Sobre objetos, trocas, aromas e melodias

Eu olhava minha casa e ficava reparando o que não vinha de segunda mão. Praticamente tudo tinha sido de alguém antes de ser nosso.

Eram tantos botões e o tempo era pouco para aprender, mal eu me acostumava com um televisor e já vinha outro em seu lugar. Naquela época a TV era analógica. Havia uma antena enorme do lado de fora aterrada no chão, e nós saíamos para sintonizar os canais, mesmo debaixo de chuva. A antena menor da televisão não podia deixar de ter um bombril pendurado.

Receba nossa newsletter!

“Olha que imagem linda”, dizia minha mãe. Quando a imagem da TV não era esverdeada. Geralmente acontecia.

Chegamos ao Jardim Santo André ou Cruzado II em 89. Meu pai construiu um barraco seguro que nos abrigou da chuva, do sol por um bom tempo. Nossa casa.

Milionário e José Rico, João Mineiro e Marciano, Trio Parada Dura, Teixeirinha, Sérgio Reis, Tonico e Tinoco eram as modas que nos acordavam às 6h30 da manhã, hora que meu pai se levantava para ir trabalhar e sintonizava o rádio, às vezes umas modas tristes que se misturavam ao aroma do café passado no coador de pano, que mais cedo comeríamos junto com o pão que ele deixava antes de sair, um ritual (para mim sagrado) que continua até hoje.

Sr. Luiz Alves de Lima (Créditos: Fabiana Lima)

Minha primeira bicicleta foi uma Caloi rosa. Aprendi a andar dando voltas no quintal do barraco, depois fui crescendo e os tamanhos das bikes também, o quintal foi ficando pequeno, dando espaço à casa de alvenaria. E eu ganhava as ruas. Meu pai levava minha mãe na garupa para o trabalho, eu mesma já andei diversas vezes com ele, mas nunca aprendi a me equilibrar e levava meus amigos na parte da frente. A que eu tenho hoje foi trocada há anos por uma mobilete com um tal de Banha lá do morro.

“Pai, quero um relógio”. Assim também foi com o teclado — que nunca aprendi a tocar. Não, calma, não posso ser tão injusta comigo assim, aprendi de ouvido um pedaço de Asa Branca. Orgulho!

Máquina de escrever, já sabe, né, quem não tinha o curso de datilografia não ia arranjar emprego! Minhas irmãs fizeram, eu pegava a pasta emprestada delas para aprender. Até que eu era boa e dedicada, mas minha rebeldia não me deixou seguir carreira.

Máquina de escrever, calculadoras enormes e antigas, relógios — de parede, com pêndulo, despertadores — armas, quadros, enfeites, engenhocas, liquidificador, cafeteira, violão, moedor de carne, balança, discos, sanfonas, vitrola, discos antigos, mobilete, vídeo cassete, rádios, radinho, radiolas… Tudo chegava pelas mãos do meu pai.

Embora não soubesse ler, meu pai conhecia Semp, Philco, Philips, Motoradio, Zilomag, Canarinho-Voz de Ouro, Nord- Som. Adorava vê-lo consertando. Por dentro, parecia que todos eram iguais. Quando não compensava a manutenção ele me deixava brincar. Todas aquelas peças coloridas e acobreadas me remetiam a uma cidade em miniatura.

Sr. Luiz fazendo seus consertos no quintal (Créditos: Fabiana Lima)

-“Seu Luiz! Seu Luiz tá aí?” Era o dia inteiro alguém o chamando. “Ana, faz um café”. Minha mãe nunca fazia, mas ele nunca desistiu até hoje. Eu só sei que depois de algum tempo, o café saía. Os homens sentados em algum canto da varanda, vários relógios, rádios, bicicletas.

Ele sempre manteve um lugar onde guardar os objetos, minha mãe achava uma bagunça. De vez em quando ele se desfazia de muita coisa, mas nunca aprendeu. Eu não era tão diferente dela. Dentro de gaveta, em cima do armário, podia se encontrar fios, porcas, pregos, benjamim, pilhas.

“Você me vorta quanto?”. “Que, rapa, esse aqui é da quartzo”, “Não, esse daqui eu não posso, é da Fabiana”. Eu sempre fui uma ótima desculpa quando ele não queria trocar algo. Táticas.

Havia momentos em que eu olhava minha casa e ficava reparando o que não vinha de segunda mão. Praticamente tudo tinha sido de alguém antes de ser nosso.

Anos atrás meu pai fez questão de fazer um carnê nas Casas Bahias de uma bicicleta vermelha, dessas sem marcha. Ele não gosta. Até aí tudo bem, o que eu achei curioso foi o fato de que, pouco tempo depois, pouco tempo mesmo, ele fez um rolo por outra. Detalhe, a outra era igualzinha, da mesma cor e tudo, a única diferença é que era mais velha, acabada.

Sr. Luiz em sua bicicleta vermelha (Créditos: Fabiana Lima)

Eu não aguentei, tive que perguntar. “Oxi, por que o senhor trocou sua bike novinha por outra igual e mais velha, é o prazer de trocar?”. Mais tarde o seu Luiz, outro rolista, apareceu com a bike nova do meu pai que agora era dele. Fiz a mesma pergunta. “É que a gente gosta, Fabiana”. Apenas caíram na gargalhada. Nunca entendi, mas eu que de rolo mal sei dos meus, supus que era vantagem paras os dois.

Fabiana Lima é correspondente de Santo André.

0 thoughts on “De Guaianases para a Alemanha: diário de bordo na COP23”

  1. Que lindo Ana Beatriz!
    Nos olhos e na voz dessas crianças é que realmente está a nossa esperança de um país melhor.
    Pessoas inocentes que conseguem enxergar o que muitos ignoram.
    É a vida de verdade,o sorriso estampado,o brilho nos olhos que mal sabem o que ainda vai ter que enfrentar.
    Um super abraço de toda família Centro Comunitário do Embura.
    Felicidades linda.

  2. Um raio x dessas pequenas Almas, que acreditam e sonham em um país onde tudo parece estar pedido, surge através da pureza e simplicidade o nascer da esperança dentro desses pequenos gigantes.
    Ainda vale a pena sonhar!

  3. Uma linda crônica, repleta de alma e total conhecimento do cenário atual de nosso país.
    São palavras assim que nos inispiram à lutar por mais um dia.
    Parabéns!!!

  4. Parabéns. Sou testemunha do seu ganho de saúde física, emocional e psicológica. Pois a bicicleta proporcionou a conscientização dos alimentos que lhe trazem energia e vitalidade e daqueles que intoxicam tirando o vigor pro esporte. Sua conquista de um corpo mais sadio e moldado também é digna de congratulações.

    1. Pessoa incrível, estudamos juntos e realmente sua história de vida é algo que muitas pessoas que tiveram a oportunidade de conviver um pouco com ele aprendeu muito.

  5. Fantástico ! Com todos percalços que a periferia oferece na prática esportiva, eis uma superação e motivação para deixarmos de ser sedentários ! Parabéns Mauro pela iniciativa !

  6. Olá,
    Gostaria de saber se a possibilidade de receber bolsa de estudos para esse curso em específico. Que Muito fazer, mas não possuo recursos no momento para investir.

    Desde já agradeço.

    1. Olá, Sheila! Muito obrigada pelo contato e interesse pelo curso. A atividade é oferecida pela faculdade, logo, vale tentar direto com a Fespsp a possibilidade de conseguir alguma bolsa.

  7. Paulinho, esta sim é a mais linda forma de Dizer Eu Te Amo Para um Pai!
    Você fez uma linda homenagem, para o Tio Paulo, que é Paizão de toda Família.
    Deus abençoe a todos os Filhos.

  8. Zorade, ai sim meu grande sobrinho, que homenagem de arrepiar.! Digo nunca vista, (é claro)pois cada um é um…Quanta sabedoria vestida de aparente ignorancia! O jeito de ser do meu irmao meio estranho, superou os grandes modos finos de criar seus filhos…Quanta riqueza de carater , de valentia também,ele apresentou a voce e a essa exelente Mae que te trouxe ao mundo…Familia pequena nas de grande peso..kkkk em todos os sentidos…No seu relato voce se esqueceu de falar sibre a bondade do coraçao dele…Tem umas histórias de caridade dele que admiro!…Parabéns pela homenagem ! Que Deus lhe proteja , que cada vez mais sua intelugencia seja ativada….abraços

  9. Olá boa tarde,
    Gostaria de parabenizar pela iniciativa e tbm Têmos que girar essa informação e cobrar de forma correta e pacífica dos responsável para tal , tendo em vista que somos moradores da região Têmos essas e outras dificuldades sendo que todos nós vamos receber visitas Nos próximos dias de político ou de seus prestadores de serviços prometendo o que não se cumpre ,uma vez que se não formos no dia votar somos obrigados a pagar multa e tenho certeza que todos nos não deixamos de pagar e quando se trata de olhar um pouco pra lado mínimo que é ,transporte, segurança, iluminação, etc.. Nos não temos respaldo ,então diariamente ouvimos relatos e acontecimentos que cada dia dificulta mais a vivência no bairro, só lembrando que mesmo sendo uma APA todos aqui são eleitores que seguem a risca com suas obrigações e o que queremos é o mínimo se iníciando pelo Respeito aos moradored e direito de ir e vir que já não temos mais.
    Att:
    Gilmar Rodrigues

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *