‘Cada vez mais, nós meninas negras, estamos nos aceitando’, diz Mc Soffia

É terça-feira. Enquanto pessoas circulam pelas ruas do centro de São Paulo para almoçar, Soffia Gomes da Rocha Gregório Correia, a Mc Soffia, chega acompanhada da avó na biblioteca Monteiro Lobato, com camisa verde, shorts, boné e cabelos crespos.

Nascida e criada na periferia da zona oeste de São Paulo, na Cohab Raposo Tavares, a menina de 14 anos é uma das referências infantis no rap, com letras e rimas sobre aceitação e a desconstrução do preconceito entre as crianças. Nesta terça-feira (20), é celebrado o Dia da Consciência Negra.

Receba nossa newsletter!

“Ao mesmo tempo em que tem a coisa da diversão, as pessoas vão pegar a mensagem que estou querendo passar. Eu falo sobre o feminismo, sobre o empoderamento da menina negra, pra ela gostar do seu cabelo, da sua cor. Acho que as crianças pegam essas referências”, pontua.

O trabalho tem dado resultado. A rapper começou no hip hop após participar de uma oficina onde tinha aulas de canto, dança, grafite e de DJ. O que mais chamava a atenção era cantar.

Aos 12 anos, participou ao lado de Karol Conka da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos. “Ela (Carol) foi a primeira mulher que gostei mesmo. Eu falei ‘quero ser igual’, cantar com ela e quero ser muito amiga”, relembrou.

A filha mais velha do ator Will Smith, a cantora americana Willow Smith é outra inspiração. Por outro lado, Soffia afirma que hoje ainda faltam referências às meninas de sua cor e que o objetivo é servir de exemplo para quem a vê cantar.

Com apoio e incentivo da família, a Mc relembra o início da carreira na música, quando surpreendia o público. “O povo achava que eu ia cantar ‘borboletinha está na cozinha / fazendo chocolate para a madrinha’, mas eu mandava logo um rap”, explica. “Era engraçado”.

Entre a rotina de shows e a escola (está na oitava série), Soffia procura se dedicar a outros projetos que gosta. Ela mantém um canal no Youtube e tem realizado um bate papo chamado ‘Preteenha Rainha’. Os encontros reúnem meninas negras de 10 a 17 anos para falar sobre racismo e aceitação da estética negra.

A ideia do projeto partiu da mãe, Kamilah Pimentel, que também é empresária da filha. Logo que a mãe comentou, Soffia lembra que pensou: ‘então, não pode entrar adulto’.

Apesar da responsabilidade musical, brincar e estar com os amigos ainda são prioridades para a cantora: ela  gosta de jogar taco e de brincar de “polícia e ladrão”. “As minhas lembranças são de um monte de meninos e meninas correndo na rua. Da hora!”.

Cantora morou na Cohab Raposo e segue na escola (João Paulo Brito/Agência Mural)

Recentemente, ela foi indicada ao prêmio BET Awards 2018 na categoria de Artista Revelação Internacional, o prêmio foi criado pela Black Entertainment Television para contemplar artistas negros com trabalhos de destaque no ano. “Pretendo aparecer mais vezes e da próxima vez poder ir e cantar nas premiações”, comenta.

“Eu nunca imaginei. Uma menina negra do Brasil? Não teve outra mulher representante do país.” conta animada. “Fiquei feliz do povo ter votado em mim e de ter aparecido internacionalmente, porque todo mundo que eu admiro tava lá”.

Às crianças, que formam a maior parte do seu público, a Mc costuma mandar mensagens de motivação para enfrentar o rascismo. “Sigam seus sonhos. Se aceitem, se gostem, independente das pessoas falarem que você é feia, que seu cabelo é ruim, sabe? Você tem que se aceitar e pensar que você é bonita, bonito, que você pode, você é poderosa, você é poderoso”.

Ela diz que tem percebido mudanças significativas.“Cada vez mais, nós meninas negras, estamos nos aceitando, os nossos cabelos, a nossa cor”.

Luana Nunes, Lucas Veloso e André Santos são correspondentes de Parelheiros, Guaianases e Jardim Fontális

Consciência Negra