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‘É necessário cantar sobre bullying’, diz MC Bonifácio, funkeiro do Itaim Paulista

Músico da zona leste de São Paulo narra a infância de preconceitos na escola e traz perspectiva LGBT da periferia

Por mais de seis horas diárias Matheus da Silva, 23, faz diversas ligações em uma empresa de telemarketing do setor de cobranças, no centro de São Paulo. Fora do trabalho, ele usa a voz para a produção de músicas que começou a criar por conta própria em um aplicativo para celular. 

As letras das músicas são inspiradas em experiências pessoais como a época da escola, onde sofria violência física, ofensas de outros alunos e uma difícil aceitação de sua sexualidade.

É o caso da faixa “O mundo virou…O jogo virou”, na qual ele narra memórias que ainda o atormentam, mas também o começo de uma volta por cima.

“A música conta a história de um menino que me zuava na escola e me batia”, comenta Silva, que desde 2017 é também o MC Bonifácio. “É necessário cantar sobre bullying, porque é algo que vem sendo banalizado cada vez mais. Eu ainda tenho traumas e muito rancor devido ao que sofri”.

Crédito: DivulgaçãoMúsico começou a cantar no Itaim Paulista

O período relembra para Bonifácio uma vida escolar com poucos amigos, violência, homofobia e discriminação socioeconômica. 

“Sofri muito bullying na escola. Não tinha dinheiro para comprar roupa de marca, não sabia jogar bola, falar gíria. Tinha um jeito peculiar de ser. As minhas amizades eram tóxicas. Eles me batiam, mas eram os únicos que andavam comigo” lembra Silva.

Ele afirma que a situação tem impacto até hoje na vida dele. “Tenho muita dificuldade para socializar, não gosto de ficar em lugares com muita gente porque tenho a sensação de que vou ser linchado”.

‘Sempre que um grupo de pessoas está rindo sinto a sensação que estão rindo de mim. Estou aprendendo a soltar esse rancor e falar sobre isso com a música’.

O medo de passar novamente pelas mesmas situações fez com que Matheus mudasse o estilo de se vestir e as músicas que escutava por algum tempo. “Lutei muito contra a ideia de ser gay. Ser gay pra mim era equivalente a ser criminoso e me tornei machista e homofóbico”, lamenta.

O rompimento dos próprios preconceitos veio com a maioridade e o primeiro emprego. “Caí na real que era independente e já era maior de idade. No telemarketing tem muitos gays, lésbicas e transexuais, comecei a andar com eles e percebi que ser gay não era aquela coisa que eu achava que era”, diz Matheus.

As músicas que define como trap-funk também retratam o cenário da periferia em uma perspectiva LGBT. Falam de relacionamentos e reúnem trechos irreverentes, como a propaganda de um carro popular que dá nome a uma das tracks [Corsa] que tem tom de ostentação.

Crédito: DivulgaçãoArtista aborda bullyng e questões LGBT

O nome artístico Mc Bonifácio foi uma homenagem ao sobrenome do padrasto Hércules Bonifácio. “Considero ele como meu pai, e quis fazer essa homenagem. Meu pai biológico não me assumiu”, revela ele.

DIVULGAÇÃO NADA TRADICIONAL

Para divulgar o trabalho, Bonifácio apelou para várias ações. Após a produção das primeiras faixas, Bonifácio ganhou fãs no LDRV (Lana Del Rey Vevo), grupo do Facebook que tem como enfoque o humor e o público LGBT. O funkeiro também distribuiu as músicas por meio de uma plataforma gratuita destinada para este fim [Onerpm].

No entanto, a estratégia mais inusitada foi a inclusão dos singles como música de fundo de vídeos hospedados na seção gay de sites pornográficos. “Deu uma leve estourada. Fui produzindo e lançando uma música atrás da outra. Todas compostas por mim, inspiradas em experiências pessoais”, comenta.

Foi no Facebook que o produtor Lucas Simas Lobo, 23, conheceu o trabalho de Bonifácio e o ajudou a lançar alguns singles gravados em estúdio pela produtora PAESE Corp.

A parceria trouxe resultados e a faixa “O mundo virou…O jogo virou”, que tem sample do cantor americano Justin Timberlake é a que reúne o maior número de visualizações no canal do Youtube. 

Giacomo Vicenzo

Jornalista, correspondente da Cidade Tiradentes desde 2018. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social. Iniciou sua carreira profissional no Datafolha, já publicou no UOL TAB e Revista Galileu. Gosta de contar e ouvir boas histórias. Adora seus gatos de estimação e não consegue viver sem senso de humor.

Cidade Tiradentes, São Paulo

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