Qual é a minha entrada?

Arte: Alexandre De Maio

A minha velha agenda de 2014 mostra que o meu primeiro compromisso do dia 6 de junho foi uma sessão especial de pré-estreia do filme “Amazônia — Planeta Verde”, uma das atividades da Semana de Jornalismo Ambiental da qual eu era participante.

Poderia ser apenas mais um dos eventos jornalísticos que tanto gosto de ir, se não fosse o que aconteceu em um dos shoppings mais luxuosos da zona sul de São Paulo, que, não por acaso, possui grandes salas de cinema com poltronas aconchegantes.

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Chovia naquela manhã e a minha credencial dizia que eu deveria estar no cinema às 10h. Vesti a minha roupa nova, passei o meu inseparável batom vermelho, entrei em um dos vagões lotados do trem da linha 9 — Esmeralda e depois de parar na rua errada e, desviado de muitos carros para não tomar um banho de água suja, cheguei ao shopping minutos antes da hora marcada.

Caminhei devagar para retomar o fôlego até encontrar um segurança e um grupo de pessoas paradas em frente ao local. Disse a ele que estava indo a uma pré-estreia no cinema e perguntei onde era a entrada. O funcionário passou as direções e eu continuei caminhando na beira do prédio de arquitetura exuberante. Como o local indicado parecia não chegar nunca e vi outro segurança, pedi informação novamente para confirmar. O homem deu a mesma resposta que o anterior.

Segui a direção passada e cheguei ao local indicado pelos dois homens, mas não era a tradicional entrada do shopping. Era uma portinha na qual havia mais um segurança. Ele liberava a entrada para algumas pessoas. Mais uma vez falei que estava indo a uma pré-estreia no cinema e perguntei se era ali mesmo a entrada. “Aqui é a entrada de serviços”, respondeu o rapaz.

Eu não apenas cheguei à entrada de serviços como também descobri que uma das portas principais do shopping era exatamente aquela, onde encontrei o primeiro segurança. Possivelmente, o grupo que estava perto dele aguardava o horário de abertura.

Para que eu não voltasse tudo de novo, o rapaz da pequena porta disse que eu poderia entrar por ali mesmo se quisesse. Entrei e, no primeiro espelho que encontrei, olhei e pensei: “Mas até que eu estou arrumadinha”.

Por que os dois primeiros seguranças me guiaram para entrada de serviços? Foi por causa da ausência de roupas de grife? Por causa da cor da pele? Alguém como eu não poderia fazer outra coisa naquele lugar a não ser trabalhar?

Talvez aqueles seguranças, que podem pegar o mesmo trem e morar no mesmo bairro que eu, pensem que nós (Eu e eles) não frequentamos um shopping daquele estilo para atividades que não sejam o trabalho braçal. Ainda mais em uma sexta-feira pela manhã. Quem é que vai ao cinema em dia de semana neste horário?

Difícil saber o que passou na cabeça dos seguranças quando pedi auxílio ou nem tenham prestado atenção no que eu disse.

Os estereótipos permanecem vivos na sociedade e nem todo mundo possui livre acesso à cidade sem ser taxado. Eu não deveria estar naquele lugar? Por quê? Quem determinou isso? “Neuras” da minha cabeça?

Poderia ser, se o caso fosse isolado.

Priscila Pacheco, correspondente do Grajaú

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