No Dia dos Pais, o jeito de um caminhoneiro, mestre de kung fu e (talvez) bandeirinha

Em uma redação de 2001 na escola, escrevi que gostaria de ser motorista de caminhão ou de ônibus quando ‘crescesse’. A professora da quinta série reagiu com certa indignação. “Como motorista? Há tantas coisas por aí para querer ser”, respondeu.

A conexão na época não estava clara. Por que motorista? Tinha a impressão que era pelo que sentia quando andava de ônibus pelas ruas de Osasco, na habilidade do motorista em dirigir um veículo tão grande por ruas estreitas. Mas, na verdade, o motivo estava mais próximo e começou antes de ir estudar longe de casa. Meu pai.

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Paulo Barros de Bastos – sim, o Talarico não vem dele – dirige desde que me entendo por gente e dirige muito bem. Conduz caminhões dos menores aos maiores, todos os dias há pelo menos 28 anos, em um supermercado perto de casa. Trabalha desde a adolescência no mesmo lugar.

Barros de Bastos também é teimoso. Caminha para os 60 oficialmente, mas nega a cada aniversário. “Tô fazendo 22”. A teimosia também posso ter pego. Mas ele é insuperável. Ele gosta de chegar em casa e anunciar: “Vamos para uma teiminha?”.

E aí começa uma tese que irá facilmente de um programa da TV, a solução de um crime que ainda não foi esclarecido, ou os segredos do porquê a seleção brasileira não ganhou este ano e perdeu de 7 a 1.

Com a camisa do Santos, sem ser santista. Cada dia ele vai com a camisa de um dos grandes de São Paulo (Acervo Pessoal)

Não tente convencê-lo de que Felipão não desanimou o elenco em 2014 quando Neymar saiu contundido. Pra ele, já em 2014, os jogadores se sentiam menosprezados pela atenção dada ao craque.

O mais legal da parte esportiva é que ele gosta de opinar, mas não torce. Faz questão de ter uma camisa dos quatro grandes de São Paulo e ir para o trabalho com aquela do time vencedor da rodada.

“Lá vem o Paulão bandeirinha”, dirão carregadores no Ceasa, onde ele busca as frutas para o mercado. Ele não liga. “Do meu São Paulo, ninguém ganha”. “E meu Corinthians, ein?”. Ainda faz questão de mandar mensagem para os colegas do time derrotado.

Único capixaba de uma família que teve 14 irmãos baianos, Paulão não é tão fã de comemorações. É mais na dele. O Dia dos Pais costuma ter o seguinte diálogo. “Aê pai, feliz dia dos pais”. “Aê, estamos aí no meio de campo”. Pronto. Um dia ele reclamou que falamos muito no telefone, e exemplificou. Ligou para um amigo e bateu o recorde mundial de ligações rápidas. “Oi, Zé, tudo bem? Ah, que bom, tá bom, então tá certo, até mais”.

Quadro retrata o padrinho, Didi, falecido, e Paulo Barros de Bastos, meu pai (Acervo Pessoal)

Discreto, por outro lado, não recusa uma boa bota e o inseparável boné. Uniforme da vida.

Brincalhão, ele teve um jeito peculiar de disciplina na minha infância. Quando falava sério, dava aquela sensação de que realmente o mundo acabou. Um dia fiquei irritado, bati a porta, porque queria ver um jogo e não deu certo, pois tinham visitas – aquelas grandes revoltas das crianças de 12 anos. Sério, no fim do dia, ele deu uma repreensão dura, rápida e simples: “Se acontecer de novo, levo a TV e não vai ter nunca mais”.

Mas foram raros momentos assim. Até porque achei melhor respeitar e preservar a TV.

Acima disse que Paulão é teimoso. Mas vale uma ressalva fundamental. “Big Paul” é também mestre de kung fu e treinou uma geração de garotos das favelas da região da zona sul osasquense. Vira e mexe alguém lembra: treinei contigo no morro.

Naturalmente, um filho de um mestre deveria seguir os passos e aprender a nobre arte marcial e tentar pegar todo o equilíbrio dessa sabedoria. Não foi o que aconteceu, por falta de vontade, tentativa e capacidade. O mais curioso: ele nunca tentou me convencer. De forma quieta, sem nunca tocar no assunto, ele viu que não era minha vontade.

Simplesmente respeitou a decisão do moleque, como todas as outras decisões que tomei desde bem cedo. Deve fazer parte do ser pai.

Paulo Talarico é correspondente de Osasco
[email protected]

0 thoughts on ““A coisa tava preta” no show do Rincon Sapiência”

  1. Que lindo Ana Beatriz!
    Nos olhos e na voz dessas crianças é que realmente está a nossa esperança de um país melhor.
    Pessoas inocentes que conseguem enxergar o que muitos ignoram.
    É a vida de verdade,o sorriso estampado,o brilho nos olhos que mal sabem o que ainda vai ter que enfrentar.
    Um super abraço de toda família Centro Comunitário do Embura.
    Felicidades linda.

  2. Um raio x dessas pequenas Almas, que acreditam e sonham em um país onde tudo parece estar pedido, surge através da pureza e simplicidade o nascer da esperança dentro desses pequenos gigantes.
    Ainda vale a pena sonhar!

  3. Uma linda crônica, repleta de alma e total conhecimento do cenário atual de nosso país.
    São palavras assim que nos inispiram à lutar por mais um dia.
    Parabéns!!!

  4. Parabéns. Sou testemunha do seu ganho de saúde física, emocional e psicológica. Pois a bicicleta proporcionou a conscientização dos alimentos que lhe trazem energia e vitalidade e daqueles que intoxicam tirando o vigor pro esporte. Sua conquista de um corpo mais sadio e moldado também é digna de congratulações.

    1. Pessoa incrível, estudamos juntos e realmente sua história de vida é algo que muitas pessoas que tiveram a oportunidade de conviver um pouco com ele aprendeu muito.

  5. Fantástico ! Com todos percalços que a periferia oferece na prática esportiva, eis uma superação e motivação para deixarmos de ser sedentários ! Parabéns Mauro pela iniciativa !

  6. Olá,
    Gostaria de saber se a possibilidade de receber bolsa de estudos para esse curso em específico. Que Muito fazer, mas não possuo recursos no momento para investir.

    Desde já agradeço.

    1. Olá, Sheila! Muito obrigada pelo contato e interesse pelo curso. A atividade é oferecida pela faculdade, logo, vale tentar direto com a Fespsp a possibilidade de conseguir alguma bolsa.

  7. Paulinho, esta sim é a mais linda forma de Dizer Eu Te Amo Para um Pai!
    Você fez uma linda homenagem, para o Tio Paulo, que é Paizão de toda Família.
    Deus abençoe a todos os Filhos.

  8. Zorade, ai sim meu grande sobrinho, que homenagem de arrepiar.! Digo nunca vista, (é claro)pois cada um é um…Quanta sabedoria vestida de aparente ignorancia! O jeito de ser do meu irmao meio estranho, superou os grandes modos finos de criar seus filhos…Quanta riqueza de carater , de valentia também,ele apresentou a voce e a essa exelente Mae que te trouxe ao mundo…Familia pequena nas de grande peso..kkkk em todos os sentidos…No seu relato voce se esqueceu de falar sibre a bondade do coraçao dele…Tem umas histórias de caridade dele que admiro!…Parabéns pela homenagem ! Que Deus lhe proteja , que cada vez mais sua intelugencia seja ativada….abraços

  9. Olá boa tarde,
    Gostaria de parabenizar pela iniciativa e tbm Têmos que girar essa informação e cobrar de forma correta e pacífica dos responsável para tal , tendo em vista que somos moradores da região Têmos essas e outras dificuldades sendo que todos nós vamos receber visitas Nos próximos dias de político ou de seus prestadores de serviços prometendo o que não se cumpre ,uma vez que se não formos no dia votar somos obrigados a pagar multa e tenho certeza que todos nos não deixamos de pagar e quando se trata de olhar um pouco pra lado mínimo que é ,transporte, segurança, iluminação, etc.. Nos não temos respaldo ,então diariamente ouvimos relatos e acontecimentos que cada dia dificulta mais a vivência no bairro, só lembrando que mesmo sendo uma APA todos aqui são eleitores que seguem a risca com suas obrigações e o que queremos é o mínimo se iníciando pelo Respeito aos moradored e direito de ir e vir que já não temos mais.
    Att:
    Gilmar Rodrigues

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