‘Ser índio não é só vestimenta, está no sangue’, afirma indígena Pankararu de Mauá

Era domingo frio e nublado, mas Gilberto dos Santos, 51, operador de máquinas, me recebeu com sorriso e bom humor antes das 11h. Índio Pankararu, o aposentado conta orgulhoso sobre as raízes, mostra seu documento de indígena e vídeos da aldeia Brejo dos Padres. “Você precisa ir lá para conhecer nossa cultura”, diz.

Nesta quinta-feira (9), é celebrado o Dia Internacional dos Povos Indígenas, criado pela ONU (Organização das Nações Unidas) em 1995. A data marca a resistência desses povos e a importância da garantia dos direitos básicos para essas populações. Gilberto é um dos exemplos de morador da Grande São Paulo que tenta manter a cultura aprendida com os pais.

A família vivia na aldeia, localizada em Pernambuco, até o fim de 1950. Por causa da seca, decidiram buscar melhores oportunidades para a família e escolheram o município de Mauá, na região do ABC Paulista. Na mudança, os pais deixaram a agricultura para viver da construção civil.

As migrações para o contexto urbano são uma parte das mais diversas histórias dos povos indígenas no Brasil, que sofrem com os embates para manutenção das próprias terras.

Não há dados oficiais sobre a população de índios em Mauá, mas Gilberto afirma que há uma concentração de Pankararu na periferia do Real Parque, na zona sul de São Paulo, formando um grupo estimado de cerca de 1.500 pessoas. No estado, a população indígena soma, ao todo, cerca de 42 mil habitantes, segundo o censo IBGE de 2010.

A Agência Mural conversou com o Pankararu Gilberto dos Santos para saber mais sobre sua trajetória e de como a disseminação da cultura indígena é importante para o Brasil.

Gilberto dos Santos e a filha Amanda dos Santos usam artesanato local Pankararu (Laiza Lopes/Agência Mural)

Agência Mural – Como aconteceu a migração dos seus pais, indígenas Pankararus, para Mauá?
Gilberto dos Santos – Meu pai veio primeiro no pau de arara – caminhão que transporta muitas pessoas – e levou cerca de sete dias para chegar aqui. Tínhamos conhecidos indígenas em Mauá que ajudaram a vinda do meu pai. Primeiro, ele veio com a ideia de voltar, mas acabou ficando. Ele conseguiu um documento dos líderes indígenas que o autorizava a se afastar da aldeia para criar os filhos em São Paulo, por isso ele não perde o vínculo local. Criar os filhos em áreas rurais, naquela época, era um grande desafio. Mas, recentemente, vimos um processo inverso, em que os indígenas no contexto urbano estão retornando para suas aldeias por conta desse período de crise.

Você nasceu em Mauá, como foi conhecer a cultura da sua família  já em contexto urbano?
Desde pequeno já tinha conhecimento de que eu era indígena. Aos 18, tive a oportunidade de viajar para a aldeia Brejo dos Padres pela primeira vez e conhecer onde meus pais nasceram e toda a cultura. Quando cheguei lá, me identifiquei. Ser índio não é só uma questão de vestimenta, cor e fenótipo, está no sangue.

Mesmo longe da aldeia Brejo dos Padres, como você mantém os costumes culturais do povo indígena em Mauá?
Meus pais moram próximos de mim, então temos o costume de nos alimentarmos com a comida local, por exemplo. Meu pai gostaria muito de ir para a aldeia, mas pela idade [80 anos], não é mais possível, já que a viagem é muito longa. Precisamos ir até Aracaju (SE) de avião, pegar um ônibus até Paulo Afonso (BA) e de lá seguir o transporte por van até a aldeia em Pernambuco. Ainda possuímos terras demarcadas lá, posso comprar as terras pela minha descendência. Aqui na área urbana temos alguns parentes que moram em Mauá, mas a grande concentração de Pankararus está no Real Parque, próximo ao Morumbi.

Sabemos do desconhecimento e dos estereótipos em relação aos povos indígenas. Quais ações você considera importante para manter viva a cultura?
Acredito que as cotas indígenas ampliaram a visibilidade e o conhecimento das pessoas sobre esses povos. Foi uma luta dos movimentos e hoje tem mais divulgações. O trabalho social é importante, assim como as ações nas escolas. Minha irmã levou apresentações de rituais indígenas para a escola da minha filha, em Mauá, quando ela era criança. O que passamos para os nossos filhos é o que fica. Avançamos em ocupar os espaços, hoje damos palestras em universidades, tenho um primo formado em medicina. Para mim, estar aqui e ver isso é uma felicidade imensa.

Atualmente, como é a estrutura da aldeia Brejo dos Padres?
Como as pessoas estão retornando ao aldeamento, as políticas públicas e o acesso vêm aumentando. Hoje moram em torno de 5 mil famílias lá e esse número só tem crescido. Temos transporte que liga aos principais locais e faculdades, mas a cultura é mantida. Rituais como a dança do cansanção e o menino do rancho – que celebra o batismo de filhos homens – são feitos.

Laiza Lopes é correspondente de Mauá
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