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Projeto leva acesso à profilaxia para jovens em Cidade Tiradentes

O uso do medicamento diariamente pode evitar a incidência do vírus do HIV. Estudo instalado em ocupação conta com ‘robô’ que responde dúvidas e trabalho de campo de equipe multidisciplinar

Desde novembro de 2020, o espaço do coletivo OSIP (Organização Social Identidade Periférica), em Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo, acolhe o projeto PrEP15-19. O objetivo é apresentar o uso da PrEP (Profilaxia pré-exposição) ao HIV e levar o tratamento para além da região central da capital.

“O foco são homens gays, mulheres trans e travestis moradores do entorno”, explica Paula Massa, 39, psicóloga e coordenadora da pesquisa de campo do projeto PrEP1519, em Cidade Tiradentes.

Com atuação direcionada a adolescentes de 15 a 19 anos que se identificam como homens gays, mulheres trans e travestis, a iniciativa busca reduzir a incidência de HIV neste grupo e medir a aceitação do tratamento com a PrEp e o autoteste para HIV.

“O vírus é igual para todos, mas a incidência é maior em algumas populações. O preconceito também impede que esses indivíduos busquem atendimento e consigam ser acolhidos no sistema”, explica Massa sobre o porquê da escolha do público-alvo.

Uma pesquisa encomendada pelo Ministério da Saúde, divulgada na revista científica Medicine, mostra que os casos de HIV e Aids triplicaram nos jovens na faixa de 15 a 19 anos no Brasil entre o período de 2006 a 2015.

“Diferentemente da região central onde há uma concentração do público LGBT e já conhecem o tratamento da profilaxia, aqui [Cidade Tiradentes] os jovens chegam sem conhecimento sobre esse tratamento”, explica Wellington Matos, 34, presidente da OSIP (coletivo que acolheu o projeto) e morador do bairro.

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PROFILAXIA PARA NOVOS GRUPOS

O projeto PrEP1519 teve início na região central da capital, em meados de 2019, mas foi justamente um mapeamento de público que fez a iniciativa chegar ao bairro, já que muitos vinham da zona leste. 

“A gente fez uma pesquisa qualitativa para identificar em que ponto da região teria o maior alcance dos jovens e maior pessoas com indicação para uso da Prep, e descobrimos que era em Cidade Tiradentes”, explica Paula Massa.

Dos mais de 8.000 usuários de profilaxia atualmente em São Paulo, 83,6% são gays/homens que fazem sexo com outros homens (HSh cis). Mais da metade (64,56%) também é autodeclarada de cor de pele branca ou amarela. O levantamento foi feito pela reportagem no Painel Prep do Ministério da Saúde.

“Ter acesso à profilaxia em Cidade Tiradentes nos coloca em posição de igualdade com os moradores da região central. A maior parte do público que tem acesso a esse programa são brancos de poder aquisitivo mais alto e maior nível de instrução”, aponta Paula, coordenadora da pesquisa de campo na região.

Para o sociólogo Alexandre Grangeiro, pesquisador do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP e pesquisador principal do projeto em São Paulo, o principal desafio é vencer o isolamento desses grupos, o que facilita a circulação do HIV.

“O estigma desses grupos faz com que se evite a procura de serviços e aumenta o receio de um diagnóstico, acrescendo o tempo que uma pessoa infectada pode transmitir o vírus involuntariamente”, diz Granjeiro. “A oferta de serviço direta na comunidade tem potencial para quebrar esse ciclo.”

“No caso de pessoas trans, há ainda o maior empobrecimento e exclusão, desde cedo, de todas as instituições, começando pela escola. Essas desvantagens aumentam ainda mais a vulnerabilidade para qualquer doença, incluindo o HIV”, completa.

Equipe do projeto que tem pesquisado o uso da profilaxia em Cidade Tiradentes | Arquivo Pessoal

Para Yago Vitorino, 22, que faz uso da Prep, agente de prevenção e educador na ação, a profilaxia foi o que lhe tirou o medo e permitiu iniciar a vida sexual sem paranóias.

“Fui muito hipocondriaco, por conta do medo que meus pais me colocaram sobre IST’s (infecções sexualmente transmissíveis), em destaque o HIV. Sempre que fazia sexo era uma paranoia diferente. Passei a tomar Prep, e a minha vida mudou. Aquele medo passou a ser menos alarmante e paranoico”, comenta.

Vitorino lembra que o diagnóstico de HIV não é o fim do mundo, mas pode ser especialmente mais difícil para os mais jovens.  “Não aguento mais ver meninos de 16 anos tendo seu chão tirado porque o diagnóstico deu positivo. A prep se faz necessária para diminuir casos assim”, comenta.

O agente de prevenção mora em Itaquera, bairro também da zona leste, e enxerga que a periferia está longe do debate e do acesso à Prep. 

“A profilaxia é de extrema importância para a periferia. O preservativo vem caindo no esquecimento coletivo. Tenho percebido muita relutância com as pessoas sobre o assunto da Prep. Todos alegam usar camisinha e que não precisam”, comenta.

“Desconfiam do nosso projeto. Por dia, preciso explicar para pelo menos 15 jovens a mesma informação.” Para Yago, a distância também pode ser um indicativo do risco maior que esses jovens correm. 

“Fica escancarado que a informação não está chegando para jovens da periferia, a maioria de negros, que estão sucesstíveis a contrair alguma IST, já que não estão sendo ensinados a se cuidarem”, explica.

SAÚDE, RESISTÊNCIA E INOVAÇÃO

A abordagem do programa, além do público-alvo, com faixa etária diferenciada também é um dos grandes trunfos do projeto.  A equipe de campo visita áreas mais propensas a encontrar os potenciais usuários do método preventivo e tem profissionais que se identificam com os possíveis pacientes.

“Literalmente os pesquisadores estão buscando fluxos, baladinhas e locais onde existe encontro dos jovens com o perfil da pesquisa. Por isso, além da equipe de profissionais da saúde, há os educadores que também são jovens gays que fazem o primeiro contato”, afirma Wellington Matos, presidente do coletivo que cedeu espaço para o projeto.

Pensando em quem se sente inibido a procurar ajuda ou informações presencialmente, ou até pelo momento de pandemia de Covid-19, em que as saídas às ruas diminuíram, o projeto também conta com a ajuda da ‘robô’ Amanda Selfie.

Trata-se de um perfil criado nas redes sociais, Instagram e Facebook, que responde automaticamente dúvidas sobre profilaxia, autotestagem para HIV e outras questões relacionadas a infecções sexualmente transmissíveis.

Além de São Paulo, o projeto PrEP1519 também está em Salvador e Belo Horizonte. No total, são 871 participantes. Na capital paulista, dos 406 usuários, 317 já estão fazendo uso da profilaxia.

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Em Cidade Tiradentes, 125 participantes estão sendo acompanhados e oito iniciaram a prevenção com uso da Prep. A previsão é que o estudo vá até o mês de junho de 2021 e se expanda para o bairro vizinho, Itaim Paulista.

O estudo, financiado pelo Ministério da Saúde e pela organização internacional Unitaid (Innovation in Global Health), que investe em inovações para prevenir, diagnosticar e tratar doenças como AIDS/HIV, tuberculose e malária em países de média e baixa renda, é uma espécie de ensaio que busca identificar se vale a pena criar políticas públicas baseadas na ação.

“O financiamento não é em recursos financeiros, mas com materiais, equipe e medicamentos”, ressalta Paula Massa.

As instalações do projeto são realizadas graças ao coletivo OSIP, que se instala em uma edificação, antes abandonada. “É uma ocupação de um antigo prédio da Defesa Civil, que hoje dividimos juntamente com outros dois coletivos de teatro”, explica Wellington Matos.

Matos atua no projeto PrEP1519, sem receber nenhuma remuneração, entre o trabalho que tem como metalúrgico, ele dedica algumas horas do dia para criar posts nas redes sociais e artes gráficas digitais para divulgação do programa.

Comprimido Prep usado na profilaxia | Divulgação

O QUE É PROFILAXIA?

A profilaxia, conhecida como Prep, é o tratamento diário que consiste na administração medicamentosa. “É preciso tomar um comprimido por dia, que são retrovirais em uma dosagem reduzida quando comparados à medicação que se usa para o tratamento do HIV. Assim, quando a pessoa entra em contato com o vírus não irá se infectar”, explica Paula Massa.

Massa alerta que podem ocorrer efeitos colaterais para quem está iniciando o tratamento, como náuseas, enjoo e gases, mas que não causam problemas graves. “O uso do medicamento pode trazer alguns problemas ósseos e renais, que são raros, mas que podem acontecer nesses sistemas. Se identificarmos, o uso é suspenso e os efeitos se encerram, pois são temporários”, explica.

A pesquisadora lembra que o tratamento também está disponível no SUS (Sistema Único de Saúde) para pessoas acima de 18 anos e que têm risco.

Mas somente o tratamento com Prep não pode evitar a infecção por outras doenças que podem ser adquiridas durante a prática sexual. Por isso, além da profilaxia, o programa oferece acesso às prevenções combinadas, como camisinha, gel lubrificante, testagem para o HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis.

“Essa não é uma prevenção escolhida no momento da relação sexual, mas que a pessoa se prepara antes e pode proteger indivíduos que não conseguem negociar proteções com o parceiro, como o uso da camisinha. Quanto mais pessoas usando profilaxia, menos o vírus circula”, explica Massa sobre a importância da profilaxia.

SERVIÇO:

Data: Segunda a sexta: Das 16 às 21h. Aos sábados das 15h às 18h.
Endereço: rua Sara Kubtschek, 165 (ao lado do terminal de ônibus Cidade Tiradentes).

Além disso, os CRTs (Centro de Referência e Treinamento) DST/AIDS-SP também oferecem testes e tratamentos. Confira aqui os endereços a partir das subprefeituras. 

Giacomo Vicenzo

Jornalista, correspondente da Cidade Tiradentes desde 2018. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social. Iniciou sua carreira profissional no Datafolha, já publicou no UOL TAB e Revista Galileu. Gosta de contar e ouvir boas histórias. Adora seus gatos de estimação e não consegue viver sem senso de humor.

Cidade Tiradentes, São Paulo

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