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O caminho que levou a Estrela do Terceiro Milênio, do Grajaú, ao Grupo Especial do Carnaval

Agremiação da zona sul desfilará pela primeira vez no Grupo Especial, em 2023. Escola tirou nota máxima em todos os quesitos em desfile que homenageou as mulheres do samba

Por: Isabela Alves

Notícia

Publicado em 17.05.2022 | 16:18 | Alterado em 01.06.2022 | 11:56

Tempo de leitura: 5 min(s)

Silvio Antonio de Azevedo, 60, sempre foi um apaixonado pelo Carnaval. Em 1997, época que ocupava o cargo de administrador regional na Subprefeitura da Capela do Socorro, ele participou de uma reunião com o ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta, e conheceu um homem que mudaria a vida dele para sempre.

“Você é da zona sul?”, perguntou Eduardo Basílio, presidente da Escola Rosas de Ouro. “Você precisa montar uma escola de samba por lá. Tem muito batuqueiro e carnavalesco bom naquela região. Venha até a minha escola que eu vou te mostrar como”.

Começava a nascer ali a Estrela do Terceiro Milênio, escola de samba do Grajaú, na zona sul de São Paulo. Aos 24 anos, a agremiação comemorou o título do Grupo 1 e, em 2023, irá desfilar pela primeira vez no Grupo Especial, principal divisão das escolas de samba.

Com o tema “Ô abre alas que elas vão passar”, a escola alcançou a pontuação máxima ao homenagear as mulheres sambistas.

O desfile realizado pela agremiação conquistou nota 40 em todos os quesitos, com nota 10 dos nove jurados. Foram 1284 pessoas desfilando e mais 300 pessoas trabalhando em todo o processo.

Diretor-geral da Estrela do Terceiro Milênio, Silvio está na escola desde a criação @Isabela Alves/Agência Mural

Início do sonho

O caminho para chegar ao Anhembi começou no final dos anos 1990, graças ao apoio de Basílio, que posteriormente se tornou padrinho da escola por ter sido o principal incentivador desde o início.

Na época, Silvio foi à procura de um espaço para realizar o projeto em uma antiga casa de show chamada “Corujão”, localizada na Avenida Atlântica. Ficar naquele local não deu certo, mas a coruja se tornou o mascote por ser também o símbolo da inteligência e sabedoria.

Em 2002, a escola se mudou para o Grajaú e se filiou à UESP (União das Escolas de Samba Paulistanas). No mesmo ano, realizou o primeiro desfile na Avenida Cupecê. “Naquela época, eu fazia de tudo: era o carnavalesco, era quem organizava o evento e tudo que eu podia. Só não cantava porque ficava rouco de tanto gritar”, relembra Silvio.

A Coruja é o mascote do grupo e já foi tema de um dos desfiles @Isabela Alves/Agência Mural

No entanto, com a morte de Basílio no ano seguinte, aos 70 anos, a escola perdeu sua base. “Ele era um visionário e viu que o Grajaú tinha um potencial tremendo”.

“Era muita gente boa que atravessava a cidade para tocar na zona norte, quando podiam fazer o samba aqui”

Silvio Azevedo, diretor-geral da Estrela do Terceiro Milênio

Apesar de já ter promovido o primeiro carnaval de rua, o fundador afirma que sonhava em ir além e participar de um desfile. Ele ia ao Sambódromo do Anhembi, na zona norte, para assistir o espetáculo e pedir por fantasias das alas para fazer a restauração e reutilizar com os membros da Estrela.

Com o passar dos anos, também trouxe especialistas na área para promover uma capacitação mais técnica aos membros da agremiação. “A gente começou a disputar e fomos subindo de grupo. No desfile do Autódromo de Interlagos, em que estávamos no Grupo 2, o Grajaú desceu todo para lá”, lembra.

Silvio se refere ao que considera o primeiro grande desfile da escola, em 2008, quando conquistaram o acesso para o Grupo 1. Com o tema “Feijoada, das sobras ao prato principal”, a escola apresentou as mitologias que cercam um dos pratos mais famosos da culinária brasileira.

Para além dos desfiles, a agremiação também se preocupa com o social e em transformar o território que cerca a escola em um polo cultural.

De um terreno abandonado, criou-se a primeira casa de cultura da região – atual Centro Cultural do Grajaú – com estrutura para teatro e cinema. Também houve a criação de um calçadão cultural e a reforma do campo de futebol. Para a reforma, conseguiram uma emenda parlamentar no valor de R$ 750 mil, proposta pelo vereador Milton Leite (União).

“Existe um sonhador que vai se juntando a outros que acreditam na causa do samba e do carnaval”, diz Murilo Lobo, 56, carnavalesco da escola há cinco anos. “É interessante chegar ao Grupo Especial e ver as pessoas que lutaram por esse pavilhão, porque é algo que pulsa no coração deles, da história deles e da raiz deles.”

Lobo cita que a Estrela do Terceiro Milênio é literalmente enxergada como uma escola pelos integrantes, porque os conhecimentos lá aprendidos também servem para a vida profissional.

É o caso de Mickael Santos, 23, diretor de bateria de repinique (um dos instrumentos dessa ala). Ele chegou à escola aos 7 anos e hoje ganha a vida como musicista. “A molecada de 6 a 8 anos chega por aqui e aprendem a ser ritmistas e percussionistas. Então deixa se ser um hobbie e a gente abraça a carreira artística”, diz.

Desfile homenageou mulheres sambistas @Divulgação

Outro destaque é o grupo de baianas, com 60 mulheres no elenco. Por ser um grupo de idade, muitas vezes são pessoas que se sentem excluídas socialmente.

“A maioria delas são mulheres de origens simples que não tiveram a oportunidade de frequentar tantos eventos culturais, como ir ao teatro”, diz Lobo. “No desfile, elas são assistidas e aplaudidas por milhares de pessoas, pois são as mais esperadas e tem a fantasia mais volumosa. Com tanta energia, a fragilidade da idade desaparece.”

Bastidores do desfile

Ao longo dos anos, a Estrela do Terceiro Milênio trouxe diversos temas nos desfiles. Em 2018, falou sobre o significado da coruja em diversas culturas. Um ano depois, trouxeram os gestos de coragem que mudaram a história do mundo. No último desfile antes da pandemia, o samba enredo mostrou como a Ilha de Parintins se tornou um exemplo de potência mundial por causa do ensino da arte.

Em 2022, a escola buscou homenagear as mulheres carnavalescas e também apontar as dificuldades em ser mulher no Brasil, sendo mãe, sambista e baiana.

“Nós contamos a história de 14 mulheres que foram oprimidas e transgrediram do que se esperava delas do trato doméstico para se tornarem artistas”

Milton Lobo, carnavalesco da Estrela do Terceiro Milênio

Com o samba-enredo que bradava “A Milênio veio mostrar que o lugar da mulher é aonde ela quiser”, a comoção foi grande até entre os integrantes da escola que começaram a olhar para as mulheres com admiração.

A escola criou uma logomarca personalizada nas camisetas para cada uma das homenageadas. Outra forma de prestar um tributo foi abrir mão das cores originais da escola – azul, branco, vermelho e verde – para vestir todos em tons de rosa.

Desfile levou escola ao Grupo Especial do Carnaval de SP @Divulgação

Painel com homenagem às mulheres @Isabela Alves/Agência Mural

Mike começou a bateria aos 7 anos @Isabela Alves/Agência Mural

Murilo Lobo é o carnavalesco da agremiação @Isabela Alves/Agência Mural

Espaço da escola no Grajaú @Isabela Alves/Agência Mural

Com a chegada da pandemia de Covid-19 após o Carnaval de 2020, a escola viveu incertezas. A produção continuou de portão fechado com a equipe pequena e também foram promovidas lives com treinamentos que podiam ser acompanhados pela comunidade.

O carnavalesco afirma que a conquista de chegar ao Grupo Especial é motivo de orgulho, porque foi difícil quebrar diversas barreiras, principalmente entre as pessoas que não acreditavam na excelência do trabalho da escola.

Na zona norte, existe o chamado “polo do samba”, onde há um intercâmbio do samba entre uma escola e outra, como a Mocidade Alegre, Rosas de Ouro e Águia de Ouro. Desde o princípio, Murilo enxergou que a Estrela do Terceiro Milênio poderia se tornar a Escola Beija-Flor, de Nilópolis no Rio de Janeiro, justamente por ser uma escola fora do eixo.

“Claro que ser reconhecido é algo que nos enche de prazer e orgulho. Mas o que mais a gente quer é ser reconhecido aqui, ampliar essa paixão e a participação das pessoas da zona sul”, conclui Murilo, que já projeta o próximo Carnaval. “Queremos levar o nome do Grajaú para o mundo.”

Escola de Samba do Terceiro Milênio

Para participar: A agremiação empresta as fantasias gratuitamente e só pede para que as pessoas participem de um determinado número de ensaios para desfilar

Endereço: R. José Antunes Cerdeira, 71 – Parque América, São Paulo – SP, 04841-070. 

Instagram: instagram.com/terceiro_milenio/

Facebook: https://pt-br.facebook.com/terceiromilenio/

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Isabela Alves

Graduada em jornalismo pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM) e pós graduanda em Mídia, Informação e Cultura pelo Celacc/USP. Homenageada no 1° Prêmio Neusa Maria de Jornalismo. Correspondente do Grajaú desde 2021.

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