APOIE A AGÊNCIA MURAL

Colabore com o nosso jornalismo independente feito pelas e para as periferias.

DOE MENSALMENTE PELO CATARSE

OU

MANDE UM PIX qrcode

Escaneie o qr code ou use a Chave pix:

30.200.721/0001-06

Agência de Jornalismo das periferias
Pode crer

Ter um pai presente é um direito, não um privilégio

Correspondente fala sobre a relação com o pai e de como deveria ser um direito ter o pai presente

Image

Por: Tatiane Araújo

Opinião

Publicado em 25.04.2022 | 19:40 | Alterado em 25.04.2022 | 19:40

Nos últimos dias a minha timeline no Twitter só discutia um assunto: o privilégio de ter pai presente. É muito comum esse assunto surgir nos fluxos de tweets e, desta vez, o motivo foi o post de uma mulher que mostrava alguns potes de sorvetes comprados pelo pai dela para recuperação de uma cirurgia.

Tenho um perfil no Twitter desde 2011, e sinto como se fosse um crime por lá comentar os gestos de carinho da figura paterna. Sinto que se contasse por lá tudo que meu pai faz e fez por mim, eu cairia na malha fina de julgamento das pessoas.

Essa onda de julgamentos sobre quem tem pai presente pode ser explicada, em parte, pelo grande número de crianças que cresceram sem conhecer o pai no Brasil. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estática) 12 milhões de mães chefiam os lares, sozinhas e, destas, 57% vivem abaixo da linha da pobreza. 

Além disso, segundo o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) até 2013 havia 5,5 milhões de crianças brasileiras sem o nome do pai na certidão de nascimento. 

Uma das minhas irmãs costumava dizer que sendo nós, mulheres pretas e pobres, o único privilégio que não nos foi tirado, é o pai presente. Concordo em parte, para mim pai presente é um direito e não um privilégio.

Meu pai, Cosmo dos Santos, tem 56 anos, nasceu na da Vila Leopoldina, na zona oeste de São Paulo, mas foi criado na periferia da zona norte, em Taipas. Perdeu o pai ainda na infância, mas não se recorda a idade exatamente. 

Eu cresci sem saber nada sobre meu avô paterno. Em casa, meu pai não comentava nada e por muito tempo acreditei que ele nem conhecia o mesmo.

Outro dia, questionei: “Pai, como foi a sua infância?” Só ouvi, “Foi difícil”. Tentei estender o assunto e perguntei sobre o meu avô, ele visualizou a minha mensagem e não me respondeu mais. Após insistir, ele me contou que o pai dele morreu dormindo.

A lembrança que ele tinha era do pai em um bar que tinha no quintal de casa. Além disso, ele recorda de uma vez que foi repreendido por pegar uma bala do estabelecimento. 

Foto da família nos anos 1990 @Arquivo Pessoal

Suponho que crescer apenas com a mãe levou meu pai querer ser bom para nós e estar presente. Ele que é pai de três meninas, nos criou para estudar e ser alguém melhor na vida, como ele sempre nos diz.

Ele em geral não sabe demonstrar sentimentos e é sempre rude com as palavras, por outro lado, demonstra afeto com alimento, adora cozinhar e nos ver bem alimentadas.

Aliás, alimentação em casa sempre foi farta. Meus pais passaram por diversas necessidades na infância e se tem uma coisa que meu pai sempre priorizou é alimentação – ele vai toda semana na feira e o congelador da casa dele está sempre cheio.

Meu pai começou a trabalhar informalmente ainda moloque para ajudar no sustento da casa. Aos 16 anos, conseguiu o primeiro emprego de carteira assinada em uma metalúrgica. Também trabalhou como office boy e costuma dizer que graças a esse trabalho conheceu a cidade toda. Aos 27 anos, se tornou funcionário público. 

Já com uma filha, ele lembra que em 1993 não recebeu os três primeiros salários e minha mãe que sustentou a casa nesse período. Nasci, dois anos depois e a filha caçula na sequência.  

Minha mãe começou a trabalhar aos 13 anos com serviços domésticos e aos 17, após conhecer meu pai, ela conseguiu também o primeiro emprego de carteira assinada na metalúrgica por indicação dele. Sempre trabalhou como auxiliar de limpeza. 

Ela nos ensinou a valorizar e respeitar o nosso pai, não importa o que aconteça. Acredito que isso venha pela falta do pai dela – ela queria ter dito mais tempo com ele. Natural do Paraná, ela conviveu com o pai até os 11 anos, quando perdeu ele por uma fatalidade na cidade de Mauá, na Grande São Paulo. Após a morte dele, ela, minha avó e mais seis irmãos se mudaram para Taipas. 

Recordo-me de sempre ouvir ela comentando como a vida dela e dos irmãos ficou mais difícil depois que o pai faleceu. Deste avô, herdei nome, alguns traços genéticos e ouvi muitas histórias.

Agora que já não moro mais com meu pai, recebo a visita dele em datas comemorativas, como em meu aniversário, onde ele prepara o almoço. Recebo marmitas com as minhas comidas favoritas e sinto falta de poder jantar com ele diariamente.

Nem cabe aqui comentar o que ele fez e faz por mim, mas, meu sentimento é de gratidão, enquanto escrevo isso. Obrigada Pai!

Tatiane Araújo

Jornalista apaixonada por contar e ouvir histórias, ama a rua, gatos, música e produções audiovisuais. Correspondente de Barueri desde 2021.

Republique

A Agência Mural de Jornalismo das Periferias, uma organização sem fins lucrativos, tem como missão reduzir as lacunas de informação sobre as periferias da Grande São Paulo. Portanto queremos que nossas reportagens alcancem outras e novas audiências.

Se você quer saber como republicar nosso conteúdo, seja ele texto, foto, arte, vídeo, áudio, no seu meio, escreva pra gente.

Envie uma mensagem para [email protected]

Reportar erro

Quer informar a nossa redação sobre algum erro nesta matéria? Preencha o formulário abaixo.