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Agência de Jornalismo das periferias

Por: Mariana Lima

Notícia

Publicado em 22.03.2023 | 16:01 | Alterado em 22.03.2023 | 19:26

Tempo de leitura: 6 min(s)

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A Subprefeitura de Parelheiros iniciou o ano de 2022 com um orçamento de R$ 83 milhões para os serviços na região que fica no extremo sul de São Paulo. No final do ano, cerca de R$ 120 milhões foram gastos, tornando a administração regional a que mais teve recursos ao longo do ano entre as 32 administrações regionais da capital, mostra levantamento da Agência Mural.

Os recursos se tratam apenas do que foi realizado pela própria subprefeitura e não pelas demais secretarias. Só nesse sentido, foram investidos R$ 727 por morador, enquanto há subprefeituras que tiveram menos de R$ 100.

Apesar da quantia, lideranças comunitárias apontam um retorno que ainda não atende às demandas dos bairros, principalmente dos mais afastados da região central dos distritos de Parelheiros e Engenheiro Marsilac, que são administrados pelo órgão.

De acordo com Keila Pereira, 26, produtora cultural e moradora do bairro Chácara Eldorado, o alto valor investido em ano de eleição não é coincidência. “Parelheiros é um território grande que requer um investimento alto. Precisamos de melhorias em todos os lugares, mas existem situações absurdas. Esse valor diz mais sobre o interesse político na região do que sobre as reais necessidades locais”, pontua.

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Em junho do último ano, durante a celebração do aniversário de Parelheiros, foram anunciados diversos investimentos na região por meio de programas da Prefeitura de São Paulo. O recapeamento das principais vias da região, como a estrada Ecoturística de Parelheiros, estrada do Marsilac e a avenida Professor Hermógenes de Leitão Filho.

Previstas no orçamento da subprefeitura, as obras estão sendo feitas também com verbas do Programa de Recuperação de Estradas Vicinais, do DER (Departamento de Estradas e Rodagem).

Nascida em Parelheiros, Keila conhece as dificuldades que a população enfrenta há décadas, como o caso da Vila Marcelo, bairro que não tem CEP (Código de Endereçamento Postal) em diversas ruas, e o bairro Jardim Nova América, localizado próximo ao bairro Barragem, que ainda lida com ruas sem asfalto e iluminação pública improvisada pela população.

‘A maior parte das obras é de pavimentação, porque é a coisa mais fácil de dar visibilidade. Mas elas não vêm acompanhadas de tratamento correto do esgoto, acesso à água encanada e iluminação pública de qualidade’

Keila Pereira, produtora cultural

Ao longo de 2022, as obras que Keila observou pela região com maior frequência foram de zeladoria, como limpeza de praças, bueiros e córregos. Para ela, falta um planejamento para que esses investimentos gerem desenvolvimento social dos distritos de Parelheiros e Marsilac.

“Estamos vendo um marketing maravilhoso sobre a região como Pólo Ecoturístico, mas não adianta falar das trilhas, cachoeiras, do artesanato, se tem gente com lama no pé e casa alagada.”

Pintura de faixa na avenida Professor Hermógenes de Leitão Filho. Recursos para melhoria nos bairros concentrou os gastos da subprefeitura @Mariana Lima/Agência Mural

Alagamentos

Apesar da subprefeitura ter ultrapassado o valor previsto, algumas áreas não receberam os recursos que estavam previstos. Em 2022, foram investidos R$ 844 mil na “Manutenção e Operação no Serviço de Guias e Sarjetas (Vias e Logradouros)”, quando estavam previstos mais de R$ 1 milhão. No caso da “Manutenção de Sistemas de Drenagem”, foram R$ 5 milhões, em vez dos R$ 8 mi prometidos na LOA (Lei Orçamentária Anual).

Praticamente todo o recurso da subprefeitura foi destinado para ‘Intervenção, Urbanização e Melhoria nos Bairros’, que saiu de uma previsão de R$ 27 milhões, para uma despesa de R$ 83 mi ao longo do ano.

No entanto, esse valor ainda não surtiu efeito em relação aos alagamentos. A região central de Parelheiros, Vargem Grande e bairros do Marsilac sofreram novamente com problemas em dias de chuvas fortes.

Rua Meire Schunk, no bairro Jardim São Fernando, foi afetada pelas chuvas @Arquivo Pessoal

Quem conhece bem essa realidade é a educadora social Ligia de Jesus Bezerra, 41. Há quase oito anos ela vem atuando como liderança comunitária no bairro Jardim dos Álamos, onde vive, e na Comunidade Galiléia, que fica atrás da Subprefeitura de Parelheiros.

Em fevereiro deste ano, famílias que vivem na Galiléia tiveram as casas invadidas pela água, perdendo alimentos, móveis e eletrodomésticos. Situação que ocorre anualmente na região, revela Ligia. No ano passado, os moradores dali perderam os bens devido aos alagamentos ao menos duas vezes.

“Quem mora nas vielas perdeu tudo. A água batia no joelho. Nós [moradores do bairro] já fomos em reuniões na subprefeitura, já fizemos ofício com vereadores, mas nada de resolver a situação”, conta Lígia.

Apesar das obras que vêm sendo feitas no centro de Parelheiros para a canalização – ainda não finalizadas – e limpeza dos córregos e esgotos, pouco resultado tem sido visto por quem mora no Jardim dos Álamos. “Não sei onde é que eles [Subprefeitura] estão investindo, mas aqui não é”, reforça Ligia.

Ligia já observa um cansaço entre a população pela demora em conseguir o básico. “Temos vídeos do esgoto tomando conta das casas, pedras descendo pelas vielas. Eles fazem esse bendito recapeamento, que a primeira chuva leva e entope tudo porque o bairro está em um terreno desnivelado”, desabafa.

Marsilac

Outra região onde moradores não viram os resultados desses investimentos é o distrito de Engenheiro Marsilac. A porteira Luzaine Mendes Ferreira da Silva, 45, é moradora do bairro Jardim Embura e vem lutando junto com outros moradores da região por um direito básico inserido na Constituição: saneamento básico.

Desde 2018, a Agência Mural denuncia a situação do bairro que, além da falta de coleta adequada do esgoto – levando os moradores a utilizar fossas sépticas –, tem a água consumida pela população vinda de poços artesianos, por vezes, expostos à contaminação do solo.

“Estamos lutando por uma demanda que já está aprovada há dois anos. E não tem o que fazer porque quando está calor [sem chuvas] não dá pra encher nenhuma caixa d’água”, conta Luzaine.

A falta de asfalto nas ruas internas dos bairros também é um problema, pois quando chove os moradores precisam lidar com um lamaçal que afeta até a circulação dos microônibus.

“As lotações demoram mais porque quebram, ficam presas na lama. Às vezes chega a demorar duas horas pra passar algo”, afirma.

A região ainda enfrenta problemas quanto ao acesso à energia elétrica, incluindo iluminação pública. Apesar da Enel ter feito trabalhos na fiação em diversos pontos do distrito, bairros como o Cipó do Meio e Jardim dos Eucaliptos têm fios caídos ou em postes de madeira improvisados pelos próprios moradores.

“Os fios ficam na frente dos portões e as pessoas acabam levando choques. E quando a energia cai perdemos comida na geladeira e os eletrodomésticos queimam”, revela Luzaine.

Estrada da Ponte Seca após chuva este ano @Arquivo Pessoal

A agente comunitária de saúde Maria Marivalda de Jesus Nascimento, 32, atua há 12 anos como liderança comunitária na Ponte Seca, bairro do distrito Engenheiro Marsilac, e nota uma maior abertura para diálogo na Subprefeitura e alguns resultados, como a frequência regular de poda dos matagais e manutenções nas ruas principais. Contudo, observa a falta de investimentos em problemas estruturais.

‘A gente fala das dificuldades [para a Subprefeitura] mas não vê trabalhos sendo feitos por aqui. É frustrante ver poucas coisas acontecendo’

Maria Marivalda de Jesus Nascimento, 32, agente comunitária

O Orçamento da Subprefeitura de Parelheiros para 2022 previa obras específicas na região de Barragem e Vargem Grande, mas nenhum dos valores previstos para essas obras foi executado. Um exemplo é a obra para reconstrução da Escola Estadual Renata Menezes dos Santos, localizada no bairro Barragem, que foi incendiada em novembro de 2014.

“Só fazem [Subprefeitura] esse recapeamento, mas nas ruas para dentro dos bairros ninguém mexe. Pra mim, estão fazendo um serviço que já existe”, conta Sidineia Chagas, mediadora de leitura da biblioteca comunitária Caminhos da Leitura e moradora do Barragem.

A sensação de abandono fortalece a visão de “bairro dormitório” na região de Parelheiros e Marsilac. Para a produtora cultural Keila Pereira é essencial a criação de um planejamento territorial de longo prazo.

“O que a gente quer de Parelheiros para daqui 20 anos? Porque do jeito que é tratado hoje, vamos ter uma área de proteção ambiental muito menor, não teremos um dos últimos rios limpos da cidade [Rio Capivari] e dificilmente vamos ter um IDH maior. É o desenvolvimento social com planejamento urbano que pode mudar isso”, pondera.

Prefeitura

Em resposta à Agência Mural sobre a situação da canalização dos córregos dos distritos de Parelheiros e Marsilac, a Prefeitura de São Paulo informou que a subprefeitura “realizou estudos técnicos com base na bacia de distribuição dos córregos em obra. O volume de chuvas acima do previsto, neste período do ano, provoca alagamentos e atrapalha o trabalho das equipes”.

Ainda segundo a nota, as obras de canalização devem ser finalizadas até o fim deste ano.

Sobre a situação do bairro Jardim dos Álamos, a gestão afirma que, por meio da Subprefeitura de Parelheiros, quatro vielas do bairro foram revitalizadas, faltando apenas uma que ainda necessita ter a rede de esgoto implementada para receber a pavimentação.

“A implementação está prevista para acontecer este ano, e será feita pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (SABESP) e pela Secretaria de Habitação de São Paulo (SEHAB)”.

Em relação ao gasto maior do que o previsto no Orçamento de 2022, a Prefeitura defende que “os valores superiores ao previsto para a região foram investidos nessas e outras ações de zeladoria” e que a subprefeitura também tem “gastos com água, luz, portaria, faxina, equipes de áreas verdes, galerias, logradouros, limpeza de córregos, manutenção e perenização de estradas e ruas e mais.”

Sobre a situação da falta de CEP em Marsilac, a Prefeitura informou que “os locais não completados com Código de Endereçamento Postal (CEP) são encaminhados para os Correios”, enquanto que foi solicitado à Sabesp a verificação do fornecimento de água e esgotamento sanitário para a região.

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Mariana Lima

Jornalista e roteirista. Coautora do livro-reportagem "A Voz Delas: a literatura periférica paulistana". Pode ser vista com frequência em bibliotecas públicas. Correspondente de Parelheiros desde 2021.

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