Poeta, professor e escritor: Vandei Oliveira faz críticas sociais com poesias em Suzano

Cearense de nascimento e paulistano de coração, Vandei utiliza a arte para protestar: ‘A poesia para mim é como uma arma. Por meio dela eu me expresso, grito e questiono’

A fala mansa e o sotaque quase imperceptível compõem a identidade do poeta José Vandei Silva de Oliveira, 42. Nascido no Ceará e radicado nas periferias de São Paulo, ele encontrou na vivência urbana inspirações para criar poesias de resistência, como ele mesmo define. “Costumo dizer que tudo o que eu escrevo é a soma da minha raiz nordestina com a realidade que vivo nas periferias”, revela.

Mais conhecido como Vandei, ele é formado em filosofia pela PUC – SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e atua como professor na rede estadual de ensino. Atualmente, o poeta mora na Vila Figueira, bairro de Suzano, Grande São Paulo, e divide a rotina em dois momentos: coordenar a escola estadual Fernão Dias, localizada em Pinheiros, zona oeste da capital, e criar poesias.

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Na função de educador o desafio dele é implementar um projeto de escola democrática. “O aluno precisa ter espaço de fala. Não é apenas o professor que detém o poder de conhecimento dentro de uma escola. Estamos construindo um ambiente onde todos possam aprender”, explica.

Como poeta, ele utiliza os versos para se expressar e questionar os estigmas sociais. Defensor de causas relacionadas aos direitos humanos, Vandei contrapõe os discursos anti-humanistas com a arte. “A poesia para mim é como uma arma. Por meio dela eu me expresso, grito e questiono”, afirma.

Poesia publicada na página @poetaseuze

Além de participar de saraus, Vandei espalha a poesia utilizando o instagram. Ele conta que, mesmo em um formato mais curto, os versos mantêm a intensidade e a relevância.

Autor do livro “Falo”, lançado em 2016, Vandei retrata o cotidiano, a própria sexualidade e o falocentrismo da sociedade atual. O livro independente está concorrendo ao Prêmio Suburbano Convicto entre trinta obras de literatura periférica.

Conhecido artisticamente como Seu Zé, o nome é uma reafirmação daquilo que ele negou no passado: a origem nordestina. “Antes eu não gostava do meu nome pela simplicidade. Hoje tenho orgulho das minhas raízes. O Zé é um resgate de tudo o que eu deixei para trás”, afirma.

Filho de um repentista e de uma dona de casa, Vandei teve uma infância simples, porém regada de referências artísticas. Nasceu no distrito de Iborepi, Ceará, e desde criança é apaixonado por Luiz Gonzaga.

“O primeiro livro que eu li foi um dicionário que ganhei da minha professora Elizabete. Quando não tinha nada para ler, eu ficava procurando o significado das palavras”, relembra emocionado.

Crédito: Renan Omura / Agência MuralLivro de poesia ‘Falo’ publicado por Vandei em 2016

Após perder o pai em decorrência de um derrame, Vandei aos 13 anos, mudou-se com a mãe e a irmã para Ermelino Matarazzo, zona leste de São Paulo, e teve que dividir a casa com sete familiares.

Na escola, precisou se adaptar ao novo ambiente. Vandei quase repetiu por falta, pois não respondia a chamada com vergonha do sotaque. Também teve que lidar com o preconceito por preferir brincar com meninas. Porém, posteriormente conseguiu se enturmar aproveitando o próprio sotaque, pois as pessoas se divertiam com a forma que ele falava.

Aos 16 anos, Vandei começou a trabalhar como office boy em um escritório no centro de São Paulo. “Eu cruzava a cidade todos os dias. Nessa trajetória que eu percorria da margem para o centro, construí o meu repertório artístico”, explica.

Concluindo o ensino médio, Vandei prestou vestibular para jornalismo, e como segunda opção escolheu o curso de filosofia. Na sétima chamada, foi contemplado com uma bolsa filantrópica da PUC-SP. Na graduação, assumiu a sexualidade, fato que poucas pessoas sabiam.

Durante a universidade, entre diversos empregos, Vandei começou a atuar como educador no projeto Jovens Urbanos. O trabalho era desenvolvido pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (CENPEC) e tinha como objetivo ampliar o repertório dos jovens da periferia.

A poesia entrou na vida de Vandei em 2008. Junto com um grupo de amigos que estavam se formando, ele decidiu promover saraus e encontros de leitura. O coletivo fazia parte da ONG Instituto Paulista de Juventude, localizada na avenida Celso Garcia, zona oeste de São Paulo.

Após os encontros se tornarem frequentes, o projeto cresceu e se tornou o programa Tenda Literária. O trabalho era fomentado pelo edital de incentivo cultural “Vai” da Prefeitura de São Paulo e transformava espaços públicos em locais de leitura.

Crédito: Renan Omura / Agência MuralVandei mora no estado de São Paulo desde 1990

“Quando comecei a estudar a poesia periférica, descobri que tinha diversas pessoas em São Paulo participando de saraus e escrevendo livros. Então resolvi participar também. Nas apresentações eu sempre gostava de escrever poesias inéditas e foi assim que comecei a produzir”, conta. Pouco tempo depois Vandei passou no concurso público e começou a atuar como docente em Suzano.

A professora da rede pública Camila Freitas, 39, é amiga de Vandei desde 2003 e autora do posfácio do livro “Falo” escrito pelo poeta. Ela ressalta a dedicação do professor. “Eu o descrevo como um poeta de olhos profundos. A escrita dele sempre alcança o profundo dos sentimentos e das questões sociais. Como educador é alguém competente e sensível”, conta.

Vandei era coordenador da escola estadual Geraldo Justiniano de R. Silva em Suzano, mas recentemente decidiu atuar na escola estadual Fernão Dias, em Pinheiros. O desafio é o mesmo da gestão anterior: implementar um projeto de escola democrática, que ofereça espaço de fala para os alunos.

O educador ressalta que a maior dificuldade é modificar o modelo de ensino militarista, em que apenas a autoridade tem o poder de fala.

Questionado sobre o cenário atual do país, Vandei Oliveira ressalta: “Estamos vivendo um momento delicado. Percebo que muito do que eu construí em prol dos direitos humanos está se afundando. Precisamos dar um passo para trás e questionarmos, como podemos inverter esse quadro”, conclui.


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Renan Omura

Jornalista, correspondente de Suzano desde 2019. É autor do livro-reportagem Caputera: chacinas em Mogi das Cruzes e finalista do 12° Prêmio Santander Jovem Jornalista. Apaixonado pela escrita, acredita que a comunicação é uma ferramenta para diminuir as lacunas sociais.

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