‘O livro é resistência’, diz escritor português Valter Hugo Mãe em Perus

Quando criança, Valter Hugo Mãe vivia rodeado de bichos. Em seu quintal cheio de vagalumes, preocupava-se em cobrir as árvores, quando o frio português chegava na cidade de Paços Ferreira, na periferia de Porto, em Portugal. 

Foi das bordas de Portugal para a periferia paulistana que o escritor português posou suas palavras no último sábado (7), na Biblioteca Padre José de Anchieta, em Perus, região noroeste de São Paulo. 

Receba nossa newsletter!

Debaixo de uma volumosa árvore tipuana de  mais de 50 anos e cercado por uma plateia de cerca de 300 pessoas num sol de quase primavera, o escritor falou das inspirações femininas na literatura portuguesa, o papel social da poesia em tempos de crise em todo o mundo e as etapas de seu processo de criação. 

“Eu acho que o livro é resistência”, diz, vestido de camisa preta adornada de flores em protesto ao feriado de 7 de setembro. Para o escritor, ser um narrador nos tempos atuais pode ser diferente, sobretudo se for consciente e não for covarde. 

Crédito: Jéssica Moreira/Agência MuralCerca de 300 pessoas participaram do evento em Perus

“Admiro cada vez mais as pessoas que se posicionam, que usam seus livros para alguma coisa. Nunca tive interesse em fazer passatempo. Meus livros não são palavras cruzadas. Hoje, o que muda para o narrador é isso, a responsabilidade”, enfatiza. 

Essa foi a primeira vez que o autor de ‘Máquinas de produzir espanhois’ e ‘Desumanização’, também ganhador do Prêmio José Saramago, pisou os pés nas quebradas paulistanas. Hugo Mãe também se define como um homem periférico em Portugal, por não estar no grande centro de Lisboa. Afirma que é preciso estar nas bordas, em um ato de descentralização do acesso para aqueles que não têm privilégios geográficos. 

“Eu sou da periferia, eu continuo a viver acima do Porto, onde há muitos criadores, mas não muitos criadores que se evidenciam. Por isso eu devo ser quase o único escritor que vende mais que alguns livros vivendo fora de Lisboa. Não só fora de Lisboa, como fora do Porto e no norte”, diz. 

“Acredito que é preciso qualificar, lembrar das periferias. E a importância de aqui vir é exatamente essa de democratizar o acesso às coisas”

“Fazer com que as pessoas tenham acesso sem ser penalizadas por terem que se deslocar demasiado, por terem que despender muito mais do que despendem as pessoas que são privilegiadas e que podem viver os centros”. 

BALADA LITERÁRIA

O evento foi parte da Balada Literária, que há mais de 14 anos é realizado em todo o Brasil, unindo uma gama de diversidade de escritores, de novatos a premiados. Este ano, o homenageado do evento foi Paulo Freire, o patrono da educação brasileira.  

“Enquanto eles festejam balas e canhões, nós festejamos Literatura e Educação”, afirma o escritor Marcelino Freire,  curador da Balada. 

Crédito: Jéssica Moreira/Agência MuralAo fim do evento, lideranças locais pediram apoio do escritor português, que tirou foto em apoio à causa de reapropriação da Fábrica de Cimento

Freire diz que trazer Valter Hugo a Perus é dar continuidade ao principais objetivos da programação da balada, projeto que dá espaço para escritores dos rincões, periferias e sertões do Brasil desde seu nascimento. 

Quando Marcelino pensou na participação de Valter Hugo Mãe em Perus, ele disse ao escritor que levá-lo para lugares no centro de São Paulo, como a avenida Paulista, era fácil, e explicou a importância social de estar nas periferias. 

Valter prontamente aceitou a proposta, que foi ao encontro também do que já estava sentindo em suas viagens ao Brasil. “É muito significativo pra mim vir a Perus, sair finalmente do centro de São Paulo, onde são lugares que normalmente me convidam. E eu, há muitos anos queria sair do centro da cidade e ver o povo de mais longe, na periferia, onde o Brasil talvez seja mais real”, Valter Hugo.

A Coordenadoria de Bibliotecas, da secretaria municipal de Cultura, indicou o equipamento peruense por conta do envolvimento do espaço com os movimentos culturais da região. “Cheguei a ouvir ‘como você traz Valter e vai pra longe’, então eu disse ‘longe depende da sua perspectiva, porque quando ele estiver na biblioteca padre José de Anchieta, fica muito longe a Paulista”, reforça Marcelino.

“A gente que tem que agradecer da biblioteca ter aberto as portas para nós. Essa biblioteca existe aqui há muito tempo. Muita gente estudou aqui, leu aqui, ganhou consciência de cidadania”, conclui Marcelino. 

“De alguma forma é o reconhecimento de Perus e amplia a visibilidade do equipamento público, já que estamos realizando um trabalho sempre com o território”, aponta a coordenadora da biblioteca, Elizabeth Pedrosa, 56.  

Jéssica Moreira

Jornalista, correspondente de Perus desde 2010.

Perus, São Paulo

Comentários