• Informações apuradas pela Agência Mural por meio de dados e entrevistas, buscando ouvir todos os lados envolvidos e seguindo nossa linha editorial.
    Notícia

A quebrada é cult: podcast reúne pensadores das periferias para conversar com a juventude

Nomes conhecidos na internet integram o podcast que busca falar de temas como filosofia e o funk

Um “bonde” que reúne estudantes, professores e pesquisadores das periferias para falar de história, arte, cultura, política e qualquer outro tema de interesse, com uma linguagem descomplicada, usando referências que vão da literatura tradicional ao funk. 

É assim que resumidamente se apresenta o “Quebrada Cult”, um podcast e canal que reúne sete jovens de diferentes periferias brasileiras e diferentes formações. 

Desde 28 de abril, eles deram início ao programa para dialogar principalmente com a juventude periférica negra, passeando por diferentes áreas do conhecimento. 

Os programas já abordaram temas como políticas públicas para área da cultura e alimentação na periferia. Gravado todas as sextas-feiras à noite em lives no YouTube, o material é editado e fica disponível no Spotify

Além disso, o “Quebrada Cult” tem presença nas redes sociais, como Twitter e Instagram (nessa, já são mais de 7.000 seguidores), onde dialogam com os ouvintes e, além de divulgar o projeto, fazem indicações de músicas, livros e produções visuais.

Apesar do podcast ser relativamente novo, os participantes já atuavam nas redes sociais, compartilhando vivências e buscando trazer uma visibilidade positiva para os moradores das periferias.

Ilustração dos participantes da Quebrada Cult | Lucas Andrade

O grupo é formado pela professora e jornalista Fernanda Souza, 26; Thiago Torres, 21, o “Chavoso da USP”; o estudante Vinicius Santana, 20, de Osasco, na Grande São Paulo; Layane Gabriele, 22, e Marcelo Henrique Silva Marques, 19, que vivem na periferia nas cidades de Campinas e Paulínia, respectivamente, no interior paulista; e Matheus Passos, 19, de Lauro de Freitas (BA), enquanto de Manaus (AM) fala Dayrel Teixeira, 22, criador da página Funkeiros Cults.

O grupo se conheceu em momentos diferentes. Alguns já tinham relações pessoais e outros começaram a conversar pela internet. Ao longo de 2020 seguiram mantendo contato e começaram a fazer lives, vídeos e outros trabalhos juntos. 

Decidiram começar o podcast, observando a alta demanda desse tipo de conteúdo, além da vivência de todos eles, marcada pelas dificuldades de sair das periferias para as universidades.

QUEM É QUEM NO BONDE 

Nascido e criado na Brasilândia, na zona norte de São Paulo, Thiago é dono de um perfil no Instagram com mais de 129 mil seguidores. Estudante de Ciências Sociais, aos 17 anos, ele foi a primeira pessoa negra da família a entrar em uma universidade pública. 

Ficou conhecido depois que um texto seu expondo os choques de realidade que sentiu ao entrar na universidade viralizou: se tornou o Chavoso da USP. 

Também da periferia de São Paulo, mas do Grajaú, na zona sul, Fernanda Souza, 26 , é professora, jornalista e diretora criativa. Dentre outros trabalhos, desenvolve o registro e relatos de vivências da cena do funk. 

Ela conta que ingressar em um cursinho popular na época do ensino médio fez com que tivesse um aprofundamento político, consciência racial e de classe. 

“Consegui uma bolsa pelo ProUni no Mackenzie para cursar letras. Foram os cinco piores e melhores anos da minha vida, pois por mais que ali eu conseguisse acesso, também sofria, pois o racismo e preconceito são altos”, relembra.

1 / 7
Imagem da galeria
Thiago é morador da Brasilândia e o Chavoso da USP
2 / 7
Imagem da galeria
Professora e jornalista, Fernanda é do Grajaú, na zona sul de SP
3 / 7
Imagem da galeria
Matheus vive em Lauro de Freitas, na Bahia
4 / 7
Imagem da galeria
Layne é estudante da Unicamp e moradora da periferia de Campinas
5 / 7
Imagem da galeria
Também do interior de SP, Marcelo vive em Paulínia
6 / 7
Imagem da galeria
O estudante Vinicius é de Osasco, na Grande SP
7 / 7
Imagem da galeria
Dayrel é de Manaus e criador do Funkeiros Cult

Passar com situações de preconceito com seu estilo e o lugar de onde veio foi o que motivou Dayrel Teixeira, 22, a criar a página e grupo Funkeiros Cults

O perfil já tem 239 mil seguidores no Instagram e ficou conhecido por trazer imagens de jovens com estética do funk lendo livros, sempre com uma linguagem simplificada. Teixeira conta que já morou em vários lugares de Manaus, mas principalmente no bairro periférico Compensa. 

Matheus Passos, 19, natural de Lauro de Freitas, na região metropolitana de Salvador, estuda história na federal da Bahia. Filho de mãe solo, conta que sempre foi incentivado por ela a ler e estudar muito, o que o possibilitou ainda criança conseguir uma bolsa de estudos em um colégio particular.

“Minha especialidade é em religiões e falo sobre elas e outras coisas no meu Instagram, sempre de uma forma simples e direta. Tenho também uma página que alinha alguns dos conhecimentos da faculdade com vivências de rua, relacionados a cultura hip hop”, conta. 

VEJA TAMBÉM:
Por que aglomero? Jovens relatam por que estiveram em festas durante a pandemia
Quebradas evangélicas: SP tem uma nova igreja aberta por semana, e templos se espalham pelas periferias

Morador de Osasco, na região oeste da Grande São Paulo, Vinicius Santana, 20, também foi bolsista em uma escola particular. Filho de migrantes baianos, ele relembra que era um dos poucos alunos pretos da escola, o que fez com que começasse a formar uma consciência de classe e de raça.

Atualmente estuda filosofia na Unicamp, onde desenvolve pesquisa sobre História da Filosofia Antiga Ocidental. Motivado por um professor, atualmente grava vídeos falando sobre o assunto no Instagram e tem mais de 12 mil seguidores.

Também estudante da Unicamp, Layane Gabriele, 22, mora no bairro Campo Belo, mas nasceu em Vida Nova, ambos bairros periféricos da cidade de Campinas. Ela conta que sempre estudou em escolas públicas e, diferentemente de alguns colegas, não fez cursinho preparatório. 

“Boa parte dos conhecimentos que tinha antes de ir para a universidade foram apreendidos na rua, através de músicas, shows, eventos, filmes, trocação de ideia. Esses conhecimentos foram e são responsáveis por eu estar onde estou. Foi por meio deles que entendi o que significava o meu corpo no mundo”, relata. 

Atualmente ela é formada no Programa de Formação Interdisciplinar Superior da Unicamp e também cursa letras, atuando com educação popular e desenvolvimento de pesquisa.

O último integrante do grupo é o estudante de história Marcelo Henrique Silva Marques, 19. Morador de Paulínia, na região metropolitana de Campinas, também estudou em escolas públicas e atualmente é bolsista em uma universidade particular. 

Como hobby, começou a fazer vídeos para publicar na internet, até que um deles viralizou. Atualmente,  é dono de um canal e de um página do Instagram com mais de 37 mil seguidores, onde fala sobre ciências humanas de uma forma descomplicada.

 

‘A JULIET NÃO NOS IMPEDE DE VER NOVOS HORIZONTES’

O acesso ao ensino superior é algo presente na trajetória dos integrantes  do podcast. De acordo com o grupo, esse é um lugar importante para produzir conhecimento inclusive sobre as próprias periferias. Porém, salientam que não é apenas na universidade onde isso é possível. 

“O conhecimento acadêmico é um conhecimento, mas não o único. Nossas vivências, experiências e trocas de ideia são fontes de conhecimento também. Não precisa ser acadêmico para ser inteligente. Conhecimento se constrói em todo lugar”, defendem.

Durante os episódios do podcast, os sete apresentadores se revezam. Além deles, há mais três pessoas envolvidas na produção, edição e distribuição do “Quebrada Cult”. Cada episódio tem um tema específico e há também alguns com entrevistas com convidados. 

“A ideia é que a gente possa sempre trazer um tema diferente, abordando desde questões sérias como racismo e violência policial até filmes de comédia favoritos de cada um.” 

O projeto começou com investimento próprio dos participantes, mas atualmente possui uma conta digital para que interessados possam ajudar a manter o projeto em pé, com doações. 

Com a visibilidade que veio a partir da internet, o “bonde” da “Quebrada Cult” quer quebrar os estereótipos ainda presentes sobre os moradores das periferias. 

“Mostramos às pessoas iguais a nós que podemos ser professores e doutores, mesmo andando de camisa de time, de corrente, de shortinho e rebolando no baile. Uma frase legal para resumir isso é: ‘A Juliet não nos impede de ver novos horizontes’.”

Ana Beatriz Felicio

Jornalista e correspondente de Carapicuíba desde 2018. Curiosa, vive com a cabeça no mundo da lua. Gosta de conhecer pessoas e descobrir o que as motiva a acordar todos os dias. Apaixonada por novas aventuras, histórias, gostos e lugares. É daquelas que está sempre viajando, quando não fisicamente, com a ajuda de algum livro de fantasia ou de um bom filme.

Carapicuíba

Comentários