Perus 84 anos: trens, cimento e a construção do Brasil

A filósofa Jandira Ribeiro, 70, ficou surpresa ao chegar em Perus, na zona noroeste de São Paulo, em 1969. “Aqui tudo se apresentava da cor cinza. Não se via o verde das folhas, os telhados das casas tinham uma crosta cinzenta, as roupas no varal pareciam sujas”, relembra.

A aparência do bairro era causada pela fábrica de cimento, empresa que marcou a história do distrito que completa 84 anos nesta sexta-feira (21), considerado por moradores da época como um dos pontos que ajudou na construção do país. 

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“Perus construiu todo o Brasil. Era muito cimento. Durante toda minha infância, as casas eram cobertas por pó, uma crosta cinza, decorrente da produção”, afirma a bancária aposentada Carmen Antônio dos Santos, 63. Ela é filha e sobrinha de ex-operários da fábrica.

A participação do bairro na construção do Brasil pode ser contestada pelo período em que passava o país. Ex-morador do bairro e doutor em história social, Elcio Siqueira, 55,  é autor da tese “Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus: contribuição para uma história da indústria pioneira do ramo no Brasil (1926-1987)”. 

À esquerda, Viaduto Ulisses Guimarães e à direita Estação de Perus (CPTM)

“Naquela época, a tendência do ramo cimenteiro era trabalhar em caráter regionalizado, ou seja, as fábricas existentes atendiam uma região específica”, diz.

No entanto, Siqueira aponta que, no começo de 1930, Perus chegou a produzir 80% do cimento consumido no Brasil. “A venda para outras regiões sempre foi uma questão de mercado, de custo. Mas a tendência natural era que o cimento produzido em Perus se concentrasse em São Paulo”.

Ele diz, por outro lado, que não há dúvidas sobre o uso do material entre 1956 e 1960, durante a construção da capital do Brasil. “Para construí-la não teve jeito, foi preciso comprar cimento de onde tinha – de diferentes regiões do país – e pagar caro para que chegasse a ela. Então, a informação de que muito cimento de Perus foi para Brasília é segura, embora eu não tenha números exatos”.

COMEÇO ENTRE TRILHOS

A história de Perus é marcada pelos trilhos. Até 1934, o bairro era um subdistrito de Nossa Senhora do Ó. Antes, em 1867, foi inaugurada a ferrovia inglesa São Paulo Railway Company que corta a região. Em 1914, foi construída a estrada de ferro Perus-Pirapora. Doze anos depois, seria instalada a Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus.

A Ferrovia São Paulo Railway foi a primeira do estado. Com cinco estações, era responsável pelo transporte do café, ligando Santos à Jundiaí. A Estrada de Ferro Perus-Pirapora prometia facilitar o transporte de romeiros até Pirapora do Bom Jesus, na Grande São Paulo, mas foi desviada para Cajamar e usada como uma ferrovia industrial, para transportar o calcário da fábrica de cimento.

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Em 1947, a Railway foi nacionalizada e a estrada de Ferro ficou conhecida como Santos-Jundiaí (EFSJ). Posteriormente com a ferrovia, veio a Estação de Perus (CPTM) como opção de transporte público.

Ruínas da Fábrica de Cimento de Perus; grupos tentam usar o local como espaço cultural (Ira Romão/Agência Mural)

POLUIÇÃO

Pioneira do setor cimenteiro no Brasil, a Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus, por volta de 1930, foi responsável pela produção de um volume expressivo do cimento consumido no país e na cidade de São Paulo. Também foi importante em movimentar economicamente a região. Ao mesmo tempo, trouxe problemas relacionados a poluição causada pelo pó. A empresa fechou em 1986.

Jandira conta que houve um protesto durante uma Campanha de Fraternidade da Igreja Católica, o tema foi ‘Preserve o que é de todos’. “Fizemos uma caminhada com cartazes contendo símbolos e dados da saúde pública indicando o que o pó do cimento causava em nossas vidas”.

A reivindicação pediu que filtros fossem colocados nos fornos da fábrica. “Mas não fomos atendidos de imediato. Só depois de muitas lutas que a fábrica foi fechada”.

Até hoje existem materiais e equipamentos nas instalações abandonadas da Portland Perus. Atualmente, o Movimento pela Reapropriação da Fábrica de Cimento busca transformar a fábrica em um espaço cultural.

Região tem 164 mil habitantes (Ira Romão/Agência Mural)

A situação da fábrica também levou a criação do Parque Anhanguera, com 9,5 milhões de m² de Mata Atlântica, criado em 1979.

Na época, o governo federal confiscou o antigo Sitio Santa Fé acatando uma proposta do Sindicato dos trabalhadores do cimento que queria implantar ali um parque ecológico. “A conquista do Parque Anhanguera foi uma benção, uma graça para todos nós moradores. Isso porque para quem conviveu tantos anos com tanto pó, a chegada de uma área verde foi um alívio”, compartilha Carmen.

Ira Romão é correspondente de Perus
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