‘Nós, mulheres da periferia’ completa 5 anos e aponta mudanças no jornalismo

Grupo vê aumento em abordagens sobre o feminismo, mas alerta para a falta de acesso às informações por quem vive longe do centro

“Se a periferia tivesse sexo, certamente seria feminino.” Foram com estas palavras que as integrantes fundadoras do Nós, mulheres da periferia iniciaram artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, em março de 2012. No texto, elas refletiam sobre o que era ser mulher periférica ‒ atentando para a invisibilidade e aos direitos não atendidos de parte dessas mulheres. “Somos várias, diferentes histórias”, continua o artigo, “é impossível nos reduzir a um estereótipo”.

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Há cinco anos, em 8 de março de 2014, foi lançado oficialmente o coletivo Nós, mulheres da periferia, primeiro com uma página no Facebook, depois com o site com conteúdo jornalístico sobre o tema. O objetivo, conforme afirmam, é de contribuir com a construção de uma narrativa “que fortaleça e não violente as mulheres periféricas”.

“Acreditamos que o nosso trabalho é o caminho para contar essas narrativas que foram, historicamente, renegadas e excluídas da sociedade.”

A Agência Mural conversou com o coletivo que hoje conta com as jornalistas Bianca Pedrina, Jéssica Moreira, Lívia Lima da Silva, Mayara Penina, Regiany Silva e Semayat Oliveira. Nesta entrevista, elas falam acerca da representação da mulher periférica pela imprensa, o papel da mídia alternativa na construção de narrativas periféricas e os desafios na cobertura sobre o tema. “A comunicação que vem das periferias pode ser um meio de transformação social”.

Grupo lançou em 2014 portal para cobrir a vida das mulheres que vivem nas periferias (Camila Abade/Divulgação)

Agência Mural ‒ Em 2015, vocês iniciaram projeto intitulado “Desconstruindo Estereótipos”, cujo objetivo foi compreender como as mulheres participantes se sentiam representadas pela mídia. De lá pra cá, algo mudou? Como as mulheres das periferias são representadas, hoje, pela mídia?
Nós, mulheres da periferia ‒ Não temos uma pesquisa na qual possamos verificar isso, mas, a partir de dados empíricos, podemos afirmar que, sim, isso mudou desde então. Atualmente, há programação na televisão que mostra mulheres das periferias de maneiras diferentes, como podemos ver no caso da Malhação [série da TV Globo], que nos últimos anos mudou consideravelmente. Vimos também a criação de blogs, sites e coletivos nas periferias sobre a questão. O feminismo, enquanto pauta, também se ampliou, mas isso no mundo inteiro. Por meio de youtubers, instagramers, hoje podemos ver meninas das periferias discutindo temas muito importantes que antes não víamos. É possível encontrar mais histórias positivas de mulheres da periferia do que naquele período.

No entanto, não podemos nos enganar. Muitas mulheres das periferias ainda não possuem acesso à internet e não participam dessa discussão. Muitas dessas mulheres ainda não acessam nomenclaturas e nós, enquanto mulheres em movimento, precisamos olhar para a forma como nos comunicamos, para que nossa linguagem seja sempre acessível a várias de nós, independente da idade ou escolaridade. E essa é uma preocupação grande do coletivo.

Qual a importância da imprensa alternativa na vida das população das periferias? Qual a percepção de vocês sobre o papel do Nós, mulheres da periferia na vida dessas pessoas?
Acreditamos que a mídia alternativa é um caminho para contar histórias que foram, historicamente, renegadas e excluídas da sociedade. Sabemos que a periferia tem gênero, classe e cor. A maioria da população é preta, pobre e formada por mulheres. Então, para nós, poder contar essa história partindo do território, ou seja, de um olhar de dentro, é a forma como podemos nos colocar e ampliar as vozes de outras mulheres que, muitas vezes, tiveram suas histórias escondidas. A mídia alternativa cumpre, ainda, papel fundamental na vida das populações onde atua. Notícias locais podem servir como ferramenta de denúncia sobre a omissão do Estado, desde o asfalto quebrado à falta de luz nas ruas, o que afeta inclusive a segurança das mulheres. A comunicação que vem das periferias pode ser um meio de transformação social. Pois, finalmente, as pessoas podem se ver no material que estão consumindo, já que a grande mídia, embora tenha melhorado, trata tudo de forma muito genérica.

Buscamos contar essas histórias de forma que fortaleça a história de vida e a construção de uma memória feminina que seja positiva, independente do fato que a fez se tornar uma notícia

No site, vocês citam que um dos objetivos é “disseminar conteúdos autorais” por meio de “narrativas humanizadas”. Como se dá isso? Tendo em vista que hoje a imprensa tradicional não consegue se comunicar com grande parte da população, como o coletivo tenta reverter esse descrédito?
Acreditamos que é necessário que as pessoas pobres, negras e periféricas sejam mais que estatísticas de violência, morte e pobreza. Acreditamos que todas as pessoas têm histórias para contar e todas são importantes. Essa importância que damos para essas narrativas, ainda que aparentemente simples, tornam nosso jornalismo mais humanizado.  Muita coisa mudou nos últimos cinco anos. Vimos movimentos da grande imprensa [no sentido de] ampliar e escutar essas pessoas. Hoje, vemos pautas relacionadas às mulheres, às questões raciais e das periferias com maior frequência nos grandes portais. Isso tem ligação com a entrada de jornalistas do nosso lado nas redações mais tradicionais, assim como a influência do nosso trabalho e de portais como Periferia em Movimento, Alma Preta, Desenrola e não me Enrola, Historiorama e a Agência Mural, que é inclusive nosso berço e história, com muito amor.

Mesmo assim, esses assuntos ainda têm mais entrada a depender de datas comemorativas, tragédias ou polêmicas. O trabalho que propomos é de construção de uma nova narrativa e isso se faz com o tempo e a frequência. E é isso que cria o vínculo e a credibilidade necessária para que o leitor se identifique com a gente e com o conteúdo que entregamos. Nosso jeito de fazer [jornalismo] parte muito da primeira pessoa, da forma como vemos o mundo e como percebemos os acontecimentos e, desde o início, aproximou muita gente de nós. Construímos muito até aqui e estamos nos transformando para continuarmos nessa caminhada.

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Quais as principais conquistas do coletivo até aqui?
Nascemos no online, mas sempre atuamos muito no offline. Com as oficinas do “Desconstruindo Estereótipos”, por exemplo, atingimos centenas de mulheres em todas as regiões de São Paulo. Desse trabalho nasceu a exposição artística “Quem Somos, Por Nós”, que aconteceu no Centro Cultural da Juventude, na Cachoeirinha, [zona norte] em 2015. Foi muito emocionante pra gente colocar uma exposição artística feita a partir da fala de mulheres das periferias com as nossas [próprias] mãos. Em 2017, lançamos o curta documentário “Nós, Carolinas”. Lotamos a sala [da Galeria] Olido duas vezes só na estreia e ouvimos de mulheres importantes que são como nós e nossas vizinhas, que pela primeira vez se sentiram representadas em um documentário. E hoje estamos também em uma nova fase, represando e rearticulando nossa atuação online. É muito simbólico um veículo de comunicação feito por mulheres nascer e continuar de pé por tanto tempo. Não tem mais volta.

Quais as dificuldades na cobertura jornalística a partir da perspectiva de mulheres?
O desafio é construir uma narrativa que fortaleça e não violente mulheres, como se faz tradicionalmente. Seja em situações de violência ou não, as mulheres são frequentemente violentadas em títulos e abordagens do jornalismo. Então, em nossos textos, buscamos contar essas histórias de forma que fortaleça a história de vida e a construção de uma memória feminina que seja positiva, independente do fato que a fez se tornar uma notícia. E por essa função de memória, apostamos em perfis, entrevistas e conteúdos que coloquem ao máximo a perspectiva das mulheres sobre si mesmas e sobre as questões que as envolvem.

O que planejam para o futuro?
Queremos ter a nossa redação e construir uma equipe maior. Estamos agora em fase de reestruturação do nosso modo de fazer, trabalhando para trazer mais colaboradoras para que a gente possa produzir conteúdo com a constância que queremos e precisamos. Estamos nessa fase neste início do ano e voltaremos com força em breve.

Rômulo Cabrera é correspondente de Suzano
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