Mamãe chega aos 71 anos cheia de graça neste 13 de maio

Com humor peculiar, Dona Val queria uma filha, mas ao me conhecer após o parto foi protocolar e riu da situação

Dona Val me prestigiando no teatro (e rindo, claro)  — Arquivo pessoal

O Dia das Mães é celebrado no segundo domingo do mês de maio, minha mãe faz aniversário no dia 13 de maio, não raro as datas coincidem, é também o dia da abolição da escravatura; sendo minha mãe uma mulher preta, temos muito o que comemorar.

Valdemira Maria Pereira Santos completa 71 anos, e nossa história começa no ano de 1979, quando eu nasci. Naquela época não havia muitos aparelhos de ultrassom na rede pública de saúde da cidade de São Paulo, então, não sabia o sexo do bebê que estava a caminho.

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Dona Val ansiava por uma menina, pois já tinha um filho homem. Meu irmão Alexandre é mais velho que eu quatro anos e oito meses, sonhava formar um casal de filhos, estava com o enxoval rosa preparado e um nome escolhido, Adriana.

Segundo narra, naquela madrugada de 25 de outubro quando o médico que fez seu parto lhe passou sorrindo o recém-nascido e disse: “olha mãe, é um menino lindo e saudável!”. Minha mãe fez cara de contrariada e mandou um protocolar “que bom”. O doutor se espantou e perguntou: “a senhora não gostou, mãe?”, ela não se fez de rogada “queria uma menina”, e riu. Sempre conta isso rindo às gargalhadas.

Minha mãe é daquelas pessoas que ri de histórias sérias e tristes e nem adianta censurá-la, ela justifica: “gente, sei que isso não é nem coisa de rir”, mas minha mãe ri! E sempre riu.

Dona Val é a típica mãe de periferia, mãe solteira, seus filhos não têm nem o nome do pai em suas certidões de nascimento. Fazia de tudo para sustentar a casa, foi metalúrgica, copeira, faxineira, diarista e feirante. Às vezes exercia de duas a três funções dessas ao mesmo tempo. Era difícil vê-la em casa, mas suas recomendações estão sempre presentes.

“Aqui em casa ou estuda ou trabalha, quero vagabundo aqui não. E se fizer coisa errada e for pra cadeia, eu não vou visitar ninguém, hein!? Por mim, fique lá. E esquece que tem mãe. Vocês sabem o que eles fazem com os novatos na cadeia?”, advertindo: “droga mata, então, já sabe, se usar droga vai morrer”.

Val chegou a São Paulo no dia 8 de setembro de 1969, numa Kombi que saíra da Bahia três dias antes. Estava muito frio e a menina de 20 anos usava saia curta e camiseta; sentiu bem a temperatura, mas estava muito feliz.

Hoje, aposentada e com casa própria, não deixa de trabalhar. Toda tarde monta sua barraca de doces em frente a UBS Jd. Fontalis, na zona norte da cidade, bairro onde moramos, e faz questão de frisar: “trabalho para não ficar em casa sem fazer nada. Aqui eu converso com todo mundo, me distraio, dou risada. Se parar enferruja”, conclui sorrindo.

Minha mãe ri e fala, fala muito, fala alto e canta o dia inteiro. Atualmente, o repertório invariavelmente é composto de Dona Onete, influenciada que foi pela última viagem do seu filho mais novo (eu, no caso) ao Pará. “Quero ir ao show dela, hein!? Qualquer dia nós vamos”, intima. As marchinhas do século passado já são tradicionais em casa, até os netos sabem cantar. “Lembro dos carnavais da minha juventude, em Lençóis”.

Leia: O dia em que minha mãe me tornou um folião

Dona Val, ou Dú para os mais chegados e parentes, é natural de um paraíso na Bahia chamado Lençóis, no coração da Chapada Diamantina. É filha de lavadeira e garimpeiro, duas das ocupações mais comuns na região, dada a abundância de rios e diamantes. “Mas a Lençóis de hoje não é mais aquela de antigamente, não consigo mais me adaptar lá”.

Totalmente adaptada à capital paulistana, sabe de cor qualquer endereço na cidade. Familiares, vizinhos e amigos sempre recorrem a ela quando precisam se locomover pela cidade e não sabem o endereço. Ela acompanha as pessoas para consultas médicas, entrevista de empregos e o que mais aparecer. “Eu gosto de ‘bater perna’, sangue bom”, fala na gíria quando quer fazer piada imitando seus filhos, e rindo, claro.

As únicas coisas que tiram o humor de minha mãe é a saudade de sua mãe já falecida, e o acidente doméstico que sofreu, quando seu sobrinho caiu de cima da escada sobre ela. Dona Val quebrou três vértebras da coluna, mas não afetou sua medula. “Quase morri”, relembra.

Super ativa e com ‘carga total’, descobriu o meio digital. Está sempre mandando mensagens de áudio para suas amigas no ‘uatezape’ e assistindo dona Onete ou vídeos de candomblé no ‘iôtube’. “Tá pensando o quê? Sou uma velha pra frente, meu”, e dá-lhe risada.

Feliz dia das mães, mãe! Feliz aniversário e Poder Para o Povo Preto!

Por André Santos, correspondente do Jd. Fontalis

1 thought on “Sobre objetos, trocas, aromas e melodias”

  1. Que lindo Ana Beatriz!
    Nos olhos e na voz dessas crianças é que realmente está a nossa esperança de um país melhor.
    Pessoas inocentes que conseguem enxergar o que muitos ignoram.
    É a vida de verdade,o sorriso estampado,o brilho nos olhos que mal sabem o que ainda vai ter que enfrentar.
    Um super abraço de toda família Centro Comunitário do Embura.
    Felicidades linda.

  2. Um raio x dessas pequenas Almas, que acreditam e sonham em um país onde tudo parece estar pedido, surge através da pureza e simplicidade o nascer da esperança dentro desses pequenos gigantes.
    Ainda vale a pena sonhar!

  3. Uma linda crônica, repleta de alma e total conhecimento do cenário atual de nosso país.
    São palavras assim que nos inispiram à lutar por mais um dia.
    Parabéns!!!

  4. Parabéns. Sou testemunha do seu ganho de saúde física, emocional e psicológica. Pois a bicicleta proporcionou a conscientização dos alimentos que lhe trazem energia e vitalidade e daqueles que intoxicam tirando o vigor pro esporte. Sua conquista de um corpo mais sadio e moldado também é digna de congratulações.

    1. Pessoa incrível, estudamos juntos e realmente sua história de vida é algo que muitas pessoas que tiveram a oportunidade de conviver um pouco com ele aprendeu muito.

  5. Fantástico ! Com todos percalços que a periferia oferece na prática esportiva, eis uma superação e motivação para deixarmos de ser sedentários ! Parabéns Mauro pela iniciativa !

  6. Olá,
    Gostaria de saber se a possibilidade de receber bolsa de estudos para esse curso em específico. Que Muito fazer, mas não possuo recursos no momento para investir.

    Desde já agradeço.

    1. Olá, Sheila! Muito obrigada pelo contato e interesse pelo curso. A atividade é oferecida pela faculdade, logo, vale tentar direto com a Fespsp a possibilidade de conseguir alguma bolsa.

  7. Paulinho, esta sim é a mais linda forma de Dizer Eu Te Amo Para um Pai!
    Você fez uma linda homenagem, para o Tio Paulo, que é Paizão de toda Família.
    Deus abençoe a todos os Filhos.

  8. Zorade, ai sim meu grande sobrinho, que homenagem de arrepiar.! Digo nunca vista, (é claro)pois cada um é um…Quanta sabedoria vestida de aparente ignorancia! O jeito de ser do meu irmao meio estranho, superou os grandes modos finos de criar seus filhos…Quanta riqueza de carater , de valentia também,ele apresentou a voce e a essa exelente Mae que te trouxe ao mundo…Familia pequena nas de grande peso..kkkk em todos os sentidos…No seu relato voce se esqueceu de falar sibre a bondade do coraçao dele…Tem umas histórias de caridade dele que admiro!…Parabéns pela homenagem ! Que Deus lhe proteja , que cada vez mais sua intelugencia seja ativada….abraços

  9. Olá boa tarde,
    Gostaria de parabenizar pela iniciativa e tbm Têmos que girar essa informação e cobrar de forma correta e pacífica dos responsável para tal , tendo em vista que somos moradores da região Têmos essas e outras dificuldades sendo que todos nós vamos receber visitas Nos próximos dias de político ou de seus prestadores de serviços prometendo o que não se cumpre ,uma vez que se não formos no dia votar somos obrigados a pagar multa e tenho certeza que todos nos não deixamos de pagar e quando se trata de olhar um pouco pra lado mínimo que é ,transporte, segurança, iluminação, etc.. Nos não temos respaldo ,então diariamente ouvimos relatos e acontecimentos que cada dia dificulta mais a vivência no bairro, só lembrando que mesmo sendo uma APA todos aqui são eleitores que seguem a risca com suas obrigações e o que queremos é o mínimo se iníciando pelo Respeito aos moradored e direito de ir e vir que já não temos mais.
    Att:
    Gilmar Rodrigues

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