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Sem metrô, Cotia acumula promessas que nunca saíram do papel na Raposo Tavares

Durante o anúncio de melhorias para a rodovia, o governador João Dória afirmou que o metrô não é uma alternativa nesse momento.

Quem vive em Cotia, na Grande São Paulo, já ouviu muitas vezes que algo seria feito na região da rodovia Raposo Tavares, a principal ligação entre a cidade e a capital paulista, para mudar o problema de congestionamento. 

Uma vez falaram que viria um metrô; noutra que seria um monotrilho; a pista seria alargada para os carros e faixas de ônibus seriam implantadas para aliviar o problema. Até aeroporto estava previsto e anunciado em atos do governo do estado com políticos da região. 

Porém, nada ainda foi concretizado e em ato realizado no último dia 27, o governador João Doria (PSDB) descartou a construção de Metrô para a região. “Não há essa alternativa”, disse.  

O tema causou repercussão na cidade que teve um crescimento populacional de 26% nos últimos 10 anos e problemas cada vez maiores de congestionamento. Hoje, são 258 mil habitantes. O número de veículos quase dobrou – saltou de 83 mil para 155 mil. 

“Nos últimos anos houve um crescimento desordenado na cidade. Não só de Cotia como das outras cidades [vizinhas] também”, afirma o advogado Leandro Félix, 31. “Houve um grande aumento de condomínios de moradores e as nossas vias não estavam preparadas para todo esse pessoal que chegou”, completa. 

Rodovia é o principal acesso para a cidade de Cotia, onde vivem mais de 250 mil habitantes | Paulo Talarico/Agência Mural

O advogado leva a esposa todos os dias ao trabalho na Granja Viana. Pegam trânsito quase todo dia, mas às sextas-feira relata ser o pior dia. “A Raposo fica totalmente travada de ponta a ponta e o trânsito já é uma coisa rotineira.”

Isso ocorre porque além do horário de pico comum do dia a dia, muitos motoristas pegam a rodovia para irem às chácaras e sítios em Cotia para passar o fim de semana.

Desde as manifestações de 2013 pela Tarifa Zero, Leandro participa de debates sobre mobilidade urbana na cidade e defendeu a valorização dos ônibus para reduzir o tráfego.

“A solução seria o incentivo ao uso do transporte público, fazer uma faixa exclusiva de ônibus para fazerem os coletivos andarem mais rápido e estimular as pessoas a deixar o seu carro em casa.”

Este é um dos projetos que o prefeito Rogério Franco (PSD) chegou a levar para a Secretaria Municipal de Transportes e Mobilidade para fazer um teste na rodovia, mas ainda não foi realizado na cidade. 

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A chegada de novos empreendimentos também preocupa moradores. Em 2019, foi inaugurado o parque aquático Thermas da Mata na Estrada do Morro Grande, próximo ao km 36 da Raposo. Até o final deste ano, está prevista a inauguração do Animalia Park, quatro vezes maior que o antigo Playcenter, no km 39,  no distrito de Caucaia do Alto.

“Um trajeto que eu fazia em torno de cinco minutos, aproximadamente eu levei 35”, reclama Leandro que tentou ir à casa do sogro no último domingo, no Outeiro de Passárgada, próximo ao Thermas. 

A Estrada do Morro Grande é uma via de mão dupla, com faixa de ida e volta. “Não é apropriada para receber aquela quantidade de carros que estava recebendo”, diz Leandro. 

Trecho da rodovia Raposo Tavares | Paulo Talarico/Agência Mural

No caso de Amanda Cena, 21, ela precisava se deslocar de Caucaia do Alto para sessões de fotografia como freelancer, em São Paulo. 

Além da correria de pegar dois ônibus: um até o centro de Cotia e outro até a capital, a garçonete também lidava com um trânsito exaustivo. “Ficava cerca de uma hora pra chegar na entrada do bairro Jd. João XXIII [da capital].”, desabafa. 

Agora, Amanda mora próximo ao trabalho, em Água Espraiada e vê melhora na qualidade de vida: “Muito menos cansativo, eu tenho mais tempo para descansar e estudar. Pois o trajeto demorado de ônibus e o tempo que eu passava nos pontos de ônibus eram muito desgastantes.”

SEM ESPERANÇA PARA METRÔ

Segundo o governo estadual, R$ 96 milhões serão investidos na Rodovia Raposo Tavares, entre os trechos do km 23, 2 ao 26,8. O km 23 fica na região da Granja Viana, que dá acesso a cidade de Carapicuíba, e o km 26 na Estrada do Embu, em Cotia.

Entre outras melhorias, inclui novas faixas, transposição de rodovia e melhoria nos trevos que ligam a Raposo à Avenida São Camilo e Capital, Raposo e Embu das Artes. 

Durante o evento aberto na cidade, com a presença de autoridades da cidade e região, Doria afirmou que a licitação deve durar cerca de 45 dias e as obras iniciam em outubro. 

Mas não alimentou esperanças para o sonhado metrô na região. “Não vamos prometer porque não há sequer estudo nesse sentido.”

A fala foi a primeira nesse sentido, após anos de promessas. Em 2020, o presidente do metrô Silvani Pereira, informou que o projeto da Linha 22 – Bordô seria refeito e divulgado neste ano, e que a estação Granja Viana seria lançada em 2028. Os rumores da nova linha para a região existem desde 2013.

Evento com governador teve aglomeração | Divulgação

MAIS PROMESSAS

Antes do metrô, o governo cogitou levar o monotrilho da Linha 17 – Ouro até o centro de Cotia, em uma apresentação publicada em 2016. A linha que sai do aeroporto de Congonhas, na zona sul da capital, chegaria inicialmente até a estação São Paulo-Morumbi, passando por Paraisópolis. Essa meta prevista ainda para a Copa de 2014 não saiu do papel – e a extensão até Cotia sumiu dos projetos. 

Outra ação foi uma proposta feita pelo ex-deputado estadual Marcio Camargo (PSC). Ele apresentou um projeto ao governo estadual, em 2017, pedindo mais uma faixa no km 22,8 sentido capital paulista e readequação geométrica e alargamento das faixas, no bairro Butantã, com aproximadamente 100 metros na chegada à capital paulista.

Em 2019, a prefeitura de São Paulo também recebeu pedidos de implantação do corredor exclusivo para ônibus, entre os km 10 e 18, trecho que pertence à capital, mas sem previsão até o momento.

E em 2008, também foi feito um estudo para um aeroporto de grande porte na altura do km 39 da Raposo, em Caucaia do Alto, ao lado da Reserva Florestal do Morro Grande, que pertence à mata atlântica da Grande São Paulo. 

Mas 70 entidades ambientalistas e donos de chácaras, conseguiram impedir o avanço das obras para evitar que parte da mata fosse desmatada. 

Apesar do cenário, o estagiário em comunicação Allan Mattos, 20, está esperançoso. Ele tem feito home office desde o começo da pandemia e, com isso, diz que está evitando o que era “uma das piores partes do dia”: pegar o trânsito da rodovia. “Muito angustiante, eu me sentia muito mal nesses momentos”, desabafa.

Allan também relembra outro ponto crítico do tráfego da Raposo em Cotia, próximo ao Mercado Municipal, onde tem uma entrada para a Estrada da Roselândia, sentido Itapevi. “Quando chegou no horário de pico, trava completamente aquelas vias locais”, relata.

“Acredito que as mudanças vão ser bem efetivas. Cotia é uma cidade que merece uma atenção especial.”

Halitane Rocha

Jornalista, correspondente de Cotia desde 2018. Coordenadora do Cursinho Popular Dandara dos Palmares e produtora do Sarau na Praça, ambos em Cotia. Apaixonada pela cultura de rua, leitura, e descobrir novos lugares. Sagitariana nata.

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