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‘Nosso lugar é onde a gente quiser estar’, diz o escritor Alexandre Ribeiro

'Da Quebrada para o Mundo'. Nascido em Diadema, na Grande São Paulo, Alexandre hoje vive na Alemanha, onde faz intercâmbio

Às vezes é até difícil acreditar que Alexandre Ribeiro, cria da Favela da Torre, em Diadema, tem apenas 22 anos. 

Ele já foi vendedor de CD de rap no trem, colunista no site do Itaú Cultural, publicou dois livros (Reservado e Inflorescência), já deu aulas na Fundação Casa e agora está na Alemanha fazendo intercâmbio voluntário com crianças com deficiência.

Mesmo já passando por uma montanha de experiências – que inclui até vender seu livro pessoalmente para Marcelo Rebelo de Sousa, atual presidente de Portugal, numa feira literária – Alê fala que a maior conquista é estar vivo e saudável em meio à pandemia de Covid-19.

Alexandre Ribeiro é autor de dois livros

“Se manter estável mentalmente é um dos maiores obstáculos que eu podia ter, enfim, ver várias pessoas morrendo, ver sonhos morrendo também, ver o mundo do jeito que está, é bem difícil de você se manter uma pessoa sã”, afirma.

Seu segundo livro, “Reservado”, foi lançado em 2019 e foi produzido após ele ser selecionado em um edital público do governo estadual. Apesar de não ser biográfico, a história surge a partir de vivências de Alê durante a adolescência e de uma “brisa” que ele tinha quando era mais novo: para onde vão os ônibus que estão “reservados”?

“Cresci sendo um ser humano reservado, no meu canto, e quando eu tinha 11 anos de idade, ficava olhando para os ônibus que ficavam passando pela minha quebrada com a placa ‘Reservado’?”, conta. 

“Reservado para quem? Por quê? Quando tive a oportunidade de andar num ônibus reservado, foi para me levar para o velório do meu pai. Isso aí mudou muita coisa na minha vida”.

O pai de Alê, Antenor Gomes, morreu em 2009, vítima de uma outra pandemia, a de H1N1 – que também ficou conhecido como gripe suína. Era o pai quem incentivava o filho a ler: dizia para ele ir dormir só depois de terminar pelo menos cinco páginas de algum livro. 

A morte do pai acabou afastando Alê da leitura e da escrita durante a adolescência. Somente no ensino médio, quando entrou em contato com a poesia slam e com a Escola de Jornalismo, da Enóis, que ele se reconectou com os livros.

Autor vendeu livro para o presidente de Portugal

A escrita e a leitura são os principais responsáveis por levar Alê “da quebrada pro mundo”. A frase é a marca do escritor em todas as redes sociais dele e título do próximo livro que está produzindo. Para ele, é também uma ressignificação de espaços e possibilidades possível para qualquer jovem de periferia. 

“Da quebrada para o mundo é esse movimento de a gente realmente tomar o que é nosso por direito, de poder viajar, usufruir dos bens e não se deixar levar pelo lado consumista, mas pelo lado cultural”, afirma. “Nosso lugar é o mundo, onde a gente quiser estar”.

Além do próximo livro, Alê pretende expandir a ideia “da quebrada pro mundo” com aulas de idiomas gratuitas na Favela da Torre, onde cresceu, e a formação de um centro cultural na região. Diz que a educação é apenas uma forma de retribuir a tudo e todos que o ajudaram.

“Vejo que os lugares que cheguei, as coisas que eu posso fazer só são possíveis porque pessoas me estenderam a mão pra que eu tivesse oportunidade, saca?”, conta. 

“Até na minha vivência de pobre, louco, favelado, tive meus privilégios. A gente pode compartilhar, viver todas essas coisas, voltar para a sua quebrada de cabeça erguida e querendo explicar um pouco de como o mundo é para os outros”.

*Esta reportagem faz parte da série Crias da Quebrada, com a história de dez jovens das periferias de São Paulo

Patrícia Vilas Boas

Estudante de jornalismo, correspondente da Vila Curuçá desde 2019.

Vila Curuçá, São Paulo

Cléberson Santos

Jornalista, correspondente do Capão Redondo desde 2019. Trabalha com jornalismo esportivo para portais de notícias desde 2014, mas não sabe chutar uma bola.

Capão Redondo, São Paulo

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