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Após perda de renda na pandemia, pedreiros têm retomada lenta nas periferias

Profissionais que trabalham na construção em bairros das periferias da região metropolitana contam os desafios durante a pandemia para pagar as contas e escapar do vírus

Mesmo enquanto prepara o cimento e sobe e desce as escadas da obra onde está trabalhando, em Barueri, na Grande São Paulo, João Bezerra Guimarães, 58, não se separa do chapéu azul que leva na cabeça e da máscara de pano, da mesma cor, que protege o nariz e boca. 

Conhecido como “Seu Carlos” no bairro, faz cerca de 30 dias que ele voltou a trabalhar após um período de quase quatro meses parado em casa, não por opção, mas por falta de serviço. “É muito difícil você ficar parado, porque vivo disso e não tenho aposentadoria”, conta. 

“Quando começou essa parte do coronavírus ficou muito difícil, a gente só não passou apertado porque eu tinha uma ‘merrequinha velha’ de muito tempo atrás e fui segurando”, ressalta o pedreiro, que mora com a filha de 13 anos em uma casa alugada no bairro Cidade Ariston, em Carapicuíba.

O que falta para ‘Seu Carlos’ conseguir se aposentar não são anos trabalhados, mas o registro na carteira. Nascido em Pernambuco, veio com a família para o estado de São Paulo com 14 anos, mas mesmo antes disso, aos sete, já trabalhava.

Quarentena ainda afeta trabalho de pedreiros nas periferiasAna Beatriz Felicio/Agência Mural

“Comecei muito novo e a minha chance foi muito pouquinha. Venho de uma família pobre e a gente tinha que trabalhar pra ajudar. Não tinha aquele negócio de empinar pipa, brincar”, relembra.

Hoje considerado um pedreiro experiente e “dos bons”, ele se preocupa com a timidez que a área de construção civil vem demonstrando mesmo com a retomada das atividades na Grande São Paulo.

Ele afirma que antes da pandemia afetar a economia, chegava a ganhar cerca de R$ 4.000 mensais e agora consegue menos de R$ 2.000.

“Está muito tímida a volta, fica difícil para gente ganhar o pão de cada dia”. Ele conta que conseguiu receber as primeiras parcelas do auxílio emergencial, mas que como paga o aluguel e as contas de casa, ainda passa apertado no final do mês.

Além da preocupação financeira, existe ainda o medo de ser contaminado pelo coronavírus, que considera uma doença muito “matadeira”. “Se tivesse um salário, uma oportunidade, eu ficaria em casa. É uma doença muito triste e tem que ter cuidado porque não temos um remédio”.

Enquanto ele não vem, Bezerra tenta seguir todas as orientações de segurança. “Vamos fazer o que a gente pode. Tomara que essa doença vá embora e deixe nossa população em paz”.

FICAR EM CASA

Na pandemia, uma alternativa para os autônomos foi usar aplicativos. Um deles é o GetNinjas, plataforma para conectar clientes a prestadores de serviços no país.

Por lá, os serviços mais procurados no estado de São Paulo durante a quarentena (entre março e a primeira quinzena de agosto) foram os pedreiros. Depois deles, técnicos de celular, profissionais de mudanças e carretos, os técnicos de televisão e montadores de móveis.

Na análise dos profissionais que foram mais contratados e que a demanda cresceu no período, os pedreiros ficaram na 12ª posição, com crescimento de 31% na comparação com o ano passado.

Seu Carlos trabalha na área desde os 7 anos, quando vivia em PernambucoAna Beatriz Felicio/Agência Mural

No entanto, como Seu Carlos, muitos pedreiros não acessam esse tipo de dispositivo, o que não amenizou a perda de renda.

No Jardim Varan, cidade de Suzano, na Grande São Paulo, o pedreiro Arivaldo Silva Viana, 40, diz que essa fase também foi bem parada. Para evitar contaminação pelo vírus, escolheu ficar em casa e se proteger. Durante o período, lembra que passou por problemas financeiros. “Tive que gastar dinheiro com despesas de casa que ganhei no meses anteriores”, comenta.

Sem renda adicional, tentou o auxílio emergencial, mas não teve sucesso. “Não consegui porque antes da pandemia fiquei registrado por dois meses. Aí fui mandado embora e por isso não fui aprovado”.

Quem também escolheu ficar em casa foi o pedreiro Antônio Gomes Laurindo, 66. Morador do bairro Riviera Paulista, na zona Sul de São Paulo. Aposentado, ele está sem trabalhar desde que pandemia começou. 

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Bicos ainda são saída para pedreiros nas periferias de SP Ana Beatriz Felicio/Agência Mural
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Com pandemia, alguns profissionais ficaram sem renda e com receio de sair de casa Ana Beatriz Felicio/Agência Mural
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Alguns pedreiros conseguiram trabalho com aplicativos Ana Beatriz Felicio/Agência Mural
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Seu Carlos, em Barueri, onde trabalha Ana Beatriz Felicio/Agência Mural

“Por causa da aposentadoria estou mais sossegado. Se não, estaria apertado, o negócio estaria difícil e teria que continuar trabalhando mesmo com tudo que está acontecendo”, pondera. Além dos trabalhos autônomos como pedreiro, no passado Laurindo trabalhou com solda em empresas privadas.

O pedreiro conta que mesmo durante o isolamento social as pessoas não o deixaram de procurar para realizar obras, pedidos que ele vem rejeitando até então. “Serviço de pedreiro aqui pela região ficou em alta mesmo na pandemia, várias pessoas ligavam pra mim, me procurando, mas eu fui desistindo de fazer”.

Laurindo, que mora também com a esposa, aproveita o tempo para realizar pequenos reparos na própria casa. “Estou levantando umas paredinhas aqui para fazer um cômodo para colocar as ferramentas. Estou sossegado em casa longe do povo. Depois que tiver a vacina e as coisas melhorarem, talvez eu volte a trabalhar de pedreiro normal. Por enquanto o principal é cuidar da saúde”.

Ana Beatriz Felicio

Jornalista e correspondente de Carapicuíba desde 2018. Curiosa, vive com a cabeça no mundo da lua. Gosta de conhecer pessoas e descobrir o que as motiva a acordar todos os dias. Apaixonada por novas aventuras, histórias, gostos e lugares. É daquelas que está sempre viajando, quando não fisicamente, com a ajuda de algum livro de fantasia ou de um bom filme.

Carapicuíba

Lucas Veloso

Jornalista, cofundador e correspondente de Guaianases desde 2014.

Guaianases, São Paulo

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