“São Paulo só é grande por causa de suas periferias”

Se a metrópole está na lista das maiores do mundo é porque a maioria da população vive nos bairros periféricos

Contrastes: do alto da Brasilândia, na zona norte, se vê a edificações da selva de pedra da região central — Foto: Cleber Arruda/Agência Mural

Arranha céus, calçadões, MASP. Na Avenida Paulista tudo é grandeza. Banespa, Edifício Itália, Copan, Teatro Municipal. O centro de São Paulo tem memória viva e espaços encantadores. Ah, e a vida noturna! Augusta, Moema, Vila Madalena. São Paulo nunca dorme.

Quem nunca pensou nesses itens para descrever São Paulo? Esses são alguns dos principais motivos pelos quais seus 12 milhões de moradores teriam orgulho de pertencer à maior cidade do Brasil e da América do Sul.

Receba nossa newsletter!

Desde a época em que entrei na universidade, e depois ao longo de minha trajetória profissional conheci e convivi com muitas pessoas que vieram de cidades do interior do Estado, ou até mesmo de outras regiões do país, e sempre comparava a forma como eles viam e viviam a cidade, de forma tão entusiasmada, diferente de mim, que nasci e moro no extremo leste.

As visões de São Paulo de quem vem de fora e de quem é da periferia são bem diferentes. E isso não é um problema. E geralmente essas pessoas desconhecem as realidades e, basicamente, os territórios periféricos da cidade. Mas eu sempre reflito quando alguém que apenas circula pelo eixo central e sudoeste da cidade diz que adora São Paulo, de qual São Paulo ele está se referindo afinal?

Se você vem para São Paulo porque quer ter a experiência de viver em uma grande cidade, trago notícias: São Paulo só é imensa em território porque tem Grajaú, Parelheiros, Marsilac. Itaim Paulista, Guaianases, São Mateus. Perus, Pirituba, Brasilândia.

Se você nunca foi a nenhum desses lugares, procure conhecer. Temos problemas, como em qualquer região, mas temos também muita coisa boa!

E se a metrópole está na lista das maiores do mundo é porque a maioria da população vive nos bairros periféricos, pra quem São Paulo não é sopa. Para quem viaja horas no transporte público e não encontra comércio aberto ou toda a oferta de produtos do mundo todo à disposição. Para quem IFood ou Uber nem sempre chegam. Para quem o hospital é longe ou vive cheio. Para quem sofre com enchente e esgoto a céu aberto.

São Paulo nem sempre é só correria alucinante ou badalação. São Paulo é também cansaço, humilhação, resiliência para pessoas que nem sempre desfrutam do luxo e glamour urbano, mas são quem diariamente mantêm a cidade em pé.

Há muito tempo São Paulo atrai velhos e novos baianos, mineiros, pernambucanos, sorocabanos, caiçaras, haitianos. Seduzidos com promessas de progresso, prosperidade, felicidade, paz. Não ser conduzido, ser o condutor e autor de seu sucesso e sua história. Nós, paulistanos, somos acolhedores e recebemos a todos. Bem-vindos! Mas se você quer de fato conhecer a cidade, atravesse a ponte, e vivencie, de fato, o avesso do avesso do avesso.

Por Lívia Lima, correspondente de Artur Alvim