Por que fazemos jornalismo sobre as periferias

Eu acredito que o jornalismo está para a democracia assim como as histórias, contadas, estão para a formação de uma sociedade. Um não vive sem o outro. É mais que simbiose, é pura dependência.

As histórias que contamos de nós mesmos, do que fomos, do que somos, do que seremos (ou queremos ser) é a maneira que encontramos para nos fazer existir como indivíduo e como coletivo. Como indivíduo é como explico a mim mesmo e aos outros a minha identidade, minha relação com o espaço e o tempo, com a realidade e os sonhos. Como sociedade, é como me conecto com outros que vivem parcial ou integralmente essa mesma história.

Receba nossa newsletter!

Por isso a narrativa dessa história, quem conta, quem participa, o que faz, como faz, é tão importante. Por isso cuidar e pensar sobre isso é fundamental.

Na ponte para o jornalismo & democracia, desde que o primeiro jornal foi “inventado” (ou publicado), continuamos podendo fazer a análise análoga.

Pense numa cidade do tamanho de São Paulo. 96 distritos na cidade, 38 cidades adicionais fazendo a Grande São Paulo.

No total, cerca de 21 milhões de pessoas que moram, trabalham, alimentam-se, divertem-se, deslocam-se diariamente e compartilham a mesma geografia. Na “idade mídia” que vivemos, onde quase toda a comunicação é “mediada” e onde o conhecimento é matéria mais cara na hora de tomar decisões e poder viver melhor, o jornalismo tornou-se moeda corrente.

“Precisamos reintegrar o olhar sobre a cidade”, (Magno Borges/Agência Mural)

E para mover-se, estas mulheres e estes homens, habitantes da megacidade, precisam mais do que nunca de informação. E para conviverem, para não se acharem diferente do outro, para enxergarem o bem comum, enfim, para que vivam em uma democracia.

Apoie o jornalismo das periferias

Na última década, principalmente, os recursos reduzidos dos meios de comunicação, a velocidade de publicação exigida pela revolução tecnológica e a crescente complexidade do contexto urbano fizeram com que o noticiário na capital paulista (que aqui é apenas um exemplo ao lado de tantos outros!), a maior cidade da América do Sul, se concentrasse cada vez mais no “fácil, rápido e simples”.

Ou seja, no que acontece nas proximidades das redações dos jornais, revistas e televisões, em mundos muito próximos e conhecidos de seus jornalistas, que também vivem nas imediações –o “centro”, onde fica concentrado o poder econômico e político das grandes áreas urbanas.

As periferias —porque está nas margens, nas bordas, “distante” geograficamente— ficaram de fora da cobertura de boa qualidade ou foram mal-representadas por relatos de atos violentos, pelas estatísticas de pobreza e em uma ou outra atração cultural. Inviabilizou-se, simplificou-se, ocultou-se a realidade de mais de 80% da população para a própria população.

Convivemos então, placidamente, com a “simples” violência da narrativa construída por poucos para muito poucos. A violência da exclusão pela ignorância (voluntária ou involuntária) de muitas outras histórias.

É contra isso que trabalha a Agência Mural de Jornalismo das Periferias, desde em seu formato inicial de blog, iniciado em 2010. Um dos eixos que norteiam nosso trabalho cotidiano é que não acreditamos que fazemos um jornalismo de gueto. Não há a bandeira de escrever “como periferia” —nós recusamos a geografia da exclusão. Não há o discurso “de nós para nós”.

Nós somos todos nós. As periferias, no plural, porque são diversas, só são periferias porque foram abandonadas pelo Estado. Senão, apenas para voltar ao exemplo da cidade de São Paulo, Campo Limpo seria uma Vila Mariana. Jardim Damasceno, Santana. Perus, Vila Madalena.

Ou seja, produzimos notícias —narrativas— sobre uma determinada região geográfica, como o faz um correspondente de Nova York. Ou Londres. Ou Ferraz de Vasconcelos. Ou Paraisópolis. Que diferença faz? O correspondente da Agência Mural é local. É um “muralista”.

Aliás, não é à toa que aqui podemos fazer um breve intervalo de reflexão e voltar ao movimento muralista de arte fundado por Riveras e outros: a arte ao alcance de todos (ou da maioria), a arte incluindo todos os temas (ou não excluindo mais a maioria). Todos eram muralistas. Todos são muralistas, de novo.

Nosso nome me faz, com alegria pelo acaso, relembrar o manifesto do movimento mexicano que invocou o direito à arte no início do século 20.

Três princípios ali têm a ver com o Mural de hoje, e eu adapto, livremente, do fazer artístico para a arte do jornalismo: incluir as vozes não ouvidas e dividir com eles o fruto do nosso trabalho; acreditar mais na colaboração do que nos talentos individuais para promover a criação e a criatividade; e que informar-se é tão importante quanto participar da produção da informação.

Por isso, não há como negar, há, sim, um engajamento inevitável, porque é preciso desconstruir os pré-conceitos vigentes na cobertura dessas áreas “geográficas” excludentes —a geografia que segrega classe social, “raças”, gêneros.

O OLHAR PARA A CIDADE

A cobertura do Mural produz notícias que vão infiltrar-se na narrativa dominante para negar o estereótipo solidificado ao longo de anos: de que para as periferias só sobram dois tipos de histórias, o da violência, ou o da “carência”. Negamos a versão exótica da narrativa ou, como digo, o zoológico da pobreza. Ser morador das periferias não é uma qualidade das pessoas, é um estado de residência.

Os muralistas estão preocupados em cobrir a realidade de suas regiões. Aonde outros jornalistas e veículos não chegam. Não sabem chegar. Não querem chegar.

E se esses locais são menos atendidos por infraestrutura e têm menos oportunidades de emprego, os moradores têm o direito de enxergar seu contexto a partir de um processo de transformação, não como uma fatalidade imutável. Reengajar o leitor para que a informação seja útil e para que, ao mesmo tempo, a audiência participe de sua produção e circulação.

Nossas histórias, portanto, tratam sim dos problemas, mas também das soluções. As reportagens sobre a pujança cultural das periferias vêm menos prontas para o consumo fácil do olhar “de fora” e, com suas complexidades, impelem a audiência a se conectar. Consumir a notícia sobre o sarau, o restaurante “popular”, o show do rapper é importante, mas os mundos continuam separados. Por isso é importante quem escreve, quem é o repórter, que inclui todas as nuances da realidade na notícia. Para conectar lados e acabar com a separação entre nós e eles.

Mas a missão do Mural vai além. Não estamos satisfeitos em apenas contar as histórias. Queremos que elas circulem. Queremos que todos leiam. Se fazemos parte da mesma Grande São Paulo, quem somos nós, se não todos nós? Precisamos reintegrar o olhar sobre a cidade.

SOBREVIVÊNCIA DO JORNALISMO

Acreditamos que as pessoas que moram nas periferias da região metropolitana devem ter oportunidade de se enxergar como parte do todo. Com o trabalho da agência, elas podem ter acesso a outras visões sobre onde residem. Morar nas periferias começa a ser normalizado como uma posição geográfica –com todos os seus problemas–, mas não mais como um destino.

As reportagens dos muralistas reforçam que a saída não é nem apenas valorizar as qualidades das periferias nem fugir delas. A verdadeira solução está em transformá-las, transformar as periferias em centro –de atenção, de foco de desenvolvimento, em novos centros da cidade.

Assim, fazemos outras ações de jornalismo que têm a ver com a sua distribuição, ou seja, nossa audiência, os cidadãos dessa mesma grande área metropolitana. Na era digital, nós optamos por não negligenciar o “ao vivo”, quando ocupamos um espaço em um evento cultural em uma periferia para levar até os moradores as nossas reportagens e promover o contato direto com os próprios correspondentes locais.

Se um veículo não é relevante para sua audiência, ele vai morrer. Em tempos de crise na indústria do jornalismo, acreditamos que engajar o leitor não é apenas (como se fosse pouco) uma questão de acreditar que sustentar uma imprensa livre e ativa é condição primordial para contribuir no fortalecimento da democracia. Hoje é questão de sobrevivência.

Izabela Moi é jornalista, cofundadora e diretora executiva da Agência Mural de Jornalismo das Periferias

No Brasil, 30 milhões de pessoas vivem em ‘quase desertos’ de notícias

Izabela Moi

Jornalista, codiretora da Agência Mural. Acredita que o direito à informação e comunicação é essencial para fomentar a democracia e uma sociedade menos desigual. Tem interesse em projetos que incluam ampliação da diversidade de vozes na mídia, comunicações para o desenvolvimento, educação para a mídia e alfabetização midiática.

Vila Madalena, São Paulo