“O que aprendi com o aposentado criador do museu do Jaçanã”

Sylvio e eu, em um dos nossos encontros no Museu do Jaçanã / Foto: Michael Luongo

Conheci Sylvio Bittencourt em 2012, logo que comecei a ser correspondente do bairro de Jova Rural, na zona norte de São Paulo. Na época, buscava pautas em seu vizinho mais velho e famoso, o bairro do Jaçanã.

Desde então, nesses últimos cinco anos o reencontrei algumas vezes. Fiz algumas matérias sobre a Associação Museu Memórias do Jaçanã, sua criação, mas nunca falei diretamente dele, o criador Sylvio Bittencourt, que faleceu aos 86 anos na última sexta feira (24).

Sylvio dedicou mais de um terço de sua vida ao seu museu, que completará 34 anos em dezembro deste ano. Em maio, também farei 34. Desempregada, às vezes me sinto perdida. Essa recente partida de Sylvio me relembrou que ele criou o museu, aos 52 anos, após sua aposentadoria, mostrando como nunca é tarde para inventar ou seguir um sonho.

Sylvio cresceu no bairro do Bixiga, mas morou mais de quarenta anos no Jaçanã, bairro que aprendeu a amar e, para compartilhar esse sentimento, fundou o museu, um espaço físico, com histórias da região e de seus moradores. Como a da famosa e hoje desativada cinematográfica Maristela (empresa de cinema dos tempos áureos do Jacanã), desconhecida de muitos residentes atuais, em uma época que o bairro era muito diferente da atualidade.

Ao reunir objetos e recortes sobre o Jaçanã, se tornou um historiador autodidata. Para começar, em 1983, registrou o museu em cartório com sede provisória em sua própria residência. Dois anos depois, mudou-se para uma sede alugada na avenida Abílio Pedro Ramos até 1990, quando migra de volta para sua casa.

Nas suas caminhadas pela região, Sylvio encontrou um terreno em um área abandonada, coberta de mato, propriedade da Fazenda do Estado. Fez um abaixo assinado para conseguir uma autorização provisória; e depois oficial.

Em 1993, dez anos após a fundação, o museu foi instalado na rua São Luiz Gonzaga nº 156, onde permanece até hoje, agora, com a frente localizada na rua Benjamin Pereira nº 1021.

Desde 2012, quando conheci Sylvio e o Museu do Jaçanã, presenciei seu esforço em buscar voluntários, em conseguir reformar o espaço e realizar um de seus tantos sonhos: mudar a entrada do museu para rua Benjamin Pereira, em frente à praça João Batista Vasques. Na via, passam ônibus municipais de São Paulo e intermunicipais de Guarulhos, aumentando a visibilidade quando comparada a pacata rua São Luiz Gonzaga.

Em 2013, aos 83 anos, Sylvio lançou o livro “Moro em Jaçanã: 143 anos de história”. A venda do livro ajudou na reforma do espaço em 2014, quando também fiz um texto para mostrar que o espaço estava aceitando doações de material para a realização da obra.

Acompanhei sua apreensão quando após o fim da reforma o museu ainda estava sem um portão na frente. Dizia não conseguir dormir preocupado, com receio que a fachada fosse vandalizada. Pouco tempo depois, o museu recebeu o portão em sua fachada que lembrava a desativada estação de trem Jaçanã, onde passava o “Trem das Onze”, eternizado na voz de Adoniran Barbosa.

Sylvio me relembrou que ele criou o museu, aos 52 anos, após sua aposentadoria, mostrando como nunca é tarde para inventar ou seguir um sonho

A frente do museu recebeu uma placa com um relógio desenhado marcando onze horas. O historiador queria mesmo um relógio com sirene que tocasse às onze horas, também almejava aumentar o espaço com mais um andar, sonhos que não conseguiu realizar.

Levei várias pessoas para conhecer o museu. Sylvio sempre recebia os visitantes com muita alegria. Transitava feliz mostrando vários itens do acervo; contando suas histórias. Cantava uma letra de sua autoria e música de Maurílio Silva escrita em 1983, que dizia: “Se eu pudesse alegrar meu coração e ir de trem pro Jaçanã / É impossível compreenda meu senhor / Agora com o progresso que poderemos ir de metrô / Aumentou uma hora vai até a meia-noite / O trem das onze virou marco na história”. (Veja a música abaixo*)

O historiador enfrentou e derrotou muitos problemas de saúde, mas a partir de outubro de 2016 começou a ter sérias complicações, necessitando de internações, que acabaram lhe afastando fisicamente do museu.

Seu maior legado, para além do arquivo imenso que construiu no Jaçanã, foi ser inspiração. Mostrar a importância de sonhar, de contarmos nós mesmos nossas próprias histórias, nos relembrando o quanto a memória é relevante na construção de nossas lembranças e da comunidade onde vivemos, não importa nossa idade. Seu desejo era que todos os bairros tivessem seus museus e guardassem com carinho suas próprias histórias.

Essa lição me inspirou como jornalista a seguir seu exemplo, com minha ferramenta e minha maneira criei a página do bairro Jova Rural, onde moro há 19 anos. Hoje escrevo sobre o presente da região, e a partir desses registros que o bairro mais jovem criará sua memória e sua história quando tiver um aniversário oficial como o Jaçanã, seu irmão bem mais velho e desenvolvido.

Que nós correspondentes encontremos e mostremos mais Sylvios das nossas periferias…

Por Aline Kátia Melo, correspondente da Jova Rural

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*Vídeo realizado pelo jornalista Rodolfo Lucena (lucenacorredor.blogspot.com)

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