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Por que as periferias são as mais afetadas pela crise da falta de água em SP

Na semana da conferência do clima, conversamos com especialista sobre como os impactos na floresta amazônica prejudicam o dia a dia em São Paulo

Notícia

Publicado em 04.11.2021 | 10:12 | Alterado em 23.11.2021

Tempo de leitura: 6 minutos

No Jardim São Luís, na periferia da zona sul de São Paulo, a dona de casa Maria Gomes, 62, convive desde 2014 com falta de água na parte da noite. Entre 18h e 5h, segundo ela, o abastecimento é cortado.

“Tem vezes que cortam de dia mesmo, por volta do 12h, mas volta um tempo depois. No fim de semana costuma ter água”, afirma Maria, que teme o agravamento da situação nos próximos meses.

Os reservatórios de água que abastecem o estado de São Paulo estão novamente em estado crítico e lembra justamente a crise vivida há sete anos.

A escassez de chuvas e a consequente falta de água na casa de moradores das periferias é talvez o maior exemplo de como as mudanças climáticas causadas pelo desmatamento afetam o dia a dia na capital.

Apesar de todos sofrerem com o aquecimento global, os efeitos são ainda mais severos com a parte da população que sempre esteve na base da pirâmide, vivendo em regiões com menos renda e com mais moradores em situação de pobreza.

Por que as pessoas nas periferias são mais prejudicadas, se elas são quem menos contribuem para o problema?”, questiona o mestre em ciências ambientais e energia Marcelo Laterman Lima, membro da Campanha de Clima e Energia do Greenpeace.

“É o caso da atual crise hídrica, com o aumento no preço das contas de luz e de água e os cortes no abastecimento hídrico, que são sentidos primeiro nas periferias”, ressalta, mencionando o agravante de uma crise sanitária com a pandemia de Covid-19 e o aumento no preço dos alimentos.

Ele afirma que o racionamento de água sempre começa por essas regiões, sendo que há outros consumos pouco visados. “É importante olhar para os grandes consumidores, os da indústria e da agricultura convencional, antes de fazer a população pagar a conta”, afirma.

QUEIMADAS E CHUVAS

Marcelo aponta possíveis causas para essa longa falta de chuvas. O primeiro deles seria o fenômeno La Niña, que interfere nas dinâmicas climáticas e pode agravar eventos extremos, principalmente com chuvas mais intensas na região norte e secas prolongadas no nordeste do país.

Ele também cita os “rios voadores”, o papel exercido pela floresta amazônica como uma espécie de bomba que puxa para o continente a umidade evaporada do Oceano Atlântico.

A região forma massas de ar carregadas com esse vapor. As nuvens são barradas pelos paredões das cordilheiras dos Andes e, por conta disso, seguem rumo ao centro-oeste, sudeste e sul do país e países vizinhos.

Esse sistema é afetado pelas queimadas. “A principal responsável pelos rios voadores são as árvores, pois é a umidade liberada por elas na atmosfera que é ‘bombeada’ para outras regiões”, explica.

Segundo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) o índice de desmatamento da floresta amazônica no ano de 2021, foi 8,2% maior do que o registrado no mesmo período no ano passado. Ao menos 11 milhões de km² da floresta foram destruídos.

BANHO DIFÍCIL

Moradores das periferias falaram com a Agência Mural e disseram que, apesar de a Sabesp falar em seus comunicados sobre economia e nunca sobre racionamento, há sim um racionamento acontecendo nos bairros.

O analista de suporte de TI, Henrique Matias de Sousa, morador do distrito de Itaquera, na zona leste, conta que a situação começou a mudar recentemente. “Faz uns três meses que temos água na parte da manhã e à noite, por volta das 20h, torneiras secas”, apontou.

Ele tem usado outras alternativas para lidar com a falta de água. Henrique diz que a família é econômica, tomam banhos rápidos, aproveitam a água da máquina de lavar para limpar o quintal e estocam água da chuva.

Moradora da Favela do Pullman, na zona sul, buscando água @Léu Britto/Agência Mural

No caso de Maria Aparecida, do Jardim São Luís, a família se organiza para usar a água da rua nos horários disponíveis para lavar a roupa, regar as plantas e dentro de casa usam caixa d’água.

Outros moradores citaram que até tomar banho na própria empresa tem sido o caminho, por conta da escassez no fim de semana.

Mesmo com os cortes de água, Maria afirma que as contas estão com valores mais altos e os relógios com problemas. “Houve uma vez em que o relógio estava rodando sozinho e acionamos a Sabesp Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) para verificar o motivo, não encontraram nada de errado”, afirma.

Nesta semana, moradores das periferias levaram essas questões para a COP26 (26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas).

STATUS DA CRISE

Em maio deste ano, o Governo Federal emitiu um alerta de emergência hídrica, o qual duraria até meados de outubro, para as regiões sudeste e centro-oeste por ser uma época de seca. São Paulo, por exemplo, vive a pior seca dos últimos 91 anos.

Na crise que São Paulo viveu em 2014, em meados de maio o volume do Sistema Cantareira, que abastece por dia cerca de 7,5 milhões de pessoas, atingiu 3,6% da capacidade. Nesse momento a Sabesp passou a operar bombeando o volume morto, cerca de 480 milhões de litros de água embaixo da terra que nunca tinham sido usados para atender a população.

Além disso, a saída naquele momento da crise foi depender da transferência de outras bacias hidrográficas para atender a demanda de São Paulo, como as que estão entre os rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí.

Marcelo enxerga com preocupação optar por alternativas como essas e para essa nova crise que estamos a ponto de enfrentar.

O Sistema Cantareira está com 28,5% do seu volume operacional, segundo o Portal Mananciais da Sabesp, o que aumenta a necessidade de uso racional dos recursos, evitando a extração predatória e concentrada em que poucos se beneficiam em detrimento da maioria.

“É fundamental que se proteja os mananciais, as matas ciliares e se invista, por exemplo, em práticas de produção agroecológicas que, por usarem espécies mais adaptadas e preservar áreas de vegetação, ajudam na captação e contenção da água no território”, explica.

Cano com água vazando em comunidade de São Paulo @Léu Britto/Agência Mural

SABESP

A Agência Mural entrou em contato com a Sabesp para saber sobre esses casos de cortes nas tubulações apenas em regiões periféricas.

“A Sabesp realiza de forma rotineira desde a década de 90 a gestão de pressão noturna. Quando há menos consumo, reduz-se a pressão nas redes a fim de evitar perdas por vazamentos e rompimentos; quando o uso é retomado, a pressão é reajustada”, diz a empresa.

A Companhia informou também que os horários da gestão da pressão são públicos e sempre estiveram disponíveis no site da Sabesp e pela Central de Atendimento. A atual operação da gestão da pressão noturna ocorre das 21h às 5h, exceto em setores de abastecimento onde não há viabilidade técnica desta operação.

A Agência Mural também questionou a respeito do impacto das mudanças climáticas, o nível de desmatamento e queimadas de biomas, e se há outros métodos para conseguir água, além da transferência de bacias.

A empresa afirmou apenas que o Sistema Integrado Metropolitano, composto por sete mananciais e a interligação das bacias hidrográficas, tem dado certo desde a crise de 2014.

Raquel Porto

Jornalista, pós-graduanda em Gestão Ambiental. Militante feminista engajada nas pautas de direitos humanos, meio ambiente, educação e cultura. Ama carnaval, cinema, música, séries, novelas, livros e HQs. Correspondente da Cidade Líder desde 2018.

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