O que aprendi ao criar a página da Jova Rural

Correspondente da Agência Mural compartilha a experiência de administrar uma rede social do bairro; memes e serviços fazem parte da rotina

Monumentos mundiais e o meme da Jova York — Montagem: Aline Kátia Melo/Agência Mural

Moro há vinte anos no bairro Jova Rural, região da prefeitura regional Jaçanã — Tremembé, na zona norte de São Paulo. No final de 2011, comecei a escrever sobre ele no Blog Mural . Em setembro de 2012, criei a página Jova Rural (https://www.facebook.com/JovaRural) para compartilhar as matérias que produzo sobre a região. Comecei também a postar informações sobre fatos que afetam o seu dia a dia, como por exemplo, as mudanças no transporte público. Depois, passei a criar “memes” com brincadeiras que as pessoas fazem como trocar o nome do bairro de Jova Rural para “Jova York”, em um trocadilho com “Nova York”.

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O resultado é que muitas pessoas gostaram, curtiram, reagiram, marcaram os amigos. Muitos compartilharam a imagem, com frases de orgulho sobre a quebrada. O que me surpreendeu, porque já fiz um relato inverso, de que na minha adolescência, escondia o nome do bairro (http://mural.blogfolha.uol.com.br/2016/11/24/usava-outro-bairro-para-esconder-onde-moro-diz-reporter-da-agencia-mural/).

Posto imagens do cotidiano, como grafites com vacas que retratam a realidade rural das ruas, fotos que tiro no celular, nas minhas andanças. Já registrei momentos inusitados como uma galinha em cima do ponto de ônibus, uma vaca no meio da rua e duas carroças puxadas por cavalos atrás de um ônibus. Cenas que, às vezes, presencio e registro dentro do transporte público, chegando ou saindo do bairro.

É interessante observar a interação dos moradores com a página. Aparecem diversos tipos de solicitações, das mais comuns, como pessoas buscando casas para alugar ou gente pedindo ajuda para procurar pessoas desaparecidas. Pessoas buscando animais domésticos desaparecidos, geralmente cães, machos e com nomes “americanos” como Mike e Bolt, que foram encontrados. E os que permanecem desaparecidos como Billy, Toby e outros.

Em 2018, começaram a pedir ajuda para encontrar pessoas desaparecidas. Teve um caso de uma criança que foi localizada no mesmo dia, mas há o caso de um rapaz, morador da região, que está desaparecido desde o último dia (14) e ainda não foi localizado. Esse tipo de postagem gera muito engajamento, as pessoas entram e escrevem “up” para o comentário gerar mais visualizações. Outros compartilham, na esperança de ajudar a acabar logo com a agonia das famílias que buscam por informações de seus parentes desaparecidos.

Cenas da Jova Rural: galinha no ponto de ônibus, vaca na pista e o trânsito de carroças — Foto: Aline Kátia Melo/Agência Mural

Percebi que os moradores se preocupam com o bairro onde moram e gostam de compartilhar informações de interesse do público da região. As pessoas mandam por mensagem fotos de ocorrências como incêndios nas áreas verdes, árvores caídas em dias de tempestades, imagens de ocorrências no trânsito. Pessoas que perderam celular no ônibus ou que nele encontraram o bilhete único especial de algum passageiro com necessidades especiais. Buscam ajuda para encontrar seus pertences, e/ou, os donos dos objetos encontrados. Gente avisando que foi assaltada nos pontos de ônibus locais por indivíduos de moto, outros avisando que pessoas de bicicleta roubam celulares no ponto final da lotação no bairro de Santana.

Algumas postagens sobre trânsito na região do Jaçanã, viralizaram não só pelos moradores da Jova Rural, mas também de bairros vizinhos, que enfrentam os mesmos problemas de acesso, como o trânsito na Avenida Paulo Lincoln do Valle Pontin, passando pela rotatória do CEU Jaçanã até a ponte estreita que dá acesso a três vias que acessam bairros como Jardim Hebrom, Filhos da Terra, Jova Rural, Vila Nova Galvão…

Postagens mais curtas com fotos e/ou memes costumam ter mais visualizações do que as postagens de links com matérias que fiz, por exemplo, há um pouco mais de resistência com textos maiores, talvez pelo crescente acesso por meio de dispositivos móveis, como celulares.

Grafite da Jova City e memes do grito e evidências em versões adaptadas para Jova Rural — Fotos e montagens: Aline Kátia Melo/Agência Mural

Algumas pessoas buscam antigos moradores, vizinhos, conhecidos na região, da época em que conheciam as ruas por números ao invés de nomes, e tentam reencontrar essas pessoas com ajuda das redes sociais.

Já recebi pedidos dos mais diversos como perguntas sobre documentos de antecedentes criminais, e informações de programas como o “Nota Fiscal Paulista”. Como jornalista, costumo responder com endereço e telefone dos órgãos públicos competentes.

Moradores também oferecem na linha do tempo serviços como cuidadora de crianças e fotos de produtos alimentícios como bolos, doces e salgados, feitos e vendidos em casa.

Mas, nem tudo são flores, às vezes acontecem situações negativas. Uma vez uma pessoa que teve o veículo roubado perguntou se conhecia pontos de desmanche ou ruas onde fossem abandonados carros roubados. No mês de abril de 2017, houve uma chacina em um bar da região que deixou seis homens mortos e três feridos. Os moradores organizaram uma passeata pelas vítimas e familiares e divulgaram na página. A passeata pedindo paz e justiça foi realizada no dia 15 de abril do mesmo ano. Estive na manifestação e foi emocionante ver as pessoas reunidas, fazendo uma oração, de mãos dadas, em uma grande roda. Vieram mães de chacinas de outras regiões, diminuindo a distância geográfica entre Jova Rural e o município de Osasco, na Grande São Paulo; aproximando corações que sofriam as mesmas dores.

Algumas pessoas perguntam da obra atualmente parada da futura Unidade Básica de Saúde UBS Jova Rural. Uma moradora já fez reclamações em emissoras de rádio e televisão, pedindo para a página divulgar, e convocar moradores para darem entrevista. Nesse dia fui pessoalmente até a frente da UBS e conheci essa moradora que tinha contato virtual pela página. Outra moradora que apareceu para dar entrevista sobre a UBS me relatou um problema com esgoto na rua dela, que virou matéria recentemente no 32xSP. (http://32xsp.org.br/2018/02/23/em-terreno-da-cdhu/).

Com tudo isso, a página ultrapassou o número de quatro mil seguidores, atingidos de forma orgânica, ou seja, sem pagar nenhum tipo de anúncio. De acordo com o relatório do Facebook, a maioria dos seguidores são mulheres 61%, 39% de homens. O maior percentual de homens (19%) e mulheres (25%) estão na faixa etária de 18 a 24 anos de idade. O menor percentual está acima dos 65 anos sendo 0,438% das mulheres e 0,268% dos homens. A página tem curtidores não só da cidade de São Paulo, mas também de outras cidades e estados brasileiros, até mesmo de outros países.

Passeata por vítimas da chacina e registro da obra da UBS Jova Rural — Foto: Aline Kátia Melo/Agência Mural

Alguns seguidores conheço virtualmente, outros pessoalmente. Quando é alguém conhecido ou o responsável direto por alguma ação, facilita o processo de checagem, porque posso confiar na veracidade das informações recebidas.

Não tenho uma regularidade com postagens, mas busco postar sempre, quando não tenho conteúdo próprio de matérias ou fotos que eu fiz, vou compartilhando programação cultural dos equipamentos culturais mais próximos como a Fábrica de Cultura do Jaçanã, programação semanal da SPCine no CEU Jaçanã. Outros equipamentos como o Centro de Integração a Cidadania (CIC) Norte, que não possuem página, eu tiro foto do calendário oficial em papel, ou dos cartazes da instituição e faço a publicação.

Nesses cinco anos como administradora de página de bairro, entendi o que a jornalista Eliane Brum chama de “desacontecimentos”. Pessoas ‘comuns’ seguindo a vida, buscando seus bichinhos que se perderam, criando seus próprios negócios para pagar as contas do final do mês, que se solidarizam com o próximo, que aguardam uma nova UBS para diminuir os meses de espera por uma consulta. É uma experiência interessante olhar uma pequena comunidade virtual como reflexo de uma grande sociedade. Para quem tiver o interesse de criar uma página de bairro eu indico que a pessoa seja bastante observadora, caminhe pelas ruas, converse com as pessoas.

Incentive as programações culturais, tem muita coisa boa e grátis acontecendo, as vezes o que falta é divulgação. Busque sim dar informações sérias, mas também procure descontrair um pouco, com brincadeiras, memes, imagens bonitas, por mais problemas que um bairro tenha também tem seus dias bonitos, com flores, pôr-do-sol, grafites, aquela beleza cotidiana que as vezes fica soterrada entre as nossas preocupações.

Por Aline Kátia Melo, correspondente da Jova Rural
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