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Vacinação contra Covid-19: moradores recorrem a outras cidades para conseguir dose

Ao menos 1 milhão de doses aplicadas na Grande São Paulo foram em moradores fora do município de residência
Vacinação na escola Odario em Palmeiras, na periferia de Suzano | Divulgação/Prefeitura de Suzano

Das doses da vacina contra a Covid-19 aplicadas em Barueri, na Grande São Paulo, ao menos 5.214 foram em moradores da cidade vizinha de Osasco. Os osasquenses, por outro lado, aplicaram 5.011 doses em habitantes de Carapicuíba, outro município da região oeste. 

Os carapicuibanos também apoiaram os vizinhos e deram 2.520 doses para cidadãos osasquenses e 1.408 em baruerienses. 

Essa espécie de solidariedade na verdade retrata a situação da vacinação no país. Com a dificuldade em encontrar doses perto de casa, muitos decidiram se distanciar para encontrar uma vacina na cidade ao lado. 

Dados do MonitoraCovid-19 da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) indicam que 15% das doses aplicadas das vacinas foram em pessoas que estavam fora do município de residência. O relatório publicado em 22 de junho se baseou nas informações do Open DataSus do Governo Federal. 

Essa situação levou a que pessoas percorressem até 252 km em média para conseguir se proteger do coronavírus. 

A Agência Mural compilou as informações com relação às cidades da Grande São Paulo. Os 39 municípios aplicaram 1,2 milhão de vacinas em quem estava fora do município onde mora. Em contrapartida, elas aplicaram 1 milhão de imunizantes em cidadãos de outras regiões.  

A diferença é por conta de pessoas que vieram de outros estados ou do interior se vacinarem na região. Contudo, esses são os dados oficiais, mas é possível que o número seja maior pois há casos de quem se imunizou apresentando um comprovante de endereço de algum familiar.

O resultado desse deslocamento para se imunizar é que pode causar problemas no plano de imunização. “Um grande volume de doses é aplicado em municípios vizinhos, como é comum em regiões metropolitanas, o que evidencia a importância das redes municipais”, diz o estudo.

“Da mesma maneira, alguns municípios da mesma região metropolitana podem ser sobrecarregados pela procura por vacinas originadas de municípios vizinhos.” 

O maior deslocamento no Brasil foi entre Guarulhos e São Paulo - as duas cidades mais populosas da região metropolitana. 100 mil doses aplicadas em guarulhenses foram em unidades de saúde da capital paulista. Por outro lado, Guarulhos aplicou 38 mil imunizantes em habitantes de outros municípios. 

Vacinação em Guarulhos, na Grande SP. Quase 100 mil moradores da cidade se vacinaram em São Paulo | Divulgação

A cidade de São Paulo recebeu moradores não só da região metropolitana, como também do interior e de outros estados, totalizando 817 mil doses aplicadas em quem não vivia na cidade. 

Uma das vacinadas na capital foi a chefe de cozinha Maria Clara Deolminda, 61, moradora de Cotia. “Tomei em São Paulo porque em Cotia eu tive uma dificuldade para marcar, por motivo também de horário.” 

Durante a semana, ela trabalha e dorme em São Paulo e teria de se imunizar no fim de semana, caso fosse na cidade onde mora. “A primeira vez que abriu não tinha mais dose, a segunda vez que marcou eu não consegui ir e por isso tomei em São Paulo e foi super tranquilo”, relatou.

O levantamento aponta ainda que se observou uma maior taxa de procura a partir de maio, período em que começou a antecipação do calendário de vacinação. 

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Essa busca por vacinas longe revela “falhas do PNI (Plano Nacional de Imunização) em aplicar doses de imunizantes no município de residência e a falta de critérios padronizados para a vacinação de grupos específicos”, diz o estudo da Fiocruz. 

Um exemplo é que com cada cidade adotando um critério, há moradores que deixaram o local de residência para ir em um município onde a idade de vacinação já havia chegado. 

Osasco e Carapicuíba, por exemplo, estão atualmente vacinando pessoas com 38 e 37 anos, respectivamente, mas já tiveram a diferença de até três anos. Em Guarulhos, a faixa sendo vacinada é de 34 anos, enquanto em São Bernardo, 39.

“A escassez de doses no início do processo de vacinação e os diferentes calendários vacinais e grupos prioritários entre os estados e municípios podem, parcialmente, explicar esta procura por doses em outros municípios”, ressalta o texto. 

Questionada, a Secretaria de Estado da Saúde diz que distribui as doses com base no calendário estadual e que “orienta a população para tomar preferencialmente as duas doses da vacina no mesmo local, próximo ao local de residência”.

Porém, diz que “cabe aos municípios a execução da campanha, com organização e distribuição de quantitativos na rede de saúde, bem como aplicação das doses na população”.

Já o Ministério da Saúde afirma que a distribuição das doses é feita em etapas e segue critérios técnicos de proporcionalidade do público-alvo a ser imunizado em cada estado, de acordo com a estimativa de população dos grupos prioritários. 

Não comentou a afirmação de falhas no plano e sobre a falta de doses no começo da campanha. 

TAXA DE VACINAÇÃO

O fato de haver pessoas de outras cidades sendo vacinadas complica também a contabilização dos imunizantes em cada município e medir como a distribuição pode ter sido desigual no estado

São Caetano é a cidade que imunizou a maior parte da população oficialmente com 54% dos moradores. Contudo, ao menos 17 mil doses foram em quem não mora na cidade. Ao mesmo tempo, sul-caetanenses tiveram 19 mil vacinas aplicadas em outros municípios.

Na capital, a situação é mais volumosa. São Paulo chegou oficialmente a 48% da população vacinada com ao menos uma dose. No entanto, como 800 mil doses foram para outros municípios, essa taxa pode ser inferior.

Em Rio Grande da Serra, apenas 24% dos moradores haviam tomado uma dose até semana passada. Porém, quase 3 mil habitantes saíram da cidade para se imunizar. 

No começo da campanha, a cidade de Itaquaquecetuba, por exemplo, era o município com menos doses aplicadas no estado proporcionalmente e a gestão municipal questionava a falta de doses. Porém, quase 20 mi moradores dali se vacinaram em outras cidades. 

Paulo Talarico

Editor-chefe de jornalismo, cofundador e correspondente de Osasco desde 2011. Formado em jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu, tem pós-graduação em jornalismo esportivo e curso técnico de locução para rádio e TV. Atualmente, estuda História na Universidade de São Paulo. Gosta de café, Osasco, livros, futebol e cinema.

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