Tradição de decoração da Copa atravessa décadas na Grande São Paulo

Apesar de poucas ruas decoradas na Freguesia do Ó, na zona norte, um condomínio se destaca por ir contra o desânimo para a Copa do Mundo de 2018. No Residencial Parque dos Pássaros, na rua da Bica, o planejamento para a festa começou ainda em 2016, por causa de um costume.

Há 20 anos, o local se destaca nos mundiais e se tornou conhecido como o prédio do bandeirão. Desde 1998, eles produzem uma bandeira de 60 metros de altura. Hasteada entre as torres do condomínio, pode ser vista até na Marginal Tietê, localizada a mais de 2 quilômetros dos edifícios. 

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O condomínio é um exemplo da união de moradores de várias regiões da Grande São Paulo, que coletivamente fizeram as decorações para o período. A Copa começou nesta sexta-feira (14) e a estreia do Brasil será no domingo (17), às 15h, contra a Suiça. 

Bandeirão da Copa de 2010 (Acervo Pessoal)

A comissão organizadora prepara uma festa com comidas, bebidas e telão para transmitir o jogo de estreia do Brasil.

“Começamos a nos reunir com o conselho do condomínio em 2016, pois tudo deve ser aprovado com antecedência por eles. Além disso, precisamos decidir como será o bandeirão, qual será a cor e o desenho”, relata o engenheiro mecânico Felipe Manso, 23.

O dinheiro para os preparativos começou a ser arrecadado em março de 2017. Todo valor foi revertido para a confecção do bandeirão e também para a execução da festa.

A festa, que começa às 8h, vai reunir moradores do condomínio e de todo bairro. A previsão da comissão é de que cerca de 500 pessoas compareçam no condomínio no domingo, data na qual os moradores vão descobrir, finalmente, como será o “design” do bandeirão deste ano, segredo que segue guardado. “É surpresa”.

Moradores de Sapopemba na organização da pintura da rua (Indira Facho/Divulgação)

Em Sapopemba, na zona leste, também houve uma organização coletiva na rua João Coperário, mas motivada sobretudo pelo metalúrgico Francisco Czusz, 56, otimista com a seleção.

“Me sinto feliz fazendo isso com as pessoas da rua. É um prazer”, diz. Sobre a organização da decoração, ele define que é mais fácil as pessoas ajudarem com dinheiro do que com a mão de obra, mas isso não faz com que ele perca o interesse. 

O interesse dele veio na primeira Copa que ouviu, em 1978, pelo rádio. Também lembra com saudade do Mundial de 1994. “Eu acho que agora o Brasil já é hexa, com Neymar sendo artilheiro e melhor jogador da Copa”, aposta.

Com a aproximação do torneio, algumas vias que estavam com um clima pouco festivo começaram a ter ruas enfeitadas.

O canarinho solitário no jardim Santo André (Fabiana Lima/Agência Mural)

O CANARINHO DO JARDIM SANTO ANDRÉ

No Bairro Jardim Santo André, em Santo André, na Grande São Paulo, a tradição foi mantida pelo marceneiro Fábio Florencio da Silva, 38. 

“Senti que todos estavam e estão meio que apagados, sem foco por causa da copa, ou desmotivados, então, como tradição e eu gosto de fazer desenhos, resolvi pelo menos fazer um na frente de casa”, relata.

Ele escolheu o Zé Carioca por ser um personagem tradicional. Também por ser palmeirense, que tem como mascote um periquito. Sua esposa, a cabeleireira Helena Gonçalves da Costa nem sabia dos dotes dele para desenho.

A tradição o acompanha desde a infância, época em que ele morava no Bairro Eldorado, em Diadema. Todas as crianças se juntavam para pintar duas ruas, com desenhos bem elaborados. Hoje, esse próprio bairro tem apenas uma pintura.

Os irmãos Evellyn, Ana Kettney e David finalizam cordão com rabiolas na vila São Leopoldo (Jariza Rugiano/Agência Mural)

Ainda no ABC, quem passa pela rua Aníbal Machado, na Vila São Leopoldo, em São Bernardo do Campo, encontra guias pintadas, rabiolas em verde e amarelo.

A iniciativa foi do aposentado Ananias Antonio de Araújo, 78. “É uma forma de animar nossos vizinhos de rua para o campeonato”.

Ele estima gastos de R$ 85 com a decoração. Outros moradores ajudaram fazendo as bandeirinhas no estilo de festa Junina, para aproveitar a decoração para a confraternização do dia 23 de junho.

Os irmãos Ana Kettney Oliveira da Silva, 18, Evellyn Oliveira dos Santos, 15, e Briayan David Oliveira Eusébio, 9, ficaram responsáveis por essa parte. “A linha que elas pegaram para pendurar as bandeiras foi a mesma que eu usava pra soltar minha pipa. Então eu quis participar também”, diz o estudante David.

No bairro Ferrazópolis a rua com o nome  de santa Nossa Senhora da boa Viagem também teve uma vaquinha entre os moradores para comprar tintas. “Sempre temos esse costume de pintar a rua na Copa do Mundo, infelizmente  não  tem mais a repercussão de antigamente, mas nós não deixamos morrer isso”, diz o estudante Lucas Guimarães, 21.

Em Mairiporã, decoração na rua Felicio Felix do Prado (Humberto Muler/Agência Mural)

Do outro lado da Grande São Paulo, em Carapicuíba, os moradores da rua Rio Jordão no bairro Jardim Ângela Maria juntaram R$ 800 para o serviço. “Fizemos a arrecadação de dinheiro com os moradores e eu fui atrás de alguns empresários para a doação”, diz o auxiliar administrativo Josimar de Souza Santos, 31.

“O intuito é dar um dia de lazer para as crianças sem o risco dos carros e motos que trafegam. Reunir  toda a vizinhança que hoje são pais e no passado faziam a mesma coisa nos anos de Copa”, comenta Santos.

Fabiana Lima, Jariza Rugiano e Kátia Flora,  Lucas Veloso e Tayla Pinoti são correspondentes de Santo André, São Bernardo do Campo, Guaianases e Freguesia do Ó