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Agência de Jornalismo das periferias

Por: Nathália Nunes

Notícia

Publicado em 04.03.2022 | 16:22 | Alterado em 07.03.2022 | 10:25

Lauremar Roque de Souza Dias já estava com 55 anos quando teve a oportunidade de cursar o ensino superior. Contrariando as estatísticas, o homem, que é preto e periférico, se tornou aos 61 anos o quarto membro da família a se formar em direito, juntando-se ao irmão e dois sobrinhos.

Natural de Montes Claros, em Minas Gerais, o bacharel em direito mora em Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo, onde é casado e pai de quatro filhos. Antes da graduação, já trabalhou como fiscal de caixa, vigia de prédio e até serviu no Exército.

“Minha mãe sempre cobrou da gente que, para você mudar de vida, tem que ter Deus no coração e os estudos. E essa vontade sempre foi minha”, conta o advogado recém-graduado.

Apesar de ter o percurso escolar atrasado pela necessidade de trabalhar para sustentar a família – inclusive, ele faz questão de enfatizar que concluiu o ensino médio por meio do EJA (Educação para Jovens e Adultos) –, Lauremar se inscreveu no vestibular da Universidade Zumbi dos Palmares após ser encorajado pelos familiares.

A experiência foi desafiadora, pois ele nunca havia sequer entrado em uma faculdade. “Não sabia qual seria o tema da redação e as perguntas, e era a minha primeira vez. Você já sente um clima totalmente diferente”, lembra.

Quando o resultado da prova saiu, ele se dirigiu aos familiares cabisbaixo. Mas tudo não passava de um truque para enganá-los: ele havia sido aprovado no exame. Quando souberam da aprovação, todos ficaram muito animados. “Minha reação foi a melhor possível. Fiquei muito feliz mesmo”, conta Lauremar.

Lauremar Roque entrou na universidade aos 55 anos com o apoio da família @Arquivo pessoal

Ele ainda se lembra da sensação que teve ao adentrar a universidade no primeiro dia de aula, em 2017. Segundo ele, parecia um sonho. “Com o apoio da família e de amigos, entrei lá com uma experiência de vida e a missão de não errar ou errar o mínimo que eu pudesse. E assim foi feito”, diz.

Ao abrir o caderno, presente que recebeu das filhas, outra surpresa: a frase ‘Deus esteja sempre presente na sua vida, pai. Você vai vencer esse desafio’ e outros incentivos foram escritos pelos familiares. “Aquilo teve um peso muito grande porque, sempre que ia às aulas, eu pensava neles”, lembra.

Os desafios da nova etapa

Durante o curso, Lauremar dividiu a sala de aula com pessoas de diferentes idades. Segundo ele, a turma era mista com jovens de 17 anos recém-formados no ensino médio, pessoas na faixa dos 35 anos e alguns alunos mais velhos do que ele. Apesar disso, ele não sentiu nenhuma diferença de tratamento entre os estudantes da turma.

“É por isso que o direito é fascinante. O mesmo respeito que tinham com os mais velhos, tinham com os garotos de 17 e 18 anos. Todas as pessoas eram iguais.”

Lauremar Roque, bacharel em direito

A idade não foi um problema para Lauremar, mas ele não ficou isento dos desafios de uma graduação. Com receio de falar em público, diversas vezes teve que vencer esse medo para fazer apresentações de trabalhos diante dos 80 colegas de classe.

Mas ele tirou de letra e a experiência fez com que o bacharel em direito aprendesse a falar abertamente sobre qualquer assunto. “Cresci imensamente nesses cinco anos do curso”, garante.

Fora da sala de aula, houve outro desafio: a locomoção até a faculdade. Os três primeiros anos da graduação foram presenciais, o que rendia um trajeto de cerca de duas horas, saindo de Cidade Tiradentes em direção à universidade no distrito do Bom Retiro, no centro.

Ônibus, trens e o Metrô eram os tipos de transporte utilizados diariamente. Ele saía do extremo leste da cidade por volta das 17h, ainda correndo o risco de chegar atrasado na primeira aula.

Em alguns dias, a preocupação com o atraso era ainda maior. “O que complicava era em dia de prova, porque elas têm horário para começar. Às vezes o Metrô dava problema, então eu já saía de casa preocupado”, relata.

Porém, com a pandemia de Covid-19, Lauremar passou a acompanhar as aulas em casa, o que lhe poupou do deslocamento. Foi nessa mesma época em que ele iniciou os estágios em direito civil, área que o encantou durante o curso.

Nas primeiras experiências, estagiando a partir do oitavo semestre, muitos escritórios estavam atuando em regime home office. Por isso, ele acompanhava as audiências das áreas civil e trabalhista sempre à distância.

Todas as áreas da profissão o fascinaram, mas foi no direito das sucessões, que regula o conjunto de leis relacionadas à transferência de patrimônio após a morte de alguém, em virtude de lei ou testamento, que ele decidiu se especializar. A justificativa, segundo ele, foi o gosto pela matemática.

“Advogado não gosta de matemática, mas eu sempre tive uma quedinha por números. Na partilha [de bens] vai muito disso.”

Lauremar Roque, bacharel em direito

Agora Lauremar planeja conquistar os diplomas de mestrado e doutorado, construir carreira no direito das sucessões e se tornar “craque” na área. Mas, antes disso, ainda há uma etapa muito importante: passar no exame da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

O mais recente Exame de Ordem Unificado foi aplicado no último dia 20 de fevereiro. O resultado preliminar da 1ª fase será divulgado em 7 de março, e o resultado definitivo no dia 21 do mesmo mês.

“Meus planos para o futuro profissional são os melhores possíveis. Em relação à OAB, são três coisas que tenho que fazer: estudar, estudar e estudar. E muito. Porque o exame de ordem não é fácil”, conta Lauremar, que atualmente está desempregado.

E, apesar de estar iniciando a carreira aos 61 anos, ele se mostra confiante em relação ao mercado de trabalho. “Diferentemente da empresa privada, o operador de direito é um profissional liberal. Não tem essa diferenciação do mais jovem ou mais velho, depende muito da competência do profissional”, finaliza.

As provas da 2ª fase da OAB ocorrem no dia 24 de abril. Somente após passar no exame, os candidatos podem exercer plenamente a profissão de advogado.

Nathália Nunes

Jornalista, nascida e criada na Cidade Tiradentes. Gosta de estudar sobre sociedade e cultura, além de ser apaixonada por rap, cinema e fotografia. Correspondente de Cidade Tiradentes desde 2021

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