Na Brasilândia, empreendedora transforma calçados em arte e conquista MCs

Juliana trabalha com a restauração e customização de calçados e foi apelidada de a 'rainha dos pisantes'

Juliana Schiezaro Marques tem 21 anos e titubeia ao se definir profissionalmente. Faz cabelos, trabalha com faxinas, produz um brechó e ainda toca o próprio negócio de restauração e customização de tênis, a From Ghetto, To Ghetto. 

A “rainha dos pisantes”, como tem se tornado conhecida, mora em um quarto repleto de calçados no apartamento da Cohab localizada no Jardim Damasceno, Brasilândia, zona norte de São Paulo, onde trabalha suas peças. 

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“Sou curiosa, ainda não sei o que eu sou. Não me descobri. Percebo que as pessoas têm um respeito imenso por mim; que não sou só mais uma jovem de 20 anos de idade e cativei em pouco tempo coisas absurdas. Sou fã de arte, uma artesã, mas sei que para outras pessoas, eu sou além disso, por enquanto, acho que sou artesã”, se define. 

A curiosidade de Juliana é aguçada desde a infância. Aos 11, começou a estilizar seu vestuário, por hobby. “Naquela época, existia aquela coisa de estilo e todas as influências eram muito caras, não tinha dinheiro. Então, comecei com os kits que ganhava do governo, que vinham guache. Minha memória fotografava o que eu queria e eu reproduzia”, conta. 

Há quatro anos, a situação financeira apertou com o desemprego da mãe e ela decidiu investir na produção como fonte de renda. Um amigo ajudou na divulgação das peças e por meio das redes sociais o trabalho ganhou destaque. “Veio o primeiro Mc, o Bitrinho, e me deu aquela força. Você é louco, ele tem uma influência muito grande no rap nacional e nessa sequência vieram outras pessoas, mcs, e o hobby se transformou em um trabalho”. 

Juliana Schiezaro atua na Brasilândia (Cleber Arruda/Agência Mural)

O profissional que faz essa customização de calçados é conhecido no mercado como custom sneaker. Juliana tem ressalvas sobre a carreira.

“Esse mercado é muito gourmet, coisas simples se tornam muito caras e de difícil manuseio”. Ela exemplifica: “Uma pessoa para ser considerada sneaker tem que ter uma tinta gringa e uma série de coisas que não está para minha realidade; não tem como pagar R$ 500 em uma lata de tinta, sendo que minha parcela do aluguel é R$ 700 ”. 

Por mês, calcula trabalhar a média de 20 pares de calçados; cobra de R$ 30 a R$ 300 dependendo do que é pedido e negocia preços especiais em combos de serviços, com mais peças. O prazo de entrega varia de três dias a um mês, também de acordo com a restauração e/ou customização solicitada. Estima já ter trabalhado mais de 1100 pares até hoje. 

A empreendedora de fala articulada e agenda lotada não limita a produção artística aos calçados. “Quando tenho uma ideia, minha mente não foca só no tênis, o que mandar eu estou criando, estou fazendo”. Um exemplo da versatilidade é o brechó itinerante, o From Ghetto Brechó, produzido em parceria com uma amiga e com uma bandeira de inclusão. 

Crédito: DivulgaçãoEmpreendedora customiza tênis (Divulgação)

“Todos os nossos modelos são da periferia e nosso intuito é estar em todos os lugares das quebradas. A ênfase é trabalhar com modelos negros e deficientes, de todas as periferias, de várias idades, gêneros. Porque a gente vê que aqui é difícil ter reconhecimento e visibilidade”. 

Juliana conta que modelos que participaram dos ensaios para o brechó já conseguiram trabalhos em grandes marcas como a Nike e Tommy Hilfiger. Os brechós não têm uma periodicidade definida e estão presentes em eventos como saraus. As peças garimpadas também podem ser negociadas no trabalho com os tênis. 

Ao falar dos seus dois sonhos, sorri. “O mais bobo é dar os dentes para minha mãe, porque a vida dela foi dedicada para gente e hoje ela não tem uma saúde estética muito boa”. O outro é ser bilíngue. A jovem, que concluiu o ensino médio em 2015, fez o básico do curso de inglês, mas parou as aulas porque não teve condições financeiras. 

E a ideia de criar oportunidades está dentro dos próximos planos futuros da multiJuliana. “Minha meta, daqui a cinco anos, é ter uma microempresa que empregue apenas moradores da periferia. Para muitos sou referência, para outros a ‘mina’ que pinta boot. O fato é não vou mais encher bolso de patrão, quero encher o bolso dos meus”.

Cleber Arruda

Cofundador e correspondente da Brasilândia desde 2010. É jornalista do Valor Econômico e voluntário do projeto Animais da Aldeia. É canceriano, gosta de cachorros e de viajar por aí.

Brasilândia, São Paulo

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