Panelaço toma as ruas do Jardim Filhos da Terra contra furtos em instituições de ensino

Pais, educandos e moradores protestaram contra furtos em associação educacional no Jardim Filhos da Terra — Foto: Aline Kátia Melo/Agência Mural

“Se a roubalheira não parar / olê olê olá vou protestar”
“Ô motorista, ô cobrador /diz aí se a violência acabou”
“Vem para a rua vem / ficar em casa não ajuda a ninguém”

Os versos eram cantados por várias vozes, junto com o som de colheres batendo em tampas e pratos de alumínio, acompanhados de gritos e palavras de ordem. Os carros e ônibus que passavam buzinavam em apoio e todos gritavam.

A agitação lembrava as manifestações que ficaram conhecidas como “panelaços”, geralmente feitas em grandes avenidas e em varandas de apartamentos em bairros nobres da cidade, só que não. Não desta vez.

O endereço escolhido para a passeata foram as ruas estreitas do Jardim Filhos da Terra, periferia na zona norte de São Paulo, bairro onde está localizada a Associação Mutirão do Pobre, que no último dia 29 de setembro completou 55 anos de atuação no bairro.

O local oferece serviços diversos em parceria com a Prefeitura Municipal de São Paulo, como CEI (Centro de Educação Infantil, atende crianças de 2 a 4 anos), CCA (Centro de Convivência de Crianças e Adolescentes, voltado para crianças de 6 a 14 anos) e o CJ (Centro da Juventude, que atende crianças de 15 a 17 anos e 11 meses).

O motivo do protesto foram os recentes furtos sofridos no espaço nos últimos finais de semana do mês de outubro. Foram levados computador, televisão e até alimentos que seriam servidos nas refeições das crianças e adolescentes. A manifestação teve a participação dos educandos, acompanhados de educadores e alguns pais que acompanharam o percurso.

Moradores querem conscientizar a comunidade sobre importância de cuidar dos equipamentos locais — Fotos: Aline Kátia Melo/Agência Mural

Cássia*, dona de casa 38 anos, acompanhou o trajeto com uma filha de sete meses no colo e é mãe de outras duas filhas de 6 e 8 anos que frequentam o espaço. “Estou aqui porque a população tem que ajudar, ontem o serviço foi interrompido para conversar com os pais sobre o que aconteceu no final de semana. Eu estou desempregada agora, se o serviço precisasse parar eu tenho como ficar com minhas filhas em casa, mas penso nas outras mães que trabalham e não tem como ficar com as crianças”, diz. A mãe conta ainda que defecaram na horta da associação. “Foi um desrespeito. É uma horta tão bonita”.

Alguns familiares dos educandos apoiaram e participaram da manifestação, sem esquecer dos pais que não puderam participar. “Aqui também tem que ter protesto, faltam muitos pais que estão trabalhando, quem está em casa tem que vir dar uma força. Tenho filho de 15 anos no CJ e netos de 5 e 10 anos no CCA. A gente tem que apoiar, as pessoas tem que se juntar e acabar com essa roubalheira”, comenta Fabiana*, dona de casa, 57.

Os educandos também acham importante despertar a atenção da vizinhança para o que acontece no bairro e criar um senso de cuidado pelos equipamentos locais. “Essa associação é para a comunidade, a comunidade não deveria destruir o que é feito para ela. A gente foi para a rua para alertar, a gente quer o bem e tem que mostrar para a comunidade ficar alerta”, explica a educanda Ana Clara*, 12.

O senso de comunidade está presente na fala dos moradores. “Eu acho que a comunidade tem que se impor. O local é de todos nós. Todos podem ajudar. A maioria que mora aqui já usou o CCA, a comunidade tem que cuidar do que é nosso. Há cinco anos meus netos de 10 , 2 e 12 anos ficam no CCA e eu fico despreocupada”, explica Rita*, dona de casa, 55.

“Somos uma instituição que não gera lucro. O que recebemos da Prefeitura serve para pagar impostos, contas, funcionários. Nós temos que correr atrás de parceiros para ajudar a cobrir as perdas materiais geradas por esses furtos, pois material permanente como computadores e até mesmo as portas que devem ser trocadas são materiais permanentes e não são cobertos pela prefeitura”, finaliza Roberta Melo, 32, gerente.

*nomes fictícios para preservar a identidade das pessoas que temem represálias

Aline Kátia Melo é correspondente da Jova Rural
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