jonathan foi matriculado no 8° ano de uma escola regular que oferece sala de recursos multifuncionais. 

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“Por conta da pandemia, as aulas foram por pouco tempo, mas eu vi um ensino inclusivo. A professora da sala de recurso multifuncional interage com a professora da sala de aula regular. Se os alunos precisarem de alguma atividade adaptada, ela fazem”, diz.

Elza conta que o filho tem conseguido acompanhar as aulas remotas da rede pública, que iniciaram no mês de março, após um ano de suspensão das atividades, por causa da pandemia. Jonathan iniciou as primeiras aulas com alguns professores da sala regular. 

A cozinheira explica que, em muitas escolas, o filho não tinha habilidade para copiar as atividades no quadro no tempo disponibilizado pelo professor, criando um problema. 

“Nessa escola, isso não aconteceu. Ele copiava tranquilamente. Ele tinha essa oportunidade de fazer a mesma atividade que a turma, conseguindo responder sem muita dificuldade. Isso aí já deu muita segurança para ele”.

Rosana Silva

Jornalista, correspondente de Pernambués/Cabula em Salvador, BA, desde 2020. Tem trabalhado em produções voltadas para arte, cultura e comunicação. Adora um cafezinho com cuscuz, um bom solo de violão e a luminosidade da cidade do São Salvador da Bahia.

Salvador/BA

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