Beni Blasquez/Divulgação
Por: Isabela do Carmo
Notícia
Publicado em 29.05.2026 | 12:29 | Alterado em 02.06.2026 | 21:22
Uma casa de família com quatro filhos e uma pequena confecção de camisetas de futebol de várzea se transformou em um espaço cultural em Heliópolis, favela da zona sul de São Paulo. É ali que nasceu neste mês o Museu Casa de Teresa.
Durante quase três décadas, a residência abrigou a produção de uniformes que circulavam pelos campos da região e ajudaram a construir a memória afetiva e material do bairro.
Idealizado por Carol Barbosa, 31, mestranda em Museologia pela USP (Universidade de São Paulo), nascida e criada em Heliópolis. Conhecida como Carol Cax, ela iniciou o projeto há cerca de dois anos e leva o nome de Teresinha Batista da Silva Barbosa, mãe dela, que viveu na casa por mais de 30 anos.
“O Museu acontece de maneira muito comunitária, no coração do cotidiano das pessoas. É um espaço que depende do apoio coletivo, uma vez que não nasceu como uma iniciativa do poder público”, afirma Carol.

Carol Barbosa, idealizadora do Museu Casa de Teresa _ Imagem @Isabela do Carmo/Agência Mural
O espaço foi inspirado no Acervo da Laje, iniciativa cultural localizada em Salvador, na Bahia, onde as atividades artísticas são realizadas dentro da residência de José Eduardo Ferreira Santos e Vilma Ferreira Santos. Também foram levados em conta outras iniciativas museológicas, como o Museu da Maré e o Museu de Arte de Simões Filho.
Em Heliópolis, a proposta segue uma perspectiva semelhante: transformar a casa em um espaço vivo de convivência, arte e memória coletiva.
O sobrado abriga salas expositivas tanto no térreo quanto na parte superior. Ainda assim, a residência permanece preservada. Nos fundos da casa seguem os quartos e os espaços privados dos moradores, incluindo a própria Carol.
Diferente da concepção tradicional de museu-casa – geralmente associada à preservação da intimidade de figuras ilustres – o Museu Casa de Teresa se constrói a partir da chamada museologia social.
A idealizadora destaca que o Museu atua na preservação da memória e no acesso à cultura, fortalecendo a produção artística periférica como espaço cultural comunitário.

Espaço foi criado em casa que era referência por produzir materiais do futebol de várzea @Beni Blasquez/Divulgação
O espaço reúne obras de artistas de Heliópolis e de outras periferias de São Paulo e mantém uma programação voltada à troca cultural e à circulação de narrativas historicamente excluídas dos circuitos tradicionais.
Além das exposições, o espaço também recebe crianças de escolas públicas e CCAs da região para mediações culturais, contação de histórias e rodas de conversa sobre as obras expostas, aproximando o público infantil da arte.
“É um espaço que busca preservar memórias e garantir às pessoas o direito de vivenciar e refletir sobre essa metrópole que tantas vezes não reconhece nem acolhe as práticas culturais periféricas”, reforça.
Na abertura do museu, foi lançada a exposição ‘Jogo de Retalhos’, que estabelece diálogo direto com essa essência da casa. A proposta articula poesia, memória e produção de obras de arte com tecidos. A montagem ressignifica o espaço doméstico historicamente atravessado pelo trabalho com tecidos, costuras e retalhos.
A exposição, de curadoria de Mira, 29, reúne obras de sete artistas: Amana, Mura, A TRANSÄLIEN, Cho, Dan Salas, GIVVA, Ossy Erro e Zure Flor.

Mira, curadora da exposição Jogo de Retalhos @Isabela do Carmo/Agência Mural
Eles integraram a residência artística ‘Me Reconheço no Encontro’ – projeto fomentado pelo Programa VAI (Valorização de Iniciativas Culturais), da Prefeitura de São Paulo, política pública voltada ao financiamento de coletivos, artistas e organizações culturais atuantes em territórios periféricos da cidade.
Natural de Cidade Líder, na zona leste de São Paulo, Mira conta que a arte esteve presente na vida dela desde a infância, especialmente por meio do desenho e da pintura. Mesmo ao optar por uma trajetória acadêmica na licenciatura em biologia, nunca se afastou da produção artística.
“A arte sempre esteve comigo. Nunca deixei de desenhar e pintar. Em determinado momento, entendi que meu papel e minha atuação no campo artístico poderiam produzir transformações mais profundas do que eu imaginava inicialmente na biologia”, afirma.
Sob condução de Mira, a residência artística ‘Me Reconheço no Encontro’ reuniu artistas durante dois meses no Museu Casa de Teresa, que passou a funcionar como espaço compartilhado de ateliê, criação e experimentação coletiva.
O título ‘Jogo de Retalhos’ faz referência tanto às texturas presentes nas obras quanto às histórias reunidas na exposição. Os artistas trabalham com tecidos, tramas, fragmentos e restos têxteis como linguagem estética e política, transformando retalhos que refletem sobre o papel da arte na vida de cada expositor.
“Existe algo entre a fabulação e o mistério nessas obras. Talvez essa exposição seja também uma primeira abertura desse espaço para criar conexões com mais artistas locais e fortalecer redes dentro da própria periferia”, diz Mira.
Segundo Carol, os próximos passos do Museu já incluem uma nova mostra, prevista para o segundo semestre deste ano, dedicada à formação urbana de Heliópolis.
A exposição irá reunir fotografias históricas sobre as primeiras construções e os processos de ocupação do território, a partir de um levantamento realizado por Moroni Henrique, um dos curadores do espaço e ex-pesquisador do Observatório de Olho na Quebrada.
A proposta é apresentar, por meio de registros visuais e documentais, a evolução da ocupação de Heliópolis, resgatando memórias da consolidação da favela e das transformações urbanas construídas pelos próprios moradores ao longo das décadas.
Endereço: Rua Santa Ângela de Mérici, nº 84, Heliópolis
Exposição: Jogo de Retalhos segue em cartaz até o dia 30/05
Horário de funcionamento: Segunda a sexta-feira: visitação com horário marcado – sábado das 10h às 20h – Domingo das 10h às 18h
Formas de pagamento: Gratuito
Jornalista e pós-graduanda em Direitos Humanos e Lutas Sociais pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo). É correspondente de Heliópolis desde 2023.
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02.06.2026A legenda da foto sobre Cho foi colocada com o gênero errado.
02.06.2026Inicialmente, o texto dizia que o Acervo da Laje inspirou o projeto, mas outras iniciativas museológicas também foram usadas e são citadas na reportagem
02.06.2026Texto alterado para trazer o nome correto: Teresinha Batista da Silva Barbosa