Os guardiões da cultura popular em São Paulo

“Catirina estava grávida e ficou com desejo de comer língua de boi, mas justamente a do animal preferido do patrão. O marido, sem saber o que fazer, cortou a língua do animal, que morreu. Desesperado e com medo do fazendeiro, o homem pediu ajuda aos indígenas para fazer um ritual e ressuscitar o bicho. Assim, surge o Boi de Caboclinho”.

A história vinda de Limoeiro (PE) tem sido contada hoje por Caio César Mateus Ferreira, 23, no distrito Grajaú, zona sul de São Paulo, local onde vive há 16 anos.

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O pernambucano é um dos migrantes que veio para a cidade paulistana e tenta manter viva a cultura popular. Morador do Jardim Gaivotas, bairro que faz parte do Grajaú, Ferreira chegou ao extremo sul com a mãe e as lembranças das festas do Boi de Caboclinho, também conhecido como Bumba Meu Boi ou Boi Bumbá.

O enredo sobre o animal faz parte do Folclore Brasileiro, que foi comemorado dia 22 agosto. Neste período, a Agência Mural foi entender como as narrativas estão sendo mantidas em algumas periferias da capital e da Grande São Paulo.

O TRABALHO DE CAIO

Caio César gosta de pesquisar modas de viola (André Bueno/Divulgação)

Caio César Mateus Ferreira se denomina um contador de histórias e palhaço. Curte viola e cantoria – diz ser influência do pai, que ainda vive em Pernambuco.

O rapaz costuma falar sobre a tradição do boi para crianças e adolescentes e pensa que é um meio de a história não desaparecer nas grandes cidades. Os maiores são mais dispersos, mas o público infantil fica encantado.

“Às vezes só conhecem o nome: ‘Ah, esse que é o Bumba Meu Boi’, mas nunca ouviu a história. Às vezes viu, mas não sabe que tem variação de boi, como é a música”, explica.

Em 2017, ele passou um semestre trabalhando com grupos de pessoas de oito a 15 anos de idade no Grajaú. Conversaram sobre o conto, construíram fantasias, conheceram canções, montaram coreografias.

A atividade despertou até o interesse do pai de um dos meninos. “Ele tinha muitas lembranças dessa brincadeira do boi. Falava: ‘Via bastante isso aí lá no interior da Bahia. Meu pai gostava muito’. Até aprendeu a cantar as músicas com a gente”, relata.

Os festejos referentes ao Boi Bumbá são realizados principalmente no Nordeste e no Norte do Brasil, divididos em três partes: nascimento, morte e ressurreição do animal.

A FESTA DO BOI NO MORRO DO QUEROSENE

A festa mostra a tradição do Maranhão (Fernando Solidade/Divulgação)

Em São Paulo, uma representação do Bumba Meu Boi é realizada no Morro do Querosene, no Butantã, zona oeste. A festa é organizada pelo Grupo Cupuaçu – Centro de Estudos de Danças Populares Brasileiras. Começou com pequenos desfiles pelo bairro, mas foi em 1990 ou 1991 que passou a ser realizada formalmente.

O Cupuaçu foi criado em 1986 por moradores que fizeram oficinas de danças maranhenses com Tião Carvalho, migrante do Maranhão e um dos principais fomentadores da cultura no local.

O percussionista e ritmista Antônio Carlos Lucato, que mora no Querosene desde o início da década de 1990, conta que a festa, dividida em três partes no decorrer do ano, recebe uma média de 5 mil participantes, mas poucos da vizinhança. “Hoje em dia a gente não divulga mais a festa porque vem muita gente. O pessoal da comunidade não participa muito”.

A versão apresentada no Morro do Querosene mostra o nascimento, que costuma ocorrer no fim da quaresma, o batizado em junho e a morte entre o final de setembro e o início de novembro. A divulgação das datas acontece principalmente pelo “boca a boca”, segundo Lucato.

A autônoma Lucilene Moreira, 53, que vive no Morro do Querosene há 27 anos, interpretou o primeiro vaqueiro da encenação na rua, foi uma das primeiras mulheres a tocar pandeirão e, atualmente, é o miolo, personagem que conduz o Boi.

Para ela, Tião é o grande precursor da festa.  “Foi com a vinda dele pra cá que outros maranhenses vieram, começaram a se aproximar”.

De acordo com Lucilene, uma manifestação do Boi na capital é uma maneira de se reconectar com a ancestralidade nordestina. Nascida em São Paulo, mas filha de uma alagoana e de um cearense, ela relata que o resto da população paulistana que vai à festa tem um olhar turístico. “Lá [no Maranhão] a relação é: nós somos e vivemos isso”.

FOLCLORE OU CULTURA POPULAR?

Cortejo de Maracatu no Jardim Ruyce, em Diadema, Grande São Paulo (Divulgação)

Para o contador de histórias Caio César Mateus Ferreira, a palavra que é a junção de folk (povo) e lore (sabedoria) não cabe na atualidade. “A cultura popular está mais viva”.

Lucilene prefere “manifestação popular” por acreditar que algumas ações culturais são continuação da antiguidade e que sobrevivem à tecnologia. “Manifestação popular me soa uma coisa mais viva e pulsante, que está sempre acontecendo, do que folclore”.

Moradora de Diadema, na Grande São Paulo, a cantora e pesquisadora Ana Cacimba, 29, diz que quando falamos folclore as pessoas já relacionam a Saci, Cuca, e outras histórias que o povo conta, mas sem ter propriedade no assunto. “A cultura popular é algo ensinado pelos mestres, pessoas que às vezes não sabem ler, mas são muito boas naquilo que fazem. A palavra folclore diminui o trabalho delas”.

Ana é uma das criadoras da Companhia Arcos e Fitas, que atua com crianças por meio de jogos e música. Além de Cacuriá e Maracatu de Baque Virado, ambas danças do Maranhão e Pernambuco, respectivamente, chamadas de folclóricas.

“No Maracatu de Baque Virado, que vem das senzalas, a gente passa para a criança não só a forma de tocar, mas toda a carga que vem com o toque, a negritude, a história que está por trás”, diz a cantora.

De acordo com o antropólogo Gilmar Rocha, no artigo “Cultura popular: do folclore ao patrimônio”, nem toda cultura popular é folclórica.

A ORALIDADE

Cena da peça de teatro “As histórias do Velho Batista” (Alessa Melo/Divulgação)

O ator e contador de histórias Paulo Henrique Sant’Anna, 33, diz acreditar que o folclore aparece em seu trabalho por meio da oralidade. “Meu ponto de encontro com o folclore está mais na figura do narrador do que pelos mitos do Saci, da Mula sem cabeça”.

Sant’Anna afirma que uma de suas influências é o folclorista Luís da Câmara Cascudo (1898 – 1986), nascido em Natal (RN). Em especial o livro “Contos tradicionais do Brasil”, que reúne dezenas de contos que Cascudo colheu falando direto com o povo. Também diz “beber da fonte” de outros escritores como, por exemplo, o dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875) e os Irmãos Grimm,  que viveram no século 19 na Alemanha.

Entretanto, o ator não tem o hábito de reproduzir as histórias que lê. Ele traz as personagens para a linguagem do caipira e o cenário é o Grajaú, lugar onde cresceu e ainda mora.

Um dos seus trabalhos se chama “As histórias do Velho Batista”, espetáculo teatral que dura o tempo que um bolo de fubá assa e costuma ser apresentado em espaços culturais e de educação. “Pego as histórias de vida e coloco na boca desse velhinho. Aí trago a oralidade, a narrativa de como esse bairro foi crescendo, trago a afetividade com o bolo, o café que é feito durante o espetáculo, o pão de queijo. São elementos dentro de uma perspectiva folclórica, dos costumes da culinária que transfiro para a cozinha”, compartilha.

Dentro da peça do Velho Batista apenas uma história faz parte da literatura. Trata-se da lenda da Mãe d’água, presente no livro de Cascudo. Todavia, o enredo é transferido do mar para a Billings, represa que margeia o Grajaú. “Trago a Mãe d’água como uma habitante da represa. Digo que ela foi encontrada lá”.

Para Sant’Anna, o trabalho é um resgate do tempo em que se ficava em volta da fogueira para ouvir histórias, do lugar de troca, da construção de valores.

O ator também chama a atenção para a falta de pertencimento da nossa identidade brasileira. Ana Cacimba pensa que é importante o trabalho de quem divulga a cultura. “Acho difícil o pessoal procurar sozinho quando não teve a vivência. Por exemplo, o funk ou o forró de teclado, não menosprezando, já vêm mastigado. Aquilo que a mídia fala para consumir, gastar dinheiro para ostentar, acaba chamando muita atenção”.

Adriana Cestari, Diego Brito e Priscila Pacheco são correspondentes do Butantã, Diadema e Grajaú

0 thoughts on “Acontece na Escola: Moradores do Grajaú participam de projetos para a melhoria de escola”

  1. Que lindo Ana Beatriz!
    Nos olhos e na voz dessas crianças é que realmente está a nossa esperança de um país melhor.
    Pessoas inocentes que conseguem enxergar o que muitos ignoram.
    É a vida de verdade,o sorriso estampado,o brilho nos olhos que mal sabem o que ainda vai ter que enfrentar.
    Um super abraço de toda família Centro Comunitário do Embura.
    Felicidades linda.

  2. Um raio x dessas pequenas Almas, que acreditam e sonham em um país onde tudo parece estar pedido, surge através da pureza e simplicidade o nascer da esperança dentro desses pequenos gigantes.
    Ainda vale a pena sonhar!

  3. Uma linda crônica, repleta de alma e total conhecimento do cenário atual de nosso país.
    São palavras assim que nos inispiram à lutar por mais um dia.
    Parabéns!!!

  4. Parabéns. Sou testemunha do seu ganho de saúde física, emocional e psicológica. Pois a bicicleta proporcionou a conscientização dos alimentos que lhe trazem energia e vitalidade e daqueles que intoxicam tirando o vigor pro esporte. Sua conquista de um corpo mais sadio e moldado também é digna de congratulações.

    1. Pessoa incrível, estudamos juntos e realmente sua história de vida é algo que muitas pessoas que tiveram a oportunidade de conviver um pouco com ele aprendeu muito.

  5. Fantástico ! Com todos percalços que a periferia oferece na prática esportiva, eis uma superação e motivação para deixarmos de ser sedentários ! Parabéns Mauro pela iniciativa !

  6. Olá,
    Gostaria de saber se a possibilidade de receber bolsa de estudos para esse curso em específico. Que Muito fazer, mas não possuo recursos no momento para investir.

    Desde já agradeço.

    1. Olá, Sheila! Muito obrigada pelo contato e interesse pelo curso. A atividade é oferecida pela faculdade, logo, vale tentar direto com a Fespsp a possibilidade de conseguir alguma bolsa.

  7. Paulinho, esta sim é a mais linda forma de Dizer Eu Te Amo Para um Pai!
    Você fez uma linda homenagem, para o Tio Paulo, que é Paizão de toda Família.
    Deus abençoe a todos os Filhos.

  8. Zorade, ai sim meu grande sobrinho, que homenagem de arrepiar.! Digo nunca vista, (é claro)pois cada um é um…Quanta sabedoria vestida de aparente ignorancia! O jeito de ser do meu irmao meio estranho, superou os grandes modos finos de criar seus filhos…Quanta riqueza de carater , de valentia também,ele apresentou a voce e a essa exelente Mae que te trouxe ao mundo…Familia pequena nas de grande peso..kkkk em todos os sentidos…No seu relato voce se esqueceu de falar sibre a bondade do coraçao dele…Tem umas histórias de caridade dele que admiro!…Parabéns pela homenagem ! Que Deus lhe proteja , que cada vez mais sua intelugencia seja ativada….abraços

  9. Olá boa tarde,
    Gostaria de parabenizar pela iniciativa e tbm Têmos que girar essa informação e cobrar de forma correta e pacífica dos responsável para tal , tendo em vista que somos moradores da região Têmos essas e outras dificuldades sendo que todos nós vamos receber visitas Nos próximos dias de político ou de seus prestadores de serviços prometendo o que não se cumpre ,uma vez que se não formos no dia votar somos obrigados a pagar multa e tenho certeza que todos nos não deixamos de pagar e quando se trata de olhar um pouco pra lado mínimo que é ,transporte, segurança, iluminação, etc.. Nos não temos respaldo ,então diariamente ouvimos relatos e acontecimentos que cada dia dificulta mais a vivência no bairro, só lembrando que mesmo sendo uma APA todos aqui são eleitores que seguem a risca com suas obrigações e o que queremos é o mínimo se iníciando pelo Respeito aos moradored e direito de ir e vir que já não temos mais.
    Att:
    Gilmar Rodrigues

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