Artilheiro do Barro Branco jogou profissionalmente e vê recomeço na várzea

Maurício jogou no Espírito Santo e avalia conquista; treinadores falam da decisão da Super Copa Pioneer, decidida em Diadema

Quando Mauricio, 23, saiu do gramado em cima da maca para receber atendimento médico, torcedores do Milianos provocaram o atacante do Barro Branco. Sérgio Pioneer, criador da Super Copa Pioneer, pediu calma para três deles que subiram em cima do vidro, que separa o público do campo, para reclamar do atleta.

A birra não era por acaso. Maurício, o Mau Mau, apelido usado pelo narrador da partida, havia marcado o primeiro gol da vitória por 2 a 1 para a equipe de Cidade Tiradentes, que garantiu o título do torneio neste domingo (19), no estádio Distrital do Inamar, em Diadema, Grande São Paulo. Além disso, marrento, o atleta provocava a defesa adversária e reclamou com o bandeirinha de que o zagueiro tentou intimidá-lo.

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Por trás dessa marra, contudo, estava um jogador que encontrou na várzea um jeito de recomeçar a carreira esportiva. “Sem palavras pra descrever [o título]”, afirmou na saída do gramado. “Desde que eu parei de jogar no profissional, [pensei que] nunca mais eu ia viver isso. E estou vivendo de verdade, intensamente”, afirmou o artilheiro da competição ao ver a festa da torcida da zona leste. 

Mais de 7 mil ingressos foram distribuídos para a decisão e alguns vieram de ônibus de Cidade Tiradentes para acompanhar a partida.

Maurício após atendimento médico (André Santos/Agência Mural)

Morador do Jardim São Pedro, na zona leste, Maurício tentou atuar profissionalmente até os 20 anos. Chegou a jogar pelo Doze, time do Espírito Santo, mas a carreira não avançou. “Parei por alguns erros meus mesmo, assumo, mas Deus é gratificante, está deixando eu viver isso novamente na várzea. Viemos com o coração mesmo no bico da chuteira e saímos com o título”, completou.

Maurício foi um dos reforços que o Barro Branco buscou para disputar o torneio. De acordo com o técnico Gil, quatro atletas chegaram no começo da competição, enquanto os demais fazem parte do grupo há três anos.

Gil é uma espécie de faz tudo na equipe da zona leste. É o técnico, mas também o presidente do time criado em 2013 para jogar futsal. Em 2016, a equipe começou a disputar jogos de campo. “Não dá nem pra gente descrever, primeira vez que a gente entra e faz uma campanha dessa. Nove jogos e nove vitórias acho que é pra ficar marcado mesmo para sempre”, afirmou o treinador.

Gil é técnico e presidente do Barro Branco (André Santos/Agência Mural)

Na sequência, emendou um discurso típico dos gramados do Brasil. “Mais difícil não é chegar, é se manter lá. Continuar fazendo o mesmo trabalho que a gente faz na comunidade, pés no chão e humildade, respeitando todo mundo.”

O Barro Branco venceu um tradicional time da várzea de São Paulo. O Milianos soma 17 anos de história no Jardim Rosana, um dos bairros do distrito do Campo Limpo, na zona sul de São Paulo. Assim como o adversário, a equipe tem um técnico que faz parte da diretoria: Marquinhos.

Ele não escondeu as falhas da equipe na primeira etapa, fatais para o resultado. “Esse ia ser um jogo muito intenso e de velocidade, então, a questão física ia prevalecer. No primeiro tempo, fizemos um jogo apático e os caras foram merecedores do placar que fizeram”, avaliou.

Milianos é comandado por Marquinhos (André Santos/Agência Mural)

“Minha defesa é bem postada e, em falhas individuais, eles acharam os dois gols. No segundo tempo viemos com outra postura, da forma que deveríamos iniciar, criamos, fizemos, só que quem manda em tudo é aquele lá de cima, como ele [Deus] ordenou que não era pra ser nosso, a equipe do Barro Branco está de parabéns”.

Marquinhos já jogou futebol e é um dos fundadores do time, criado em 2002, junto com Delei, atual presidente da agremiação. “Tenho certeza de uma coisa, a quebrada, a região, está orgulhosa do trabalho que a gente fez”, comenta.

A equipe trabalha com jogadores nas categorias de base e tem 12 jogadores do atual time formados no bairro. “Temos um projeto social lá, e agrega muita coisa. Não é só a bola, a gente carrega uma comunidade e a comunidade acompanha a gente.”

Paulo Talarico

Editor-chefe de jornalismo, cofundador e correspondente de Osasco desde 2011. Formado em jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu, tem pós-graduação em jornalismo esportivo e curso técnico de locução para rádio e TV. Atualmente, estuda História na Universidade de São Paulo. Gosta de café, Osasco, livros, futebol e cinema.

Osasco

André Santos

Jornalista, correspondente do Jardim Fontalis desde 2017. Integrante do Coletivo Favela em Cena de teatro (ator e diretor). Ama carnaval e jura que é baiano (tem que checar isso aí, ok?).

Jd. Fontalis, São Paulo

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