Magno Borges/ Agência Mural
Por: Jacqueline Maria da Silva
Notícia
Publicado em 30.04.2026 | 17:32 | Alterado em 02.05.2026 | 14:40
É entre uma demanda e outra do trabalho como analista de marketing que Leonardo de Freitas Costa, 21, faz a sessão de terapia, o treino na academia, aulas de idiomas e passa mais tempo com a família. Ele afirma que ganhou qualidade de vida depois que trocou o regime CLT por PJ (Pessoa Jurídica). “Consigo fazer minhas coisas sem ter que ficar pedindo autorização para alguém”.
“O ponto fraco do CLT é ficar engessado. A vida gira em torno do trabalho. A gente passa pouquíssimas horas acordados e acabam sendo totalmente dedicadas ao trabalho. Principalmente quando é presencial”, avalia o jovem do Jardim Pirituba, no distrito com o mesmo nome, na zona oeste de São Paulo.

Uma das facilidades de ser PJ para Leonardo é poder trabalhar de qualquer lugar @Arquivo pessoal
Do outro lado, a falta de horários definidos, atraso no pagamento e ausência de benefícios incentivaram a estudante de marketing Maria Eduarda Jaconete Silva, 25, a fazer o caminho oposto de Leonardo.
Moradora do Capão Redondo, zona sul da capital, ela trocou um emprego PJ em sua área de formação para ser recepcionista de um coworking com carteira assinada. A segurança financeira permite pagar o curso universitário e se planejar para realizar o sonho de sair de casa para morar com o irmão.
“No CLT, você pode até fazer hora extra, mas fica tudo registrado. Eu gosto bastante da sensação de que se der errado, vou ter garantias, como o FGTS e o seguro de desemprego, com tempo para me recolocar no mercado”, avalia.

Maria Eduarda busca oportunidade da área do marketing com carteira assinada, onde as maiores oportunidades são como PJ @Acervo Pessoal
A jovem Nicolly Melinna de Oliveira Barbosa, 19, concorda. Assistente de uma ONG de educação política e formada em gestão pública, ela é defensora do modelo CLT, pois acredita ter sido um marco histórico importante no campo dos direitos trabalhistas no Brasil.
“Eu adoro o CLT porque sei exatamente meu salário, tenho um horário definido por lei para trabalhar, recolho para o INSS e tenho benefícios, como vale alimentação”, acrescenta a moradora do Cantagalo, em Pirituba, zona oeste da capital paulista.
Nicolly e Eduarda fazem parte dos 69% de jovens brasileiros que preferem trabalhar no modelo CLT, segundo um levantamento da empresa de pesquisas Nexus, realizada em parceria com a Demà, organização especialista em aprendizagem.
Em contrapartida, ter um trabalho informal (sem registro em carteira) e sem rotina é a preferência de 29% dos entrevistados. Outros 2% não souberam ou não responderam. A pesquisa ouviu 2.016 jovens entre 14 e 29 anos e foi publicada em dezembro de 2025.
A CLT (Consolidação das Lei do Trabalho) é um conjunto de normas que regem as relações de trabalho entre empresa e empregador. A lei foi sancionada em 1943 pelo então presidente Getúlio Vargas, garantindo direitos aos trabalhadores com carteira assinada, como férias, 13º e seguro desemprego.
A chamada “pejotização”, ou crescimento do número de trabalhadores pessoa jurídica, que emitem nota para receber, sem relação trabalhista definida com a empresa, ganhou força com a Reforma Trabalhista de 2017. Este modelo de não garante direitos trabalhistas ao contratado.
Embora entusiasta do modelo PJ, Leonardo acredita que vive uma situação diferente da maioria dos jovens das quebradas. “Pelo fato de eu ter a segurança de morar com meus pais, não precisar colocar comida na mesa, não precisar pagar um aluguel ou a faculdade. Eu assumi os ‘riscos’ [da instabilidade] por conta dos ‘privilégios’ que eu tive”, comenta.
O que Leonardo chama de “privilégios”, Nicolly entende como direitos, por exemplo, ter moradia, alimentação e tempo de se dedicar aos estudos. Em geral, jovens com melhor condição financeira têm mais opções e mais chance de se arriscarem em empregos autônomos ou no empreendedorismo.
“Com meu poder aquisitivo, não consigo ter reserva de grana para trabalhar em um regime em que a qualquer momento posso ser dispensada e ficar com uma mão na frente e outra atrás”
Maria Eduarda.
Por isso, as jovens concordam que a condição socioeconômica, a raça e o gênero são fatores que pesam na hora de escolher o modelo de trabalho. Na opinião delas, para muitos, o CLT não é escolha, mas uma necessidade.
Do outro lado, o anseio por flexibilidade e até por melhores condições de trabalho no presente leva jovens periféricos a optarem pelo modelo PJ. Parte deles, inclusive, entende que é cedo para pensar em aposentadoria, sobretudo após a última reforma trabalhista, que flexibilizou o modelo de trabalho, tendo como uma das consequências a diminuição na contribuição previdenciária.

“Eu adoro o CLT, dos benefícios, de saber que terei aposentadoria pelo INSS”, comenta Nicolly, defensora do modelo @Arquivo pessoal
“O jovem, principalmente o periférico, tem pressa de ganhar dinheiro. Então, se você pega um CLT que vai te pagar R$1.500 e um PJ R$2.500, são mil reais a mais no mês. Isso faz muita diferença no dia a dia”, comenta Wesla Monteiro, consultora da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão do MEC (Ministério da Educação).
CLT ou PJ? Este é um assunto que vai longe e por si só gera polêmica nas rodas de conversa e nas redes sociais – que viraram palco para a comparação entre modelos de trabalho e para valorização do empreendedorismo.
Gustavo Marques Paes, 20, diz que não liga para esses debates. Ele se adequa a suas necessidades, com o sonho da ascensão social. Desde os 16 anos, o morador de Cidade Júlia, zona sul de São Paulo, faz bicos conciliados com os estudos.
Quando terminou o ensino médio, conseguiu trabalho como promotor de vendas registrado em carteira, onde está até hoje. Uma jornada de oito horas diárias, com a qual custeia o aluguel e a alimentação.
Mas para comprar sua moto e sua casa própria, ele faz outros trabalhos como autônomo: foi entregador por aplicativo e vendedor de alimentos em eventos. São duplas ou triplas jornadas, que impactam na vida social e na possibilidade de aprimoramento profissional.
Hoje, ele mantém uma loja virtual de acessórios e roupas e sonha alcançar a liberdade financeira com seu negócio, quando poderá ser seu “próprio patrão”, como diz.
“Muitos criticam, falam que é arriscado, que eu não vou ter um dinheiro fixo, que é melhor continuar no CLT… Prefiro seguir o que eu penso. Quero me aposentar com o dinheiro da minha empresa, tendo uma renda fixa”.
Gustavo Marques Paes
Wesla avalia que há um ataque de influencers nas redes sociais aos direitos conquistados pelo CLT – com muita luta. É uma narrativa que pode influenciar os jovens da geração Z, nativos das redes sociais, com necessidade de dinheiro rápido e descrença na forma como o governo tem lidado com questões trabalhistas.
“O escândalo do INSS é super latente, gerando questionamentos como ‘por que vou deixar meu dinheiro lá? Nunca mais vou receber esse dinheiro?’”, exemplifica Wesla, que também é conselheira deliberativa do Movimento Mapa da Educação.
Por outro lado, influenciadores nas redes sociais reforçam a ideia de que quem trabalha como pessoa jurídica é um “empreendedor”, o “dono do seu próprio negócio”. Contudo, o PJ não é necessariamente um empresário. Grande parte das vezes é uma pessoa jurídica com cadastro formal na Receita Federal, que permite prestação de serviços, mas sem capital de giro, como as grandes empresas.
Wesla defende que não se deve fazer juízo de valor sobre as escolhas dos jovens da geração Z, mas deixar clara as diferenças de cada modelo de trabalho. Para além disso, ela defende melhorias e ampliações na CLT, com uma reforma que fortaleça esse modelo de trabalho.
“Do jeito que ela está configurada hoje, vai reduzir os direitos trabalhistas para poucos e a maior parte da população vai ficar mais precarizada. Não adianta ter vários benefícios, mas só para 10% da população. A gente precisa que a maior parte dos trabalhadores estejam dentro desse bolo”, conclui.
Jornalista, vencedora de prêmios de jornalismo como MOL, SEBRAE, SIP. Gosta de falar sobre temas diversos e acredita do jornalismo como ferramenta para tornar o planeta melhor.
A Agência Mural de Jornalismo das Periferias, uma organização sem fins lucrativos, tem como missão reduzir as lacunas de informação sobre as periferias da Grande São Paulo. Portanto queremos que nossas reportagens alcancem outras e novas audiências.
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