Meu primeiro voto: o que jovens das periferias esperam das eleições 2018

Ana Paula Silva dos Santos, 19, quer melhoria no transporte público de Guarulhos, na Grande São Paulo. Em Perus, na zona noroeste da capital, Caroline Alves André, 18, sente que é preciso de mais mulheres na política e que as eleições 2018 são uma oportunidade para isso.

Mônica Corrêa, 18, aponta descrença no que pode melhorar em Cidade Tiradentes, na zona leste, e cogita votar nulo. No extremo sul, Larissa Costa, 18, pode ir para caminho parecido pois vê corrupção em todos os nomes. Em Embu das Artes, Gustavo de Lima Reis, 19, pede candidatos mais humanos.

Em comum, estes cinco jovens das periferias de São Paulo fazem parte dos mais 4,4 milhões de eleitores que votarão pela primeira vez neste ano no Brasil.

Na Grande São Paulo, entre jovens eleitores e pessoas que se mudaram para a região, serão 500 mil votantes a mais do que na disputa de quatro anos atrás.

O prazo para pedir o título de eleitor terminou em 9 de maio. Neste mês, as estatísticas apontam um total de 15,7 milhões de eleitores nas 39 cidades, ante 15,2 mi em 2014.

Em média, a alta foi de 3%, mas há diferenças em cada região das periferias da capital, assim como da Grande São Paulo. A cidade recordista é Embu das Artes, onde esse aumento chegou a 21% com 32 mil novos votantes (no total são 181 mil).

Na capital, a região que mais terá estreantes é Perus, na zona noroeste da cidade, com 13,8% mais eleitores – 183 mil ao todo. Aumento semelhante ao do Jaraguá, com 13,2%, e 102 mil novos votos.

A Agência Mural ouviu novos eleitores dos quatro cantos da região metropolitana sobre as perspectivas para a votação que definirá deputados federais e estaduais, senadores, governador e presidente. A campanha começa em 15 de agosto e o primeiro turno será dia 7 de outubro.

MAIS MULHERES

Nenhuma zona eleitoral ganhou mais eleitores na capital do que Perus. Em maio, último mês para o pedido de título de eleitor, eram 183 mil pessoas inscritas para votar este ano.

Uma dessas novas eleitoras é Caroline Alves André, 18, estudante de artes cênicas. “Mais do que nunca, eu enxergo a necessidade de irmos às urnas”. Caroline decidiu não votar quando tinha 16 anos, pois não se considerava “apta” para escolher um candidato. Entre os pontos que diz ser fundamental para este ano é a falta de mulheres na política.  

“Ainda existem países onde o voto feminino não é permitido: eu enquanto mulher ao votar, não estou exercendo somente o meu direito como cidadã, mas  exercendo um direito meu como mulher, uma conquista de todas nós no passado”, completa.

Moradora de Perus desde que nasceu, ela é atriz no grupo Pandora de Teatro, que produz peças sobre questões políticas do bairro, como a fábrica de cimento e a vala clandestina no cemitério Dom Bosco, usada durante a ditadura militar. Também é arte-educadora da Ocupação Artística Canhoba.

“A minha geração (como todas anteriores), tem uma necessidade grande de ser ouvida. Enquanto jovem de periferia temos que ter consciência do quão grave é o genocídio da juventude periférica hoje e como podemos nos colocar diante disso. Falar em nome da nossa geração e de todos aqueles que já não podem mais”.

Mônica Corrêa votará pela primeira vez e é de Cidade Tiradentes (Sheyla Melo/Agência Mural)

SEM CANDIDATO

Mônica Corrêa, 18, não tem muita expectativa para as eleições de 2018. Sua estreia em frente às urnas deve ter o voto nulo. Ela mora em Cidade Tiradentes, distrito onde deve haver o maior acréscimo de novos eleitores na zona leste. São 17 mil a mais do que em 2014.

Ela conta que pensava em votar no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas a possibilidade da não candidatura do petista a deixa sem opções.  Lula está preso após a condenação em segunda instância no caso do triplex do Guarujá, da Operação Lava Jato. O PT afirma que não há plano B e defende a inocência do petista.

Para os outros cargos políticos ela ainda não decidiu. “Se continuar do jeito que está, eu vou no voto nulo, mas entre votar em alguém que é totalmente contra o povo e alguém a favor, mesmo que pouco, eu voto neste que é a favor do povo”, conta.

Na avaliação da estudante, a eleição deve mudar pouco a realidade da região em que mora.. “As coisas não mudam na Cidade Tiradentes, no começo [depois da eleição] começam a fazer alguma coisa, arrumam as praças, fazem uns eventos, para ganhar a confiança do povo. Mas depois desanda”.

Larissa Costa é de Parelheiros, no extremo sul, onde há 10% mais eleitores do que em 2014 (Acervo pessoal)

CONSULTA AOS PAIS

A estudante do ensino médio  Larissa Costa, 18, moradora do bairro Jardim Oriental, conta que está confusa em relação ao primeiro voto. Em fevereiro deste ano, quando tirou o título de eleitor, se viu indecisa em quem votar. Então resolveu conversar com os pais e pedir a eles uma orientação política.

“Cheguei nos meus pais e pedi que eles me ajudassem a tomar uma decisão, mas eles só complicaram tudo. Meu pai vai votar na Marina Silva, pré-candidata à presidência pela Rede,  minha mãe vai anular o voto”, comenta. Ela, por outro lado, deve votar em branco.

Larissa mora no distrito de Parelheiros, no extremo sul de São Paulo, onde 223 mil eleitores podem ir às urnas (10% a mais que em 2014). Porém, esse contingente apresenta um potencial que ainda não foi conquistado pelos presidenciáveis na disputa. “Hoje em dia tem tantos governantes corruptos. Aí fica difícil acreditar em quem vai fazer um bom trabalho”.

 

GRANDE SP

Famosa por sua feira de artesanato, Embu das Artes foi a cidade que mais teve novos eleitores. A alta de 21% é superior inclusive a de todas as regiões da capital. Serão até 32 mil moradores com direito a voto a mais do que quatro anos atrás. É o caso do estudante Gustavo de Lima Reis, 19.  “Sempre tive minhas coisas e fui independente”, lembra o jovem que começou a trabalhar aos 16 anos e traça como sonho um mundo mais justo e com mais oportunidades para todos.

O estudante admite que não entende de política, mas diz que é perceptível a bagunça no momento do país. “Espero que a gente abra o olho pra votar, pois o Brasil está em nossas mãos”, diz Gustavo. “Desejo que os políticos sejam mais humanos ao se candidatarem e pensem em resolver problemas”.

Na contramão, Guarulhos foi o único município que teve redução no número de cadastrados pela Justiça Eleitoral, redução de 60 mil nomes. A cidade tem 808 mil eleitores, abaixo apenas da capital na Grande São Paulo.

Mesmo com a queda, haverá novos eleitores como a estudante de economia Ana Paula Silva dos Santos, 19, que está otimista sobre o poder da escolha. “Todo voto tem o poder de decisão”, afirma.  

Ela cita que espera que esta eleição estadual e nacional possa influenciar sua cidade. A estudante quer melhoras no transporte público, investimento em ciclovias e políticas públicas voltadas para a população de menor renda.

“Vou buscar não eleger representantes que pregam o ódio e misturam política com religião, bem como eleger representantes que, para mim, buscam tornar a sociedade mais igualitária e com mais política pública voltada ao cidadão”, conclui.

Jéssica Moreira, Jéssica Souza, Julia Reis, Rubens Rodrigues e Sheyla Melo são correspondentes de Perus, Guarulhos, Taboão da Serra, Embu-Guaçu e Cidade Tiradentes.
Organização: Paulo Talarico
Ilustração e infográficos: Magno Borges

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