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Mulheres aumentam uso de carros por aplicativo na pandemia, mas apontam desafios

Questões como segurança foram indicadas por mulheres das periferias; empresas apontam mecanismos de alerta de segurança

A psicóloga Joceleik Carmo, 38, teve muitos motivos para mudar a rotina desde que começou a pandemia. Moradora do bairro do Jaraguá, região noroeste da capital, inicialmente, ela migrou os atendimentos para o ambiente online. Alguns meses depois, soube que estava grávida da segunda filha. 

“Por todas as notícias que eu via sobre o impacto da Covid nas gestantes, fiquei o máximo possível em isolamento”, relata Joceleik. 

“Quando era necessário sair de casa, se não tivesse como ir com meu próprio carro, a opção era ir por aplicativo, que facilitou no sentido de me sentir mais segura e tranquila evitando um maior risco de contaminação.”  

Joceleik não está sozinha nessa mudança de comportamento. De acordo com uma pesquisa do Instituto Datafolha, encomendada pela 99, aplicativo de mobilidade urbana, o perfil de usuário predominante é o de mulheres, que correspondem a 55% dos passageiros. Isso também ocorreu nas periferias.

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Na classe C, elas estão ainda mais presentes, sendo 60% dos perfis ativos. Ainda segundo a pesquisa, 31% dos usuários começaram a fazer uso de corridas por app durante a pandemia, sendo que 45% são mulheres. 

Na terceira reportagem da série sobre mobilidade nas periferias, a Agência Mural ouviu mulheres de diferentes periferias de São Paulo. Durante a pandemia, elas passaram a buscar formas de se proteger mais a partir da necessidade de andar pela cidade. 

De um lado, carros por aplicativo ajudaram na percepção de que há menos riscos do que o transporte público lotado. Por outro lado, há algumas dificuldades como o receio com a segurança e situações desagradáveis vividas como os motoristas.  

Com o nascimento da filha, há três meses, Joceleik está de licença do trabalho. Segue se mantendo o máximo possível em isolamento com a família e priorizando o transporte por aplicativos quando precisa sair de casa e o marido não pode levá-la. “Me sinto mais segura”, afirma.

Em Osasco, a analista Jennifer tem conseguido se locomover com apoio da empresa | Ira Romão/Agência Mural

A analista de trade marketing, Jennifer Andrade, 25, moradora do bairro Jardim Três Montanhas, em Osasco, na Grande São Paulo, só utilizava o transporte de aplicativo para atividades pessoais e quando o destino era próximo de casa. 

Em 2020, Jennifer ficou cerca de cinco meses em home office até que teve que retomar as atividades de modo presencial. A empresa em que ela trabalha, porém, tem pago o transporte dos funcionários. 

“Foi quando passei a ter acesso ao benefício que oferece o transporte de aplicativo corporativo aos funcionários. Na época, isso aconteceu por uma questão de saúde”, conta Jennifer.

Ela explica que o cargo exige que ela se desloque por várias regiões da cidade durante o expediente. Andar por esse meio de transporte começou apenas na pandemia.

Porém, Jennifer aponta que não seria possível manter esse tipo de serviço se tivesse de pagar. “Se não fosse esse auxílio da minha empresa, não conseguiria me deslocar com segurança e agilidade para os locais que preciso ir”, afirma. 

Ela gasta cerca de 30 minutos para chegar até a estação de trem mais próxima de casa. “Pegava esses transportes sempre lotados como é até hoje, mesmo com a pandemia. É impossível manter o distanciamento social neles, principalmente agora que os comércios já reabriram e muitas empresas retomaram as atividades”, acrescenta. 

Espera de ônibus na zona norte de São Paulo | Ira Romão/Agência Mural

Na primeira reportagem desta série, falamos dos dilemas no transporte público na pandemia. Apesar do receio, há poucos dados que mostrem a situação da lotação no transporte público. 

A Prefeitura de São Paulo fez um inquérito sorológico e afirmou no começo deste ano que a proporção de pessoas infectadas no transporte público é a mesma de quem não o utiliza. Um dos pontos é a obrigatoriedade do uso de máscaras dentro dos veículos. 

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IMPORTUNAÇÕES

Apesar da sensação de ter menos riscos com relação à Covid-19, as mulheres que utilizam carro por aplicativo também apontaram problemas.

Em abril deste ano, Jennifer passou por um episódio que a deixou com muito medo. Na ocasião, ela voltava de Santo Amaro, na zona sul da capital, para casa quando o motorista desviou completamente da rota.

“Era por volta das 23h. Estava saindo do trabalho e não tinha como voltar para casa sem ser pelo aplicativo. Um trajeto que gasto de 30 a 40 minutos, naquele dia durou cerca de 1h30”, discorre. “Lembro que a gente entrava e saía de túneis e isso não acontecia no trajeto normal”.

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Diante da situação, a analista decidiu compartilhar a rota com seus contatos, que ficavam ligando para obter notícias. Segundo ela, o único momento que o motorista se manifestou foi quando passavam por uma rua bastante arborizada, já bem próxima a sua residência. Ali, ele disse que o local oferecia perigo às mulheres naquele horário, tarde da noite. 

Por medo, Jennifer não reportou o ocorrido ao aplicativo, pois só queria “esquecer que aquilo tinha acontecido”. “No dia seguinte, fui trabalhar de ônibus e evitei por algumas semanas utilizar o aplicativo”, discorre.

Ela também diz que o episódio a encorajou a dar entrada no processo de habilitação para, assim, poder dirigir um carro próprio.

Ser mãe e ter que se deslocar com os filhos também é um complicador. A assistente de relacionamento Eliane Alves de Oliveira, 43, moradora do Capão Redondo, na zona sul da cidade de São Paulo, costuma estar acompanhada das filhas, principalmente da caçula de dois anos, durante as corridas de aplicativos. 

Ela conta ser muito comum alguns motoristas reclamarem do comportamento das crianças: se estão falando alto, fazendo bagunça, se colocam o pé no banco. Porém, segundo ela, quando o condutor é mulher, as motoristas geralmente são mais “atenciosas” e não reclamam tanto.

No caso da analista contábil Anália Dantas, 28, a situação foi mais delicada durante uma corrida no Jardim Filhos da Terra, no Jaçanã, onde morava. Hoje ela vive no bairro Bortolândia, no Tremembé, também zona norte. Ela estava acompanhada da irmã e do filho de seis anos. O motorista reclamou da região e da condição das ruas do bairro. “Foi quando ele disse que só não largaria a gente porque estávamos com criança”.

Embora tenha se sentido incomodada pela fala do motorista, Anália não respondeu, nem fez uma reclamação no aplicativo. “Fiquei com muito medo, por isso acabei não falando nada. Medo dele largar a gente onde estávamos”, diz.

“Duvido que ele falaria aquilo com um homem, até porque muitos têm a tendência de achar que, por falar com as mulheres, elas não irão retrucar”, frisa.

Moradora de Osasco, ela utiliza o transporte para ir trabalhar | Ira Romão/Agência Mural

O QUE FAZER EM CASO DE PROBLEMA

As empresas de transporte por aplicativo possuem dispositivos com foco na proteção, sobretudo, de mulheres. 

A 99, por exemplo, disponibiliza o “botão de emergência”, recurso que busca agilizar uma chamada para a polícia. Ao tocar, o usuário acessa a localização e é direcionado à tela de chamadas do celular, já preenchida com o número 190. 

Quando o botão é acionado, aparecem na tela todas as informações da corrida e a localização do veículo, para facilitar a comunicação e o socorro. Ao mesmo tempo, 5 contatos cadastrados pelo usuário receberão sua localização automaticamente. 

Sobre o receio de retaliação do motorista, a empresa afirma que “as denúncias são sempre anônimas e a sanção é aplicada assim que o reporte é recebido pela Central de Segurança”. 

“Ao ser bloqueado, o agressor nunca é informado sobre o motivo do bloqueio e sempre orientamos às vítimas a registrarem o boletim de ocorrência para que sejam realizadas as investigações das autoridades sobre esse tipo de crime”.

Além do botão, a 99 aponta outras ferramentas e diz que houve redução de 15% nas ocorrências de assédio na plataforma por milhão de corridas, no primeiro semestre de 2021

Entre as ferramentas estão as inteligências artificiais Pítia e Atena, que atuam identificando passageiras em situação de maior risco de assédio, a partir da localização e do horário das corridas.

Também cita o 99 mulher, que permite às motoristas mulheres escolher se preferem transportar apenas passageiras, assim como a gravação de áudio, o compartilhamento de rota, a câmera de segurança com lentes olho de peixe e visão noturna, e monitoramento de corrida em tempo real, via GPS.

Procurada, a Uber também citou o botão “ligar para a polícia”. A empresa possui “ferramentas de segurança que atuam antes, durante e depois de cada viagem”. Uma delas é a possibilidade de compartilhar a localização em tempo real. 

Questionada sobre o tema, a Uber afirma que o aplicativo fornece aos usuários e motoristas a opção de gravar o áudio de uma viagem por meio de um botão na Central de Segurança, antes ou durante a viagem, em algumas regiões. 

Diz também oferecer um processo de detecção automática de linguagem imprópria nas mensagens que são enviadas no bate-papo do aplicativo – tanto nas viagens quanto no Uber Eats. Assim, se forem identificadas palavras ofensivas ou que ameacem a integridade de uma pessoa, elas “entram automaticamente em um processo de desativação permanente da conta original”.


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Esta reportagem foi produzida com apoio da 99

Eduardo Silva

Jornalista e social media, correspondente de São Miguel Paulista desde 2017. Gosta de viagens, cachorros, filmes sobre distopias e boas playlists no Spotify – não necessariamente nessa ordem.

São Miguel Paulista, São Paulo

Ira Romão

Jornalista e fotógrafa, correspondente de Perus desde 2018. Atuou quase 10 anos em comunicação corporativa, dedicando-se à responsabilidade social e jornalismo corporativo. Apaixonada por contar histórias e registrar pessoas e momentos por meio da fotografia.

Perus, São Paulo

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