Sem enxergar, Dona Edite declama poesias em saraus da zona sul de SP

História da moradora de Piraporinha apaixonada por literatura pode virar documentário; cineasta faz vaquinha para conseguir bancar produção

Quando cheguei na casa de Edite Marques da Silva, 77, no bairro de Piraporinha, zona sul de São Paulo, ela já me esperava sentada no sofá da sala, toda arrumada e com um belo sorriso. 

Estava pronta para, logo depois da entrevista, cumprir com a agenda de toda terça-feira: ir ao Sarau da Cooperifa. Nem a tempestade que se aproximava seria obstáculo para cumprir a rotina semanal. 

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Dona Edite não enxerga desde os anos 1980, o que não afastou o prazer pela leitura. Desde 2006, ela frequenta o Sarau da Cooperifa, onde tem lugar cativo no bar do Zé Batidão. 

Conta com a ajuda das irmãs Izabel (Zazá) e Cleonice, a sobrinha Assucena e um walkman (aquele aparelho portátil para reprodução e gravação de áudio com fita cassete, popular no Brasil nos anos 1990). É por meio dele que Dona Edite tem a possibilidade de ler/ ouvir diversos livros e poesias. E, parte do que escuta, decora para declamar no sarau.

“Na Cooperifa é como se eu chegasse ali e um monte de gente lesse para mim”, conta. A sobrinha, Assucena, costuma ler para Edite e gravar alguns dos textos. Edite não lê em braile (sistema de escrita tátil para quem tem problemas de visão), mas garante tudo com a memória. “Comecei a ouvir e tentar decorar o que eu gosto”, explica. 

Crédito: Gisele Alexandre/Agência MuralDona Edite nasceu em Minas Gerais e veio para São Paulo na infância

“Antes eu tinha o costume de ler autores que já morreram ou que eu não conhecia. Na Cooperifa tem escritores e poetas que tem vez que eu choro quando escuto algumas poesias, porque tem tudo a ver com a vida da gente”, completa Edite.

Filha de um carpinteiro mineiro com uma dona de casa baiana, Dona Edite, como é conhecida por todos, sempre teve paixão pela leitura. Recorda como os pais davam importância para a educação dos filhos, algo que não era comum entre as famílias dos anos 1950, principalmente onde nasceu, Pirapora (MG). 

“Só consegui concluir o primário na minha cidade. Quando terminei o meu pai morreu e não adiantava mais sonhar com o estudo. Eu precisava ajudar minha mãe”, lembra.

Até os 11 anos, a família tinha uma situação financeira equilibrada, mas tudo mudou com a morte do patriarca, aos 49 anos. Como ninguém sabia gerenciar a carpintaria, a mãe precisou arranjar outra atividade para sustentar a casa. Ela fazia doces e os filhos ajudavam nas vendas.

A vida ficou mais difícil na cidadezinha de Minas Gerais. Dos 13 filhos, apenas seis chegaram à vida adulta. No final, ela e alguns irmãos começaram a migrar para São Paulo à procura de emprego. 

DONA EDITE DECLAMA “AUTOR DA VIDA”, DE PAULO ROBERTO GAFKE

Em 1961, uma das irmãs mais velhas, formada em enfermagem, morreu vítima de uma hepatite infecciosa. No mesmo ano, Dona Edite chegou a São Paulo para trabalhar em uma empresa de manufatura de peças para televisões e rádios.

“Eu achava que eu era muito importante. Todo aparelhinho [eletrônico] que eu abria tinha peças e eu dizia que ‘passou pela minha mão’”, conta.

Foi depois que chegou a São Paulo que Dona Edite também voltou a estudar. Ela concluiu o colegial, hoje ensino médio, e trabalhou em quatro empresas metalúrgicas. Até que a diabetes, doença que descobriu nos anos 1960, começou a lhe tirar a visão.

“Tratei muito tempo da diabetes, nunca descuidei. Mas tive a infelicidade de ter retinopatia, que é uma doença que ataca a visão”, conta.

Dona Edite se lembra que começou a sentir a perda de visão em 1979 e, dois anos depois, passou por uma cirurgia que melhorou bastante o quadro. No entanto, a doença voltou a se agravar e os médicos a alertaram que aos poucos ela perderia a visão.

Crédito: Gisele Alexandre/Agência MuralO cineasta Daniel Fagundes quer contar a vida de Dona Edite em um filme documentário

REAPRENDENDO A VIVER

Dona Edite sempre foi independente e comunicativa. Participou de grupos de formação e outras temáticas organizados pela igreja católica. Quando começou a perder a visão e precisou da ajuda de outras pessoas, sentiu dificuldade, mas nunca deixou de fazer as coisas que gostava. 

No início dos anos 1990, ela lembra que durante dois anos e meio fez terapia no HC (Hospital das Clínicas), três vezes por semana. Era difícil enxergar os letreiros dos ônibus, mas não faltava às consultas com a psicóloga.

“A doutora Sueli falou pra mim que eu não era a única pessoa a perder a visão e que eu tinha tudo para me arrumar dentro da minha existência e procurar outro caminho que não era só enxergar”, diz.

Depois que teve alta na terapia do HC, passou a frequentar outros espaços como o Cecco (Centro de Convivência e Cooperativa) do Guarapiranga e a Casa de Cultura de Santo Amaro e de M’Boi Mirim, na zona sul.

Dona Edite lembra de um evento em que viu uma senhora declamando “As mãos”, de Cora Coralina, poesia que atualmente ela declama nos saraus. “Pedi a poesia e enchi a paciência da Zazá (irmã) pra ler pra mim. Depois de um tempo eu sabia ela de cor”, conta. 

A primeira apresentação em público foi em meados dos anos 1990 durante uma celebração de Natal na Casa de Cultura do M’Boi Mirim, quando Dona Edite declamou “As mãos”. Depois disso, a voz dela nunca mais parou de ser ouvida nos saraus da zona sul.

A história de Dona Edite se tornará um filme, graças a um projeto idealizado por Daniel Fagundes, cineasta e educador popular da zona sul. Ele é filho de um casal de amigos de Dona Edite e acompanhou toda a trajetória dela.

Para se tornar realidade, o documentário “O olhar de Edite” está com uma campanha de financiamento coletivo até dia 28 de novembro, para angariar recursos financeiros para a gravação. O valor será usado para gravar com Dona Edite e a família na cidade natal, Pirapora (MG), além da edição e finalização do filme.

Gisele Alexandre

Jornalista, correspondente do Capão Redondo desde 2018. É pós-graduada em Políticas Públicas e Projetos Sociais. Integrante da Rede de Jornalistas das Periferia, também é consultora de comunicação no CDHEP - Centro de Direitos Humanos e Educação Popular do Campo Limpo. Libriana, adora crianças e acredita na comunicação como instrumento de transformação social, por isso atua como voluntária dando aulas de comunicação para jovens da periferia.

Capão Redondo, São Paulo

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