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Stand-up comedy ganha força com humoristas das periferias

Nos palcos e redes sociais, as experiências do bairro são os destaques; na pandemia, o alcance dos artistas aumentou

Antes da pandemia do novo coronavírus, Edmar Colin, 26, percorria diariamente 40 quilômetros da cidade de Francisco Morato, na Grande São Paulo, até a Barra Funda, na zona oeste da capital, para trabalhar como atendente de telemarketing. 

A profissão, comum entre jovens das periferias, foi um dos fatores que o incentivaram a ganhar os palcos fazendo comédia durante as noites e os fins de semana.

Após ser barrado em um processo seletivo por homofobia e desacreditado por uma gestora, decidiu fazer um curso de ator, em 2016. 

Atualmente, Edmar é um dos humoristas que estão se consagrando ao levar o bairro de onde vêm para o público do stand-up comedy, apostando em contar piadas sobre o dia a dia de quem vive nas periferias. 

Devido à pandemia, Edmar Colin está investindo em vídeos para o YouTube e TikTokLara Deus/Agência Mural

Durante a quarentena decretada devido à pandemia do novo coronavírus, as apresentações foram interrompidas, mas o isolamento fez muitos destes comediantes ganharem destaque com vídeos nas redes sociais. 

A paródia de Edmar Colin do viral “Eu nunca, eu já” adaptado à realidade dos operadores de telemarketing passou de 100 mil visualizações no TikTok, e 1.380 usuários gravaram vídeos com seu áudio na plataforma. 

“Uma das coisas que me levou a fazer comédia foi não ter essa representatividade do meu espaço. Antes do boom do Thiago Ventura, ninguém falava sobre pegar busão, levar marmita. Essas coisas do dia a dia de um pobre”, relata o comediante Felipe Kot, 27, morador de Taboão da Serra, também na Grande São Paulo. 

Desde os 16 anos, ele acompanha o stand-up norte-americano. Nesta época, os nacionais não costumavam o interessar, já que falavam de questões distantes da sua realidade.

“Os comediantes daqui falavam sobre quando a NET para de funcionar. Que NET, o quê? No Taboão nem chegava a NET”, relata, e completa: “Não tem como você gostar de uma coisa que não te representa. Tinha uma lacuna ali. Eu tinha alguma coisa a dizer. Queria falar para as pessoas que elas não estão passando por isso sozinhas”. 

Apesar de ter sido o mais engraçado da escola, Felipe só começou na comédia aos 24 anos, quando estava desiludido com o futuro e trabalhava em um estúdio de tatuagem, na Vila Madalena, na zona oeste da capital. Foi lá perto que encontrou um workshop de stand-up e gostou do gênero. 

Após o curso, descobriu um bar que dava oportunidade para quem estava começando, e se surpreendeu com o resultado. Desde outubro de 2019, a comédia é seu ganha-pão. 

Com a pandemia, Felipe não está mais se apresentando nos palcos. Entretanto, seu alcance cresceu: chegou a 47 mil seguidores no Instagram e acumula, no mínimo, 15 mil visualizações a cada vídeo que posta, contra a média de 5 mil no início do ano.

Além dos shows solo, Felipe Kot também faz parte do grupo GhettoLara Deus/Agência Mural

Cria de Osasco, na Grande São Paulo, Bruna Braga, 26, também conseguiu encontrar na comédia a ocupação principal. Antes, foi maquiadora em salão de beleza, vendedora de loja em shopping e já deu cursos de automaquiagem. 

“Trabalhava muito, ganhava pouco, mas sempre focada em poder seguir o que eu realmente queria um dia”, relata. 

Em 2016, deu o primeiro passo em direção ao objetivo: um curso de improviso. “Estava buscando algo que me permitisse tirar do papel o que eu precisava muito falar e achei no stand-up a fórmula ideal do que eu queria”, conta. Depois, se aprimorou com um curso do gênero. 

Após se destacar nos espetáculos e ser convidada para se apresentar em grupos de stand-up, em 2018, Bruna assinou um contrato com o canal de TV a cabo Comedy Central e lá participa de programas do gênero.

Apesar de não haver certeza sobre sua origem, um dos estilos que popularizou o stand-up comedy foram os menestréis norte-americanos que faziam shows de cunho racista no início do século 19. 

No Brasil, o gênero se popularizou quando ganhou a TV, no início dos anos 2000. Entre os nomes que tiveram repercussão na época, havia Danilo Gentili e Rafinha Bastos, atualmente conhecidos por um humor que rendeu processos após piadas de teor machista e racista. 

“As pessoas têm muita preguiça de dar luz também pra quem não é famoso. É mais fácil fazer ‘textão’ criticando o nome popular que não gosta, do que pagar R$ 10 num ingresso para ver alguém da nova geração fazendo algo diferente”, critica Bruna Braga. 

Bruna Braga é de Osasco e seu humor a levou ao canal de TV à cabo Comedy CentralLara Deus/Agência Mural

A geração que tem origem nas periferias reúne comediantes que repudiam esse estigma, usando o espaço no palco para usar de ironias e fazer críticas ao racismo, machismo, LGBTfobia e preconceito de classe. 

“Se o stand-up comedy fosse preconceituoso nós não teríamos espaço que temos”, endossa Edmar Colin, que considera haver uma resistência contra o gênero. 

Ele relata que seu grupo já foi barrado de conseguir se apresentar em alguns CEUs simplesmente por fazer este tipo de comédia. 

Edmar entrou de vez na comédia quando resolveu participar de um concurso de stand-up no Shopping Metrô Itaquera, na zona leste. 

A ocasião foi responsável por unir os humoristas do ‘7 por 7 Stand Up Comedy’, grupo que leva comédia de graça para as periferias há dois anos, se apresentando principalmente em CEUs (Centros Educacionais Unificados) da Prefeitura.

Bruna se define como membra “honorária” do grupo. Como comediante fixa, ela faz parte do ‘No Kahlo Comedy Show’, grupo de humor só de mulheres cujo nome faz referência à artista mexicana Frida Kahlo.

Junto com Felipe Kot, ela também fez parte do ‘Coisa de Preto’, primeiro grupo de stand-up comedy black no Brasil.

Também com Yuri, Felipe Kot criou o ‘Guetto’, com o intuito de fazer humor contando histórias das periferias do País. A maioria das apresentações acontece em São Paulo, mas tem comediantes com origem em Salvador (BA), Rio de Janeiro (RJ) e São José dos Campos (SP).  

ONDE ASSISTIR STAND-UP NAS PERIFERIAS

Antes de começar a carreira, Edmar Colin não costumava assistir stand-up comedy na própria região onde mora. Já Bruna Braga lembra de ter frequentado shows na sua cidade.

“Dos poucos shows que vi antes de começar na comédia, quase todos foram em Osasco. Aqui já teve uma cena bem forte, hoje em dia que está mais escasso. A galera se joga mais pro centro”, avalia a comediante.

Felipe Kot também não lembra de ter frequentado muitos espaços culturais em Taboão da Serra, mas hoje em dia se apresenta em um espaço próximo: o Açaí 46, no Campo Limpo, Zona Sul da capital.

“Aqui no Taboão, eu me apresentei duas vezes só, mas foi algo pequeno, até porque não tem uma noite de nome aqui. É algo bem pequeno, então é é bem difícil me apresentar”.

Lara Deus

Jornalista, correspondente de Pirituba desde 2017. Apaixonada por rap nacional, literatura periférica e toda cultura que é produzida por aqui.

Pirituba, São Paulo

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