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Agência de Jornalismo das periferias

Magno Borges/Agência Mural

Por: Jacqueline Maria da Silva

Notícia

Publicado em 06.03.2026 | 16:59 | Alterado em 18.03.2026 | 12:56

Tempo de leitura: 4 min(s)

De segunda a sexta, Ana Paula Krimek, 45, sai de casa antes das 5h da manhã, no Jardim Maia, no Itaim Paulista, zona leste de São Paulo. Ela cruza a cidade até o Morumbi, na zona oeste, para chegar ao trabalho. Depois de cumprir o expediente entre 7h às 17h, encara todo o percurso de volta e só vai chegar em casa às 19h.

“Passo praticamente quatro horas no transporte. O trajeto é muito exaustivo, porque além de eu fazer quatro baldeações de trem e metrô, ainda tem a questão de estar muito cheio”, desabafa a auxiliar administrativa.

Ana Paula leva ao menos 4h para ir e voltar do emprego. Um tempo desgastante mas que não é considerado na jornada de trabalho @Arquivo pessoal/Divulgação

Além do tempo desgastante no transporte coletivo, Ana Paula trabalha formalmente 44 horas semanais – jornada acima da média mundial de 42,7 horas, ranqueada pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas entre 2022 e 2023, com base no banco de dados Global Working Hours (Horário De Trabalho Global).

Nas últimas semanas, o estudo levantou polêmicas ao afirmar que os brasileiros trabalhavam menos em comparação com outras nacionalidades e valorizavam mais o lazer.

A pesquisa investigou a força de trabalho em 160 países e classificou o Brasil abaixo da média mundial de horas semanais trabalhadas, com 40,1 horas. Segundo o economista da FGV Daniel Duque, responsável pelo levantamento, os brasileiros trabalham menos do que o esperado para o seu nível de produtividade.

O estudo traz ainda uma comparação entre gêneros. Mundialmente, mulheres contribuem com 35% das horas trabalhadas no Produto Interno Bruto (PIB) global, enquanto os homens contribuem com 65%. Em horas, mulheres trabalham em média 37h e homens 45h.

No Brasil, o estudo identificou que homens trabalham 6h a menos do que o esperado dada a produtividade, enquanto as mulheres 11h.

Quem está do outro lado dos dados discorda, em especial as mulheres, que sustentam duplas e triplas jornadas de trabalho, com bicos e cuidados domésticos.

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A pedagoga Vanessa Santos de Oliveira, 46, é uma delas. Ela conseguiu uma vaga como professora em uma escola pública próxima a sua casa, após anos se deslocando por São Paulo e outros municípios para dar aula.

Por isso, aproveita o tempo que gastava no transporte público para trabalhar na sua segunda e terceira jornada: atendimentos como terapeuta holística e o trabalho como trancista – o mais cansativo, já que são pelo menos 6 horas em pé trançando cabelos.

Os extras reforçam a renda da família, composta por ela e suas duas filhas, Julia, 16, e Isabella, 14. Mãe solo, ela garante que todo esforço é para dar às filhas as oportunidades que não teve.

Vanessa, professora trabalha ao menos 52 horas semanais, em uma escola pública @Arquivo pessoal/Divulgação

Somando as 40 horas de trabalho formal às 12 horas dedicadas à renda extra, Vanessa sustenta uma jornada de 52 horas semanais. Isso sem contar o trabalho invisível e não remunerado do cuidado doméstico.

‘Eu acho que a sobrecarga da mulher negra é maior, porque a sociedade já tem o estereótipo de que a mulher negra é guerreira. ‘Ah, ela é guerreira, ela aguenta’

Vanessa, pedagoga

Muito esforço, poucos dados

A rotina de Vanessa e Ana Paula se repete pelas periferias da Grande São Paulo e do Brasil.

As mulheres dedicam em média 21,3 horas a afazeres domésticos e cuidado de pessoas, enquanto homens gastam 11,7 horas. Os dados são do estudo Outras Formas de Trabalho, da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua 2022, do IBGE.

“A pesquisa [da FGV] coloca a mulher em um cenário de comparação, com menos horas trabalhadas [que os homens], quando na realidade, a jornada formal é apenas uma parte do trabalho da mulher na sociedade”, diz Mônica Gurjão, doutora em psicologia social do trabalho.

Ela reforça que a pesquisa usou dados do Banco Mundial, da Organização Internacional do Trabalho e da União Europeia, com um olhar sob a perspectiva do norte global.

“Um país rico tem mais aparatos que vão desde aplicação de tecnologias que facilitam e trazem bem estar aos trabalhadores, até garantias trabalhistas ao seu povo. No Brasil, a gente tem o passado nunca superado da escravidão. Se hoje eles se dão ao luxo de trabalhar menos, é com base no nosso suor também”, diz.

A estudiosa avalia que a pesquisa da FGV não leva em conta outros aspectos relacionados a gênero e raça, sendo que, historicamente, são as mulheres negras que estão à frente dos trabalhos de cuidados domésticos.

Ainda conforme o IBGE, a cada 100 mulheres pretas, 93 realizam atividades domésticas e de cuidado – entre as brancas são 90 a cada 100.

“Não podemos negligenciar o trabalho doméstico e a economia do bico, que é muito comum no Brasil. Não contar essas horas [de ocupação] e dizer que as mulheres trabalham menos é injusto. É preciso levar em conta questões de gênero e raça, que são características estruturantes do nosso mercado de trabalho”.

O trabalho doméstico não remunerado contribui economicamente com até 39% do PIB dos países, porque supre um setor de serviços, segundo a ONU Mulher. No Brasil, dados do Ibre FGV mostram que se os afazeres domésticos e cuidados com a família fossem contabilizados como parte da produção de riquezas, o PIB do país cresceria 13%.

Na tentativa de legitimar esse tipo de trabalho, tramita no Congresso Federal o Projeto de Lei 638 de 2019, que pretende incluir a “economia do cuidado”  no cálculo do PIB. Isso ajudaria na implementação de políticas públicas, sobretudo para mulheres que são as maiores responsáveis por esse trabalho invisibilizado.

Fonte: ONU Mulher, Ibre FGV e Câmara dos Deputados

A maioria dos lares brasileiros são chefiados por mulheres (51,7%), em especial por – negras (53%) e com menor escolaridade (43% das mulheres negras com apenas ensino fundamental), que por isso sofrem mais com o desemprego, segundo a FGV.

“Dizer que as mulheres ainda trabalham menos é injusto. Não tem como apresentar dados sobre o Brasil negligenciando raça e gênero, porque são características tipo estruturantes do nosso mercado de trabalho. As mulheres negras, sobretudo, ficam apagadas”, diz Mônica. “Dados devem ser produzidos a partir de estatísticas nacionais, ponderadas com a realidade das pessoas”.

Pessoas pardas e pretas são as com menor acesso ao emprego formal, com carteira assinada, e são as que mais sofrem com desemprego, subutilização e informalidade, segundo o estudo “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil”, publicado pelo IBGE em 2022.

“Existe um estigma de o povo preto gostar de trabalhar e estudar menos, mas para nós nada nunca foi fácil. Você tem que sempre ser o melhor, mas como se eu nunca tive acesso ao que é melhor?”, questiona indignada Vanessa.

Como anda o mercado de trabalho no Brasil?

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A cada 100 pessoas, 74 acham que é necessário criar políticas de garantia de emprego.

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Ao todo, 56% dos brasileiros já precisaram fazer alguma atividade extra para obter ou complementar renda. A maior parte em serviços gerais, de acordo com estudo da Rede Nossa São Paulo

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Dentre os que não precisaram fazer serviços extras, a maioria eram brancos (45%), tinha renda mensal acima de cinco salários mínimos (48%) e ensino superior (46%).

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Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados mostra que a partir de 2021, após a pandemia por Covid-19, o saldo de empregos com carteira assinada esteve positivo, mas o percentual de trabalhadores formais caiu 24% entre 2024 e 2025.

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Segundo análise do economista Nelson Marconi, professor da FGV, o mercado de trabalho está aquecido, porém com ofertas de empregos de menor qualidade e remuneração. 

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Jacqueline Maria da Silva

Jornalista, vencedora de prêmios de jornalismo como MOL, SEBRAE, SIP. Gosta de falar sobre temas diversos e acredita do jornalismo como ferramenta para tornar o planeta melhor.

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